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Belo Horizonte,30/03/2026

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Após três falências, ex-segurança cria empresa para facilitar rotina de salões de beleza

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Após três falências, ex-segurança cria empresa para facilitar rotina de salões de beleza


A falta de gerenciamento do próprio ego sempre atrapalhou Lucas Olivetti, de 35 anos. Além disso, ele admite que não sabia lidar bem com os funcionários. “Eu queria mostrar aos outros que era capaz e acreditava que tinha razão em tudo”, afirma o empresário. Foi somente após a falência de sua terceira empresa, em 2016, que ele passou por um processo de reflexão, reconheceu suas limitações e decidiu mudar.
Nesse contexto, escolheu um caminho inusitado: buscou um curso de segurança para aprender a lidar com hierarquia e com o público. Entregou currículo diversas vezes no terminal de ônibus de Londrina (PR) até conseguir uma entrevista. Foi aprovado e, após dois anos trabalhando diretamente com o público, sentiu-se preparado para dar um novo passo rumo ao sonho de empreender.
Hoje, é dono da Papel para Mechas, empresa que produz um papel sustentável desenvolvido para substituir o uso de alumínio em salões de beleza durante o processo de descoloração capilar. Fundada em 2020, a companhia está presente em mais de 60 mil salões, em 19 países, e já vendeu mais de 260 milhões de folhas.
Papel para Mechas: empresa está presente em 60 mil salões
Otavio Barbosa
De acordo com a empresa, o faturamento foi de R$ 4,5 milhões em 2025 com uma média mensal de R$ 375 mil. Para este ano, a projeção é alcançar R$ 10 milhões e expandir a operação para até 50 países.
Os tropeços antes da virada
Aos oito anos, assim que chegava da escola, Olivetti ia ao sítio do avô para ajudá-lo no cultivo de hortaliças orgânicas, vendidas aos domingos na feira, atividade que também acompanhava. Chegava antes do nascer do sol, por volta das 4h, montava a barraca e auxiliava nas vendas.
A rotina seguiu até os 14 anos, quando começou a estagiar na gráfica do padrasto. No local, passou por diferentes setores, adquiriu conhecimento sobre o mercado de papel e celulose e decidiu que queria empreender, acreditando estar preparado para iniciar essa trajetória.
Em 2009, aos 19 anos, fundou a primeira empresa, voltada à fabricação de tampas de isopor personalizadas para marmitex. O negócio durou um ano. Em seguida, abriu uma segunda empresa, uma fábrica de sacolas de papel em sociedade. A operação chegou a ter 30 funcionários e, segundo ele, registrava bom faturamento, mas encerrou as atividades cerca de quatro anos depois, em meio a problemas de gestão de pessoas e acúmulo de dívidas.
A terceira tentativa teve trajetória semelhante. Após um ano atuando com representação comercial para supermercados e padarias, Olivetti não conseguiu consolidar o negócio, também em razão de dificuldades de gestão e, segundo ele, excesso de vaidade.
“Eu tinha muita dificuldade em lidar com pessoas. Eu cobrava muito e achava que tinha razão em tudo. Nunca cogitava trazer alguém melhor do que eu para dentro da empresa”, afirma.
A “faculdade” do terminal de ônibus
Após o fracasso de suas três primeiras empresas e ao concluir que os insucessos estavam relacionados ao ego elevado e à dificuldade em lidar com pessoas, ele decidiu buscar um emprego que lhe proporcionasse contato direto com diferentes públicos.
Olivetti trabalhou no terminal de ônibus de Londrina entre 2016 e 2018, período que descreve como a “faculdade da sua vida”. Na função operacional, precisava cumprir regras rígidas, respeitar horários e a hierarquia, além de desenvolver o espírito de serviço ao atender públicos diversos, como crianças em tratamento e pessoas com deficiência. A escala de trabalho era de quatro dias de serviço para um de folga, com turnos alternados entre dia e madrugada a cada mês.
Fábrica da Papel para Mechas
Otavio Barbosa
Paralelamente à atuação como segurança, voltou a trabalhar como representante comercial durante as folgas. Utilizava a própria moto para visitar padarias e mercados, vendendo produtos da empresa do padrasto. Em poucos meses, a renda com comissões, entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, passou a se equiparar ao salário recebido no terminal.
Diante desse resultado, decidiu deixar o emprego. Com a nova estratégia e a maturidade adquirida no período, passou a se dedicar exclusivamente às vendas — fase que antecedeu o encontro com o cabeleireiro que o inspiraria a criar o Papel para Mechas.
