Seja bem-vindo
Belo Horizonte,10/07/2026

  • A +
  • A -

Kadu Meirelles

Aleandro: O Artista que Floresceu do Galho Seco

Aleandro Silva Barbosa da Alearts / Arquivo Pessoal
Aleandro: O Artista que Floresceu do Galho Seco


Ah, como fico encantado com Aleandro, ele não é apenas um artista ou um jardineiro — é um verdadeiro poema vivo, daqueles que a vida escreve com lágrimas, suor e uma força que transcende o humano. Enquanto preparava esta coluna, não consegui conter a admiração: como um homem que atravessou o inferno pode emergir com as mãos tão cheias de beleza e esperança? Ele me conquistou completamente.

Nas encostas da Serra do Rola Moça, onde o vento sopra histórias de superação, vive um homem que transforma terra, madeira e dor em pura poesia. Seu nome é Aleandro Silva Barbosa, 47 anos de vida intensa, raízes fincadas no Barreiro de Belo Horizonte, onde seu cordão umbilical foi enterrado como semente de uma árvore que demorou a brotar, mas que hoje espalha sombra generosa.


Quarto de cinco filhos de Maria Silva e Anelito Braz, Aleandro cresceu em solo humilde, regado por muito amor familiar, mas também por ventanias difíceis. Desde pequeno, enfrentava problemas de visão, mas era nos rabiscos feitos nas folhas que os médicos lhe davam que sua alma já revelava o dom. A mãe, apaixonada por plantas, plantou nele a semente da jardinagem e do paisagismo. O menino que desenhava o mundo já carregava nas mãos o talento que um dia o salvaria.


A adolescência chegou como uma tempestade: bebidas, cigarros, festinhas e, aos 17 anos, o primeiro contato com maconha e cocaína. O que começou como curiosidade transformou-se em 20 anos de um inferno particular. “As histórias são as mesmas, só os personagens mudam”, ele costuma dizer com a sabedoria de quem atravessou o fogo.

Mesmo trabalhando em regime CLT, as artes pulsavam em suas veias — um fogo que nunca se apagou completamente.

O milagre que me deixa absolutamente emocionado.

Mas o buraco que cavou com as próprias mãos era profundo. A dependência o afastou de todos, consumiu quase tudo. Até que, em 23 de dezembro de 2014, destruído, com a mão quebrada após um surto, ele decidiu renascer. Graças ao apoio de Rondinele (hoje cunhado) e da família, internou-se por 10 meses. Ali, aos poucos, foi soltando as amarras: parou de fumar, entregou-se ao tratamento e, em outubro de 2015, saiu para reencontrar a vida. 


Foi preciso reaprender a andar. Enfrentou medo, desconfiança, até da própria família. Mas cada passo vacilante o fortalecia. Voltou à jardinagem na Aeronáutica, depois na UFMG.

Os olhares que admiravam seu trabalho sussurravam: “Você precisa voar sozinho”. E ele voou. Tornou-se MEI, mesmo com o pai, homem matuto e prático, alertando sobre a segurança da CLT. Inspirado na canção Galho Seco de Zé Geraldo, Aleandro escolheu florescer onde ninguém acreditava.

A pandemia, que para muitos foi escuridão, para ele foi estufa. Enquanto o mundo parava, Aleandro reacendia o fogo interior. Começou a queimar madeira com pirografia, criando porta-copos com caricaturas divertidas de anônimos e famosos — seu grande carro-chefe. Fez pulseiras de couro personalizadas, telhas em alto relevo, esculturas de Raul Seixas para porta-incensos. De mesa em mesa nos bares do Barreiro, com a mesma coragem de sempre, vendia sua arte e reconquistava seu lugar no mundo.

Hoje, sua marca Alearts ganha forma num canto especial no Solar do Barreiro, à beira da entrada do Parque da Serra do Rola Moça. Não é um espaço aberto ao público ainda, mas é um ateliê vivo, um santuário de criação. Ali, ele sonha com um projeto acolhedor: caldo de cana e pastéis para ciclistas, atletas e turistas que passam. 

Seus jardins não seguem moda — seguem a verdade do terreno. Em solos semiáridos, cactos, yucas, agaves e dracenas resistem com altivez. Em terras férteis e sombreadas, impatiens, spathiphyllum e orquídeas delicadas dançam. Suas mandalas carregam orações, salmos, Pai Nosso, Ave Maria e medalhas de São Bento — símbolos de fé e equilíbrio que também recarregam sua própria alma. Quando precisa, vai até São Thomé das Letras, onde clientes e montanhas o renovam.

O que mais me encanta em Aleandro é sua filosofia humilde e profunda:

“Não sou melhor nem pior que ninguém. Só procuro ser uma pessoa melhor a cada amanhecer.”


Ele vende arte nos mesmos ambientes onde antes consumia as substâncias que quase o destruíram — e hoje caminha livre, grato. Cada tijolo da Alearts carrega o nome de clientes e amigos que fez nos bares, pubs e shows de rock. Eles fazem parte da vitória.


Aleandro Silva Barbosa é prova viva de que nenhum galho seco está condenado. Com paciência, amor, trabalho e fé, ele se tornou árvore frondosa, artista completo, jardineiro da própria vida. 


Que sua história inspire todos que ainda lutam nas sombras: é possível renascer. É possível transformar dor em beleza. E, como ele mesmo prova todos os dias, o maior jardim que alguém pode cultivar é o da própria alma.




Em memória a HALLANDER, um filho emprestado q Deus me deu e q me ensinou muito. Aleandro.



Em memória de Dona Tita


*Todas as fotos são do arquivo pessoal de Aleandro.



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.