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Belo Horizonte,17/09/2026

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As raízes da terra natal na construção de quem somos

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As raízes da terra natal na construção de quem somos
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Andar pela rua que fazia parte do caminho da escola, reconhecer um sotaque familiar, provar uma comida típica tão difícil de encontrar em outra cidade, reencontrar festas folclóricas, tradições e músicas que lembram casa. Revisitar o lugar onde crescemos pode trazer um misto de emoções, fazendo toda a nossa história passar novamente diante dos nossos olhos.


“Nasci em Tenente Jardim, um bairro periférico de Niterói. Sempre que volto lá, tenho uma sensação muito particular: não apenas lembro da criança que fui, como quase sinto que consigo tocá-la. Minha memória fica tão viva que o tempo parece fazer uma pequena trapaça comigo”, conta a psicóloga Adriana Santiago.


Em seguida, ela explica que cada lembrança é guardada com a associação das emoções e do contexto em que ocorreram. Por isso, basta um estímulo sensorial para despertar o encanto de velhas histórias. A neurociência ajuda a entender esse processo: estruturas do cérebro envolvidas na memória trabalham em estreita relação com as regiões ligadas às emoções. 


Em seguida, ela explica que isso acontece porque cada lembrança é guardada com as emoções e o contexto em que ocorre. Por isso, basta um estímulo sensorial para que o corpo se transporte ao passado.


Memórias que formam a identidade


Contar quem somos, de onde viemos e quais experiências nos trouxeram até o presente cria uma sensação de continuidade entre as diferentes fases da vida. E, analisar tudo que nos trouxe até aqui, é justamente o que contribui para construção de uma identidade. 


É na primeira cidade chamada de casa, que se aprende muitos dos códigos levados para vida. Se é comum puxar conversa com um desconhecido na fila, aparecer na casa de alguém sem avisar, pedir um favor ao vizinho ou manter certa distância. Também aprendemos como se cumprimenta, quanto de intimidade cabe logo de início e até as palavras, apelidos e expressões que fazem parte daquele lugar.


E isso vai além: preferências pessoais costumam fazer parte dessa construção. O gosto por pimenta, o hábito do chimarrão, o café passado de um certo jeito ou até aquela banda que só quem é da região conhece.



“Por isso, quando alguém diz ‘essa é a comida da minha terra’, ‘lá a gente fala assim’ ou ‘essa música me lembra minha infância’, muitas vezes está dizendo algo muito maior: ‘isso faz parte de mim’.”



Orgulho das raízes


Adriana explica que muitas pessoas sentem algo importante para o bem-estar: a sensação de pertencimento, que gera conexão emocional, segurança e proximidade entre conterrâneos. “É o que ajuda a explicar por que tantas pessoas defendem com carinho o bairro, a cidade, o estado ou o país de onde vieram”, explica a especialista.


Além disso, o psicólogo André Machado aponta para o sentimento de orgulho. “Contar de onde a gente vem é uma forma de se apresentar por inteiro. Não é sobre se gabar, mas dizer: eu venho de um chão, uma língua, um jeito de se sentar à mesa. Isso cria intimidade e também dignifica o ponto de partida, principalmente quando viemos de um lugar que muita gente trata como menor. É uma forma de dizer que as raízes não são um detalhe.”


O que só aparece com a distância


Por isso, ao se mudar para longe da terra natal, a novidade pode vir acompanhada de entusiasmo e até do alívio de deixar para trás um script antigo, mas também é comum levar tempo até se sentir em casa. Como se, por um período, tudo ficasse fora de eixo. “A saudade não é só de gente. É de textura, barulhos da rua, jeito do pão, e clima”, explica Machado.


Se antes, imersos nos costumes do lugar onde vivíamos, muitos elementos do cotidiano passavam despercebidos, a distância faz com que aquilo que era banal ganhe destaque. Segundo Adriana, é comum que, nesse cenário, as pessoas passem a valorizar mais as próprias referências e tradições.


“Encontrar alguém com o mesmo sotaque pode produzir uma intimidade instantânea absolutamente desproporcional ao tempo de convivência. Em três minutos, a pessoa já virou praticamente uma prima. Essa familiaridade oferece ao cérebro uma espécie de reconhecimento: ‘eu conheço isso, isso pertence ao meu mundo’.”


Além disso, o contato com uma nova cultura cria contraste. Ao conhecer outros costumes, jeitos de falar e formas de convivência, fica mais fácil reconhecer o que, do lugar de origem, faz parte da nossa identidade. 


Olhar para trás de outro jeito


No entanto, nem todo lugar de origem guarda boas lembranças. Por isso, Adriana chama atenção para o risco da idealização. “A saudade é uma excelente editora: às vezes corta as partes difíceis e deixa somente as melhores cenas.” Em alguns casos, o bem-estar está justamente em conseguir olhar para esse passado de uma maneira nova.


Ainda assim, esse reencontro com as nossas próprias origens pode carregar beleza. Ele mostra que é possível conhecer outros lugares, construir novas referências, mudar ao longo da vida e continuar carregando cheiros, vozes, sabores e histórias que fizeram parte do caminho. 



“Talvez nossa origem seja justamente isso: não necessariamente o lugar para onde precisamos voltar, mas um lugar que, de alguma maneira, continue viajando conosco.”



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