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Belo Horizonte,05/04/2026

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Na Amazônia, hotel de luxo vira laboratório entre design, natureza e comunidade

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Na Amazônia, hotel de luxo vira laboratório entre design, natureza e comunidade
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À primeira vista, o Mirante do Gavião Amazon Lodge, em Novo Airão, AM, parece apenas mais um hotel de selva de luxo. Bangalôs em forma de barcos emborcados, desenhados por Patricia O’Reilly, do Atelier O’Reilly, emergem entre as árvores como se esperassem zarpar a qualquer instante. Mas basta atravessar a sinuosa passarela de madeira que liga a recepção aos quartos para entender: aqui, cada detalhe é parte de um experimento maior.
O retrofit recém-concluído, assinado por Ma­rilia Pellegrini, não somente modernizou um projeto que já soma 10 anos de vida. Ele explicitou uma pergunta que atravessa a Amazônia de hoje: o que significa habitar a floresta sem reduzi-la a um cenário exótico? “Desde o início buscamos fazer do lodge uma plataforma de desenvolvimento local. A reforma só reforçou esse compromisso, ao integrar ainda mais o trabalho de artesãos e associações da região”, diz Ruy Carlos Tone, sócio do empreendimento.
A atualização começou pela arquitetura. Envoltas pelo paisagismo assinado por Clariça Lima, as construções de madeira que abrigam quartos e o restaurante Camu-Camu, comandado pela chef Debora Shornik, eram poéticas, mas um tanto problemáticas. “O formato é belíssimo, porém a escuridão prejudicava o conforto. Nosso desafio foi reinterpretar essa concha sem diluir sua identidade”, conta Marilia. A resposta veio da própria mata: bandejas de madeira refletindo luz, pendentes em forma de aves suspensos sobre as mesas, iluminação indireta que não afugenta a fauna durante a noite. Nada de excessos urbanos; a proposta foi deixar a penumbra trabalhar a favor da experiência. “Você está no meio da floresta. O papel do design não é impor claridade, mas criar inquietude mínima”, completa a arquiteta.
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Na Amazônia, hotel de luxo vira laboratório entre design, natureza e comunidade
Erguidos com madeira de lei remetendo à forma de barcos emborcados, os bangalôs prestam homenagem à vocação naval de Novo Airão, AM
Ruy Teixeira/Divulgação
Vista panorâmica do Rio Negro e do Parque Nacional de Anavilhanas, segundo maior arquipélago de água fluvial do mundo
Ruy Teixeira/Divulgação
Além de renovação estética, o retrofit funcionou como mediação entre mundos. Cabeceiras de palha de arumã produzidas pela Associação dos Artesãos de Novo Airão, móveis de marchetaria com mão de obra local da Fundação Almerinda Malaquias, cestarias de cipó ambé tramadas pela Associação do Alto do Rio Jauaperi: cada peça instalada nos quartos traduz negociações delicadas, feitas por meio de viagens longas, amostras enviadas pelos Correios, contato precário e paciência rara. “Foi um processo lento, quase artesanal na forma de se comunicar. Mas é esse tempo que garante verdade ao resultado”, lembra Marilia. Para Patricia O’Reilly, o ponto central do projeto também é político: “É impossível falar de sustentabilidade sem falar das pessoas. A floresta não se preserva sem aqueles que a habitam”.
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Banco de marchetaria feito por artesãos da Fundação Almerinda Malaquias
Ruy Teixeira/Divulgação
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Quarto rodeado pela floresta tem cabeceira de palha de arumã produzida pela Associação dos Artesãos de Novo Airão
Ruy Teixeira/Divulgação
O que se oferece, afinal, ao hóspede que atravessa o mundo para dormir no coração da Amazônia? É nesse encontro entre sofisticação e saberes locais que a estadia se transforma em rito de passagem. O visitante não encontra só um quarto para dormir, mas uma atmosfera sensorial que não se replica em nenhum outro destino. O jantar, servido debruçado sobre o Rio Negro, tem algo de cerimonial místico; a piscina, emoldurada na mata intocada, reflete o céu que se confunde com a água; os passeios de barco revelam a floresta em camadas: o silêncio denso da manhã, o balé frenético das aves ao entardecer, a escuridão povoada por sons invisíveis à noite. O lifestyle aqui não é feito de ostentação, mas de oportunidades que obrigam o corpo a desacelerar e a percepção a se expandir. “O turismo não pode ser entendido apenas como lazer. Existe um movimento em direção a experiências transformadoras, de pertencimento”, provoca Ruy, deixando claro que não se trata de entretenimento, mas de impacto.
Com 47 m², a maior suíte do lodge exibe luminária de piso Arumã, do Studio MK27 em parceria com indígenas baniuas e a comunidade ribeirinha de Careiro, AM, e poltrona FJN, design Marilia Pellegrini, ambas da +55 Design
Ruy Teixeira/Divulgação
As construções, como a sala de jogos, têm bases elevadas a fim de preservar a permeabilidade do solo e escapar das cheias do rio
Ruy Teixeira/Divulgação
Varanda de um dos quartos, com rede da Nani Chinellato
Ruy Teixeira/Divulgação
A nova fase do Mirante do Gavião desmonta a ideia de que um hotel de selva precisa apenas encantar brasileiros e estrangeiros com exotismo. Ele funciona mais como um laboratório de convivência entre arquitetura e mata, hóspedes e comunidades, design e natureza. “Não se trata apenas de acolher viajantes, mas sim de fortalecer a Amazônia e quem a mantém viva”, reforça Ruy, como que a insistir em fixar uma mensagem. A frase ecoa porque desloca a questão do turismo amazônico: não basta apreciar a floresta, é preciso saber como estar nela.
*O jornalista viajou a convite do Mirante do Gavião Amazon Lodge




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