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Belo Horizonte,17/04/2026

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Exposição transforma Parque Vila Velha em galeria de arte a céu aberto

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Exposição transforma Parque Vila Velha em galeria de arte a céu aberto
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O QUE ACONTECE QUANDO A ARTE OCUPA UM TERRITÓRIO onde o tempo já esculpiu tudo antes? No Parque Vila Velha, em Ponta Grossa, PR, quase não há vazio a ser preenchido. Formações de arenito, moldadas ao longo de milhões de anos, instauram uma paisagem que parece definitiva e, ao mesmo tempo, em constante transformação. Ali, a matéria expõe seus próprios processos, como se o tempo deixasse de ser abstração para se tornar visível. Ainda assim, é nesse cenário que o Museu Oscar Niemeyer decidiu instalar a primeira itinerância do programa MON sem Paredes, que leva obras para além dos limites físicos da instituição, sediada em Curitiba. Para o curador Marc Pottier, a iniciativa nasce de uma inquietação antiga: museus recebem visitantes, mas nem sempre alcançam todos. “Muitas pessoas ainda sentem uma espécie de intimidação diante do museu”, afirma. O projeto surge para romper essa lógica. Em vez de esperar o público atravessar a porta, a arte se aproxima dele.
A escolha do local impõe uma questão: o espaço é, ele mesmo, uma forma de escultura — a paisagem, portanto, não facilita para outros protagonistas. As rochas colossais espalhadas pelo parque — algumas lembrando taças, outras animais ou ruínas imaginárias — parecem ter sido moldadas por um artista paciente, trabalhando com a matéria mais lenta do mundo: o tempo geológico. “O lugar fala por si”, diz Pottier. “Ali, a natureza parece ter se tornado artista.” Diante disso, a curadoria evitou qualquer gesto grandiloquente. As intervenções foram distribuídas ao redor de um desenho concebido pelo arquiteto Fernando Canalli, como uma espécie de mandala discreta que organiza o percurso. Em vez de monumentos, surgem obras de arte que aparecem gradualmente, como desvios na caminhada.
Entre as criações, Um Vento Pintado, de Gustavo Utrabo, parte de uma imagem quase intangível. O arquiteto recorre ao poema O Vento, de Manoel de Barros, para pensar aquilo que atravessa o parque sem se deixar ver. Sua pesquisa com vidros artesanais, material historicamente associado aos vitrais, encontra ali um campo expandido. “Em Vila Velha, torna-se impossível ignorar o tempo silencioso que moldou essas rochas”, diz. Sua obra tenta capturar esse fluxo por um instante, como se vento e areia fossem encapsulados.
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Exposição transforma Parque Vila Velha em galeria de arte a céu aberto
O arquiteto Gustavo Utrabo posa diante de Um Vento Pintado, sua estrutura feita de vidro artesanal
André Klotz
Um Vento Pintado, de Gustavo Utrabo
André Klotz
TERRA CHAMANDO
A escultura Reconstrução, de Tom Lisboa, que captura e retém a poeira do vento
André Klotz
Também interessado nos vestígios do território, Tom Lisboa concebeu Reconstrução — uma escultura em processo. A estrutura metálica sustenta uma malha capaz de capturar poeira e partículas transportadas pelo vento; com o tempo, a superfície se altera, adensando-se de maneira quase imperceptível. Se os arenitos se formaram pela erosão, Tom propõe o movimento inverso: uma forma que se constrói pelo acúmulo.
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O artista Tom Lisboa
André Klotz
Denise Milan investiga o olhar como experiência ativa em Olhoscópio, escultura que enquadra a paisagem e reorganiza a percepção de escala
André Klotz
Em outra direção, Denise Milan apresenta Olhoscópio, que transforma o ato de observar em experiência ativa. Conhecida por décadas de pesquisa com cristais e minerais, a artista concebeu a peça como instrumento para reenquadrar escalas temporais. Ao mirar a paisagem através da estrutura, o visitante percebe que aquilo que parece imóvel resulta de forças em ação há milhões de anos. “O olhar não apenas vê, ele participa”, afirma Denise. Essa participação também pode ser corporal. Em Maca Arenito, de Alexandre Vogler, as pessoas encontram um híbrido entre escultura e mobiliário, já que ao deitar-se sobre a peça, o corpo se ajusta à contemplação das rochas monumentais adiante. “Ela existe para orientar o ponto de vista”, explica o artista.
A artista Denise Milan
André Klotz
Em Maca Arenito, Alexandre Vogler cria uma escultura-mobiliário que convida o visitante a se deitar e contemplar a paisagem
André Klotz
O artista Alexandre Vogler
André Klotz
Para Sonia Dias Souza, as camadas geológicas e históricas sobrepostas do parque não se anulam, mas constroem um campo vivo, onde diferentes temporalidades coexistem. Para sua obra Anathema, escolheu o aço corten como forma de reforçar essa ideia. Ao oxidar com o tempo, o material aproxima a escultura dos processos do próprio território. A estrutura, organizada em tríades que formam uma elipse aberta, evita um centro fixo e propõe um campo de relações. “Existe uma correspondência entre a superfície da obra e a geologia do lugar”, pontua.
A artista Sonia Dias Souza
André Klotz
Entre essas intervenções surgem ainda narrativas que ocupam o local de outra forma. O artista indígena Kulikyrda Mehinako apresenta duas esculturas baseadas em histórias transmitidas por seu povo no Alto Xingu. Em Homem-Tatu, recupera um mito no qual o tatu teria sido um humano punido pelos gêmeos Sol e Lua após se recusar a dividir frutos do pequi. Já Urubu-Rei de Duas Cabeças remete à história da conquista da luz, quando os mesmos gêmeos capturam o pássaro que guardava a claridade do mundo. Trazer essas narrativas para o parque possui significado particular para o artista. “Durante muito tempo os povos indígenas não tiveram reconhecimento de sua arte. Levar nossa história para um espaço como esse é muito importante.”
Urubu-Rei de Duas Cabeças e Homem-Tatu, de Kulikyrda Mehinako
André Klotz
Ao final do percurso, o que permanece é o encontro entre tempos distintos — geológico, mítico e contemporâneo. As obras surgem como pequenas interrupções do olhar — e, por que não, da pressa habitual dos dias. Em um lugar onde a escala geológica relativiza qualquer gesto humano, a arte aparece com discrição, não para rivalizar com a paisagem, mas para despertar outras formas de percebê-la.




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