Casa aposta em impressão 3D e saberes vernaculares para reduzir impacto ambiental

Em um momento em que a construção civil busca reduzir seu impacto ambiental sem abrir mão de desempenho e viabilidade, esta casa assinada pelo escritório Superlimão propõe uma revisão prática de como se constrói no Brasil. Instalada na área externa do Parque Ibirapuera durante a 1ª edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, a estrutura de 46 m² funciona como um protótipo que articula inovação tecnológica e inteligência construtiva acumulada ao longo do tempo, com foco na redução de matéria, na eficiência energética e no uso consciente de recursos.
O projeto parte de uma premissa direta: construir melhor significa, antes de tudo, construir menos. Essa lógica aparece de forma evidente nos pilares estruturais, produzidos por impressão 3D em concreto. Ainda pouco difundida no país, a técnica permite um controle preciso da deposição do material, eliminando excessos e dispensando o uso de fôrmas. Inspirados na estrutura interna do caule da bananeira, esses elementos adotam uma configuração alveolar que equilibra resistência e leveza. Na prática, isso se traduz em uma redução significativa no volume de concreto utilizado, com impacto direto nas emissões de carbono associadas à obra.
O desempenho ambiental do conjunto reforça esse raciocínio. Com cerca de 38 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado, a casa opera em um patamar muito abaixo dos índices convencionais da construção, resultado não de uma solução isolada, mas da combinação entre diferentes estratégias. A tecnologia, nesse contexto, não aparece como um fim em si, mas como ferramenta para refinar decisões projetuais.
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A estrutura de 46 m² funciona como um protótipo que articula inovação tecnológica e inteligência construtiva
Israel Gollino/Divulgação
Essa abordagem se amplia quando o projeto incorpora soluções vernaculares. O piso elevado, por exemplo, retoma técnicas difundidas em diferentes regiões do país, como as palafitas amazônicas e as casas do sul. Ao suspender a construção do solo, cria-se uma camada de ventilação que contribui para o conforto térmico e reduz a interferência no terreno, mantendo sua permeabilidade. A base é executada com madeira de reuso, reforçando a ideia de prolongar o ciclo de vida dos materiais.
O projeto recorre a elementos vazados que permitem a circulação constante de ar e luz, favorecendo a ventilação cruzada
Israel Gollino/Divulgação
Nos fechamentos, o projeto recorre a elementos vazados que permitem a circulação constante de ar e luz, favorecendo a ventilação cruzada. Essa estratégia é complementada por uma abertura zenital central, que atua no chamado efeito chaminé, facilitando a saída do ar quente e reduzindo a necessidade de climatização artificial. As paredes combinam painéis de lã de PET reciclado, com função térmica e acústica, e superfícies tratadas com tinta de terra, que contribuem para a regulação natural da umidade interna.
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As cavidades internas dos pilares impressos permitem a passagem de instalações hidráulicas, eliminando etapas e materiais adicionais
Israel Gollino/Divulgação
A cobertura segue a mesma lógica de eficiência estrutural. Executada em madeira engenheirada, ela adota um sistema recíproco, em que cada peça apoia e é apoiada pelas demais. Inspirado em padrões naturais, esse arranjo distribui melhor os esforços e reduz a necessidade de reforços adicionais, ao mesmo tempo em que evidencia uma construção baseada em interdependência entre os elementos.
Executada em madeira engenheirada, a cobertura adota um sistema recíproco, em que cada peça apoia e é apoiada pelas demais.
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Outro aspecto relevante está na integração de sistemas. As cavidades internas dos pilares impressos permitem a passagem de instalações hidráulicas, eliminando etapas e materiais adicionais. Essa sobreposição de funções reduz a complexidade da obra e aponta para uma construção mais enxuta, em que estrutura e infraestrutura deixam de ser camadas separadas.
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A base é executada com madeira de reuso, reforçando a ideia de prolongar o ciclo de vida dos materiais
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Embora opere com tecnologias avançadas, a casa não se distancia de referências reconhecíveis da arquitetura brasileira. A organização espacial aberta, a permeabilidade dos fechamentos e a relação direta com o entorno aproximam o projeto de soluções historicamente adaptadas ao clima local. O desenho hexagonal reforça essa conexão ao combinar eficiência estrutural e referências formais presentes na natureza.
A organização espacial aberta, a permeabilidade dos fechamentos e a relação direta com o entorno aproximam o projeto de soluções historicamente adaptadas ao clima local
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Ao reunir fabricação digital, biomimética e estratégias passivas, a Casa Superlimão se insere em um movimento mais amplo de transformação da arquitetura. Em vez de propor respostas definitivas, o projeto funciona como um ensaio construído sobre novas possibilidades, em que a redução de impacto ambiental não depende de um único recurso, mas da articulação entre técnica, contexto e uso inteligente dos materiais.





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