Residência Hélio Olga: a casa de madeira que revolucionou a arquitetura brasileira

O terreno era impossível. Lote de um para um: em 30 m de fundo, cai 30 m na altura. O lado maior, a fachada, aponta quase ao sul. Parecia pouco auspicioso antes da chegada do arquiteto Marcos Acayaba. “Ele rodou tudo 90 graus. E, então, o estar, os dormitórios, tudo ficou virado para o noroeste, espetacular. Essa implantação primorosa, grande qualidade do Acayaba, se revela o trunfo da casa”, avalia Hélio Olga, engenheiro, construtor e morador da tal residência que revolucionou o modo de construir com madeira no Brasil. Quem vê de baixo para cima se espanta com os quatro andares em formato de T, com muitos balanços e a sutileza dos tirantes metálicos, tudo isso fincado em um talude em plena zona sul da capital paulista.
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O pioneirismo do projeto se dá por subverter a expectativa que havia até então diante de uma construção de madeira. O senso comum tendia para um estilo que caminhasse entre o bucólico e o praiano. Uma casa contemporânea que desviasse da alvenaria convencional e do concreto moderno era novidade. E o fato de essa experiência ter sido tão bem-sucedida influenciou todo o trabalho posterior da Ita, empresa dedicada à madeira engenheirada mais relevante do Brasil, que tem o próprio Hélio à frente do negócio.
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Vista lateral revela o desnível de 30 m do terreno: a solução foi implantar quatro pavimentos em formato de T, com balanços e tirantes metálicos
Fran Parente
Outro ângulo externo evidencia a posição da piscina no pavimento superior, no nível da rua, onde também está o térreo social, com amplo living: a construção de angelim-vermelho desce para a área íntima com vista resguardada pelo jardim
Fran Parente
Escolhemos o angelim-vermelho, madeira nativa muito dura e densa, que resiste bem ao tempo
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Uma volta rápida ao passado ajuda a entender melhor essa história. “Em 1987, eu era um jovem engenheiro de 32 anos e queria muito aprender com o Marcos Acayaba, um arquiteto já experiente, que tinha passado dos 40. Comprei o melhor terreno possível com o dinheiro que tinha – se tivesse mais, claro que teria comprado um lote plano, com vista”, recorda, entre risos. Tudo isso para dizer que o resultado atrevido nunca foi intencional. As limitações orçamentárias deram o impulso inicial para que a racionalização criasse um denominador comum: 1,10 m. O rigor da engenharia modulou a construção e barateou o processo multiplicando a medida sempre que necessário. Os balanços, por exemplo, repetem 3,30 m. A casa toda mede 220 m².
A entrada da área social evidencia os materiais crus, sempre à mostra
Fran Parente
Para além de todas essas inteligências construtivas, há ainda o fato de que a residência se abre e recebe visitantes pelo térreo social – com living amplo agora povoado também pelos desenhos dos netos de Hélio e Celina – e vai descendo para a área íntima com vista resguardada pela mata que aflora no jardim. Um beiral largo de 1,60 m protege a construção dos excessos do sol e da chuva. Nem os experientes na lida da madeira diriam que o angelim-vermelho que dá forma a tudo por ali já conta mais de 35 anos. “Eu me assustei muito. Quatro andares, balanços sucessivos… Imaginava uma coisa muito mais simples. Paralela à curva de nível, não perpendicular. Mas o projeto era tão bom, resolvia tantos problemas, que chegou uma hora em que me curvei pela lógica. O tempo passou e, do anexo, vejo a casa e penso que ela ainda é bonita”, avalia, satisfeito.
A implantação primorosa se revela o grande trunfo da casa
As aquarelas de Celina servem de companhia e inspiração para as artes dos netos, que também povoam o living
Fran Parente
A cozinha se abre para a sala de jantar e as portas sustentam-se sem bandeira, com ripas de madeira do piso ao teto
Fran Parente
Creditar o mérito da morada ao momento em que foi montada tem lá seu sentido. Se o mesmo terreno chegasse hoje às mãos de Hélio e Marcos Acayaba, talvez o resultado fosse diferente. Não porque o projeto ficou datado – o jeito de construir com madeira evoluiu tão rapidamente nos últimos anos que fica difícil imaginar o que ocuparia a encosta na Vila Andrade. Em 1990, um funcionário riscava todas as partes nas chapas de madeira, havia uma serra, um formão, uma furadeira. Para algumas obras, até se podia contar com gabaritos, mas o método era muito manual. A montagem usava andaimes. Hoje, a Ita trabalha com duas CNCs (máquinas automatizadas de alta precisão) capazes de usinar detalhes impensáveis, e um guindaste cuida de colocar tudo de pé.
O casal Hélio e Celina posa no vão de uma das janelas da morada
Fran Parente
Detalhe da base da casa mostra a estrutura mista: tem início com material mineral, seguido por concreto, uma transição metálica e só então entra a madeira, que nunca pode estar em contato direto com o concreto
Fran Parente
Destaque para os beirais grandes com tirantes metálicos
Fran Parente
O processo mudou, mas o olhar que leva ao giro de 90 graus, ao pensamento que transforma o terreno impossível em uma casa para receber os netos, isso ainda é uma daquelas mágicas que só um ser humano é capaz de fazer.




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