A aposta que mudou tudo
Após deixar o posto de segurança no terminal de ônibus de Londrina, Olivetti afirma que iniciou um dos períodos mais desafiadores e transformadores de sua vida.
O estalo para a criação da empresa que mais tarde o realizaria surgiu a partir de uma conversa com um cabeleireiro, que reclamava da incompatibilidade química entre o alumínio utilizado e o descolorante capilar. Com experiência prévia no setor de papel e celulose, Olivetti enxergou ali uma oportunidade de mercado. “Comecei a fazer pesquisas na internet e o interessante é que não existia nada que não utilizasse metal para descolorir o cabelo”, recorda.
Motivado pelo desafio, tomou uma decisão drástica: abandonou a estabilidade que havia conquistado como representante comercial para se dedicar integralmente ao projeto. “Fiquei 100% focado nessa ideia”, afirma.
Utilizando a gráfica do padrasto para realizar testes e o espaço de um cabeleireiro amigo para validações, passou a buscar um material compatível com os produtos químicos usados no processo e que também fosse biodegradável.
Mas Olivetti admite que, no início, sua visão era ingênua. “Eu acreditava que em poucos dias conseguiria vender o produto para uma grande marca e que ficaria milionário da noite para o dia”, diz.
A realidade, porém, foi diferente. Ele enfrentou uma crise financeira e segundo ele, também precisou lidar com o ceticismo do mercado. “As pessoas não acreditavam que eu, que até pouco tempo antes era segurança do terminal, tinha desenvolvido uma solução para o mercado da beleza”, afirma.
Os sócios da Papel para Mechas: à esquerda Adailton Alves Maciel Junior e à direita Lucas Olivetti.
Divulgação
O ciclo de desenvolvimento se encerrou no fim de 2019, quando Lucas conheceu o futuro sócio, Adailton Maciel. Foi ele quem sugeriu transformar a resistência do mercado e a escassez de recursos em uma estratégia de private label, modelo em que uma empresa fabrica produtos para serem vendidos com a marca de outra . Foi esse movimento que ajudou a viabilizar o negócio em 2020 e a transformar a ideia inicial em uma indústria com presença internacional.
A aposta que virou expansão global
A virada decisiva na trajetória de Olivetti ocorreu em 9 de março de 2020, apenas uma semana antes de a pandemia paralisar o mundo. Após decidir focar no modelo de private label, ele participou de uma reunião considerada crucial com uma multinacional do ramo de cosméticos.
Sem fábrica estruturada ou empresa formalizada, apresentou uma proposta ousada: ele afirma ter convencido o dono da empresa a depositar R$ 250 mil em sua conta pessoal para viabilizar a produção, com a promessa de usar a marca como “case” para o mercado.
Com a chegada do lockdown, enquanto parceiros sugeriam a paralisação do projeto, Olivetti tomou uma decisão arriscada: utilizou os recursos para percorrer o país. Em seis meses, afirma ter passado por 12 estados e levantado cerca de R$ 2 milhões em antecipações de clientes que já demonstravam interesse anteriormente. O capital permitiu que, ao final de 2020, ele estruturasse uma fábrica própria, financiada pelos próprios clientes.
O avanço internacional da empresa ganhou impulso em 2023, após a participação na feira de Bolonha, na Itália, onde identificou a sustentabilidade como principal tendência global do setor.
Atualmente, segundo Olivetti, o papel para mechas é produzido a partir de madeira de reflorestamento, com uso de tintas atóxicas e adesivo 100% vegetal, extraído da goma de mandioca, sendo biodegradável e livre de metais. O produto incorpora duas tecnologias patenteadas: o Grip System, que evita o deslizamento no cabelo, e o Airflow, que permite a circulação de ar e preserva o oxigênio, garantindo clareamento uniforme sem manchas ou estufamento.
Além de reduzir o impacto ambiental causado pelo descarte de alumínio, o produto atende às normas da Anvisa por atuar como isolante que não interfere na química do pó descolorante. “Nós conseguimos unir tecnologia, sustentabilidade e inovação em um único produto”, afirma.
A partir desse avanço, a empresa intensificou as exportações, alcançando 19 países em dois anos. Para o futuro, o plano é ampliar ainda mais a presença internacional. Em 2026, Lucas projeta uma entrada mais agressiva nos Estados Unidos, além do lançamento global de uma linha com identidade brasileira, voltada a valorizar as origens e a diversidade do país.
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