De pele de peixe a borra de café: materiais sustentáveis brasileiros reinventam arquitetura e design

Pele de peixe, casca de árvore, resíduos de café, plástico reciclado… Essas são apenas algumas das matérias-primas que dão origem a materiais e tecnologias de baixo impacto ambiental, capazes de transformar a arquitetura e a decoração. Investigar, pesquisar e catalogar essas soluções é um dos propósitos da MateriaLAB, empresa brasileira de consultoria e pesquisa especializada em sustentabilidade, economia circular e ecologia industrial, fundada por Carolina Piccin.
Lã com tingimento vegetal (à frente, colorida) e palha (ao fundo), ambas de seda, do Casulo Feliz. Cesto em aço de capim-dourado, de comunidades do Jalapão,TO. Fio de celofane de eucalipto, da Celomax
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Entre as iniciativas da empresa está a Materioteca, uma biblioteca física de referência que reúne materiais e tecnologias sustentáveis e circulares, oferecendo a arquitetos, designers e outros profissionais criativos alternativas para o desenvolvimento de projetos e produtos. Atualmente, o acervo conta com mais de mil materiais catalogados, de origem majoritariamente brasileira, mas também internacional, selecionados a partir de critérios técnicos e indicadores de sustentabilidade. Parte desse universo de possibilidades ganhou destaque no editorial Decor Stories, da edição 487 da Casa Vogue, dedicado à exploração das materialidades e de suas diferentes aplicações no design e na decoração.
Em primeiro plano, da esq. para a dir., blocos de resina vegetal com pigmentos vegetais. Pedaços de cera de abelha. Ao fundo (da esq. para a dir.), placa de plástico reciclado, da Arte 8 Reciclagem. Rede de pesca reaproveitada com bola de terra polida. Tecido de látex (amarelo), da Flavia Amadeu
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Mas o que torna um material sustentável? Segundo Carol, a resposta vai muito além de sua composição. As matérias-primas podem ter diferentes origens: vegetal, como madeira, bambu e sementes; animal, como pele e ossos; de micro-organismos, como micélio, algas e bactérias; mineral e fóssil, como pedras, metais e derivados do petróleo; ou residual, quando provenientes do reaproveitamento de recursos já existentes. A partir dessa classificação, a MateriaLAB avalia indicadores como consumo de água e energia, emissões de CO₂, procedência e potencial de circularidade. “Enquanto materiais minerais e fósseis podem ser reinseridos na cadeia produtiva por meio da reciclagem, aqueles de origem biológica podem retornar à natureza pela compostagem, desde que recebam tratamentos compatíveis com esse processo”, explica Carolina Piccin.
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Da esq. para a dir., pele de pirarucu, da Nova Kaeru; sobre ela, pele de tilápia, da Tilápia Leather. Tecido de folha de abacaxi, da Pinatex
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
É justamente esse olhar abrangente que orienta as três principais frentes de atuação da MateriaLAB. Na consultoria, a empresa auxilia arquitetos, designers e marcas na escolha de materiais e soluções sustentáveis para projetos. Já a frente educacional promove cursos, workshops, encontros e exposições para ampliar o conhecimento sobre sustentabilidade e economia circular. A terceira, que tem ganhado cada vez mais espaço nos últimos anos, é a de pesquisa e desenvolvimento, dedicada à criação de novos materiais e produtos a partir da combinação de matérias-primas, resíduos e tecnologias inovadoras, muitas vezes em parceria com universidades, laboratórios e especialistas.
Em primeiro plano, placa de resina vegetal com borra de café, da Recoffee. Ao fundo, da esq. para a dir., blocos de testes com areia e casca de arroz. Bola de terra sem polimento. Placa de cortiça, da Casa da Cortiça. Revestimento de terra
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Nesse processo, a valorização dos recursos naturais brasileiros e dos saberes tradicionais ocupa um lugar importante. Para Carol, a diversidade de fibras, sementes e outras matérias-primas encontradas no país representa um enorme potencial para o futuro do design, especialmente quando associada ao conhecimento de comunidades indígenas, ribeirinhas e pequenos produtores. “Mais do que incorporar esses elementos aos projetos, precisamos que essa aproximação contribua para a geração de renda e a autonomia das comunidades, garantindo que os benefícios sejam compartilhados”, reforça.
Em primeiro plano, placas de fibra de coco, da Coquim; sobre elas, bloco de madeira de demolição. Ao fundo, da esq. para a dir., fio de celofane de eucalipto, da Celomax. Placa de cascas de castanha-do-pará (suspensa). Tecido de látex, de comunidade de Alter do Chão, PA
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Em primeiro plano, da esq. para a dir., placa de acetato reciclado, da Sagui. Bloco de teste de resina vegetal expandida; sobre ele, copo, colher, porta-ovos e esferas de fécula de mandioca, da Oka Bioembalagens. Corda verde de PET reciclado. Espuma verde de resina de soja expandida (em cima da colher). Ao fundo, tecido plástico reciclado, da Ratoroi
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Para a fundadora da MateriaLAB, o futuro do design e da arquitetura está diretamente ligado à economia circular, com a valorização de materiais reciclados, compostáveis e capazes de retornar à cadeia produtiva ou à natureza. “Eu enxergo tudo circular”, afirma. Segundo ela, uma das principais tendências é a ampliação do uso de resíduos na criação de revestimentos, mobiliário e outros elementos arquitetônicos, além do desenvolvimento de tecnologias que permitam aproveitar matérias-primas naturais sem comprometer sua capacidade de decomposição. Nesse cenário, tão importante quanto escolher a origem de um material é considerar o que acontecerá com ele ao final de sua vida útil.
Em primeiro plano, da esq. para a dir., placa de caules de macieira. Treliça de bambu. Bloco de teste acústico de isopor reciclado. Ao fundo, da esq. para a dir., tecido de feltro de PET reciclado, da Trisoft. Tecido africano de casca de árvore da família Moraceae
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
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Tecido africano barkcloth, feito da casca interna de árvores
Gui Gomes | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
Apesar de muitas dessas soluções já estarem disponíveis no mercado, sua aplicação em maior escala ainda enfrenta desafios. Entre eles, Carol destaca o acesso à informação, os custos de produção, a necessidade de incentivos econômicos e fiscais e as limitações de disponibilidade de determinadas matérias-primas naturais. A especialista também defende uma transformação mais profunda nos hábitos de consumo e nos modelos de produção, de modo a reduzir a pressão sobre os recursos do planeta. “Antes de tudo, é preciso ter uma mudança de pensamento”, conclui. Para ela, repensar a maneira como produzimos, escolhemos e consumimos é parte fundamental da construção de um futuro mais sustentável.
*Todos os materiais das fotos são do acervo da materioteca da MateriaLAB




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