Rio, couro e alma: O patchwork cultural de Patricia Viera na semana de moda carioca

O Rio de Janeiro deixou de ser apenas o endereço do ateliê de Patricia Viera para se tornar a alma de sua nova coleção de inverno. Em um desfile que marcou o reencontro da marca com sua essência carioca, a passarela do Rio Fashion Week testemunhou uma simbiose rara entre o rigor do couro e a leveza solar da cidade. Sob a direção criativa dividida entre Patricia e sua filha, Andrea Viera Baptista, a grife apresentou um manifesto de amor à herança familiar e à paisagem urbana, provando que a moda, quando feita com alma, é capaz de atravessar gerações.




O ponto de partida emocional desta temporada foi Vera de Magalhães. Aos 94 anos, a matriarca da família Viera foi a grande homenageada, personificando o elo entre passado, presente e futuro que define a marca. Esse sentimento de continuidade transbordou para colaborações com outras casas de DNA feminino, como a mineira Vivaz, cujas rendas e bordados — que exigiram mais de 300 horas de execução — trouxeram uma delicadeza artesanal que contrastou harmonicamente com a força do couro.
Visualmente, a coleção é uma viagem pelas texturas do Rio. Das curvas de Roberto Burle Marx aos mosaicos urbanos, a cidade foi fragmentada e reconstruída em superfícies táteis. A artista plástica Klaucia Badaró pintou manualmente paisagens icônicas, como as Ilhas Cagarras e a Igreja da Penha, sobre as peças, enquanto o grafiteiro Bruno Bogossian, do coletivo Fleshback Crew, imprimiu o gesto espontâneo das ruas no material nobre. A dualidade entre o brilho da festa e a casualidade do dia a dia foi pontuada por uma cartela de cores vibrante, incluindo uma saudação sutil à Estação Primeira de Mangueira através de tons de verde e rosa.



A sustentabilidade, pilar da marca desde 2017 através do projeto Zero Waste, ganhou novos contornos com o trabalho dos mosaicistas Natalia e John Reys. Fragmentos de couro que seriam descartados foram transformados em novas superfícies, criando um patchwork que aproxima o design da arte muralista. Nos detalhes, a colaboração de longa data com Marcela B trouxe calçados que mantêm a continuidade material da coleção, enquanto os acessórios da catarinense GUTÊ arremataram os looks com um design autoral e ousado.
Para selar a proposta de uma beleza sem artifícios, o beauty artist Daniel Hernandez optou por cabelos naturais e em movimento, reforçando a mensagem de uma elegância que nasce da confiança real. O desfile não apenas celebrou o inverno de Patricia Viera, mas reafirmou o Rio de Janeiro como uma fonte inesgotável de inspiração, onde a tradição do artesanato e a modernidade urbana caminham lado a lado. É um retorno às origens que, paradoxalmente, projeta a marca para um futuro cada vez mais autêntico e solar.
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