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Belo Horizonte,17/09/2026

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Antes de nomear, permita que uma emoção ganhe forma

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Antes de nomear, permita que uma emoção ganhe forma
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Há um espaço onde as emoções existem como névoa antes de tomarem forma, e a pressa por traduzi-las em palavras pode apagar parte das texturas e nuances da experiência. Por isso, permitir-se não saber também é uma forma de deixá-las se desenharem no próprio mundo interno.


No entanto, essa pode ser uma tarefa desafiadora. Fomos culturalmente ensinados a valorizar o pensamento racional acima das subjetividades, o que nos afastou das dimensões corporais, biológicas e sensoriais de quem somos, afirma a psicóloga, psiquiatra e autora do livro “Sinto Muito! – Coragem emocional: o que fazer com sentimentos difíceis?” (Editora Labrador), Nina Ferreira.


Somado a isso, corpo e mente ainda costumam ser tratados como partes separadas, quando, na prática, são partes de um mesmo organismo. “Afetos e emoções também são experiências biológicas e somáticas. Antes mesmo de conseguirmos nomear o que está acontecendo, algo já foi percebido por meio das sensações. É para isso que existem os sentidos: visão, paladar, olfato e tantos outros sinais que ajudam a compreender o que se passa dentro de nós.”


Somos feitos para sentir, e é necessário confiar nesse mecanismo desenvolvido ao longo de milhares de anos da evolução humana explica Nina.“Principalmente na vida contemporânea, a gente tem esquecido que também é natureza. Somos animais, e não estamos separados dos processos naturais que fazem parte da nossa existência.”


Permita-se sentir, sem medo


Não saber o que significa uma emoção pode ser fonte de ansiedade e medo, já que o cérebro também se desenvolveu para tentar prever o futuro e garantir a sobrevivência. Por isso, Nina sugere fazer as pazes com os sinais biológicos que surgem nesses momentos, como o coração acelerado, a tensão e o aumento da adrenalina.


Aprendemos a enxergar essas sensações como algo ruim, que precisam desaparecer o quanto antes. Diante do desconforto da incerteza, é comum tentar nomear rapidamente e chegar a uma conclusão. Isso traz uma sensação de controle e, consequentemente, de alívio.


Mas entender que esse movimento também faz parte de um mecanismo de proteção, torna mais fácil não entrar imediatamente em guerra com eles. Em vez de pensar “isso precisa passar” ou “não deveria estar acontecendo”, é possível reconhecer que o cérebro está apenas tentando nos proteger.


“Assim como precisamos aprender a lidar com as mudanças do envelhecimento, também podemos encarar essas sensações com mais tranquilidade. Não é uma questão de gostar ou não, aceitar ou não. São apenas condições da existência humana, e a gente vai dançando conforme a música.”


Entender melhor como funcionamos, encarar com naturalidade, sem transformar toda sensação difícil em algo necessariamente patológico ou catastrófico também é falar de saúde mental, explica a psicóloga.


Dê espaço antes de buscar respostas


Nina afirma que nem sempre o que acontece por dentro chega de forma clara. Muitas vezes, aparece como algo difuso e vai ganhando contornos aos poucos, à medida que se presta atenção nos sinais que surgem.


Se aparece um cansaço, por exemplo, vale investigar: como foi o dia, as últimas semanas, o que pode estar pesando e até o que deixou de ser feito, mas costumava trazer bem-estar. “É como construir novas experiências para ajudar a temperar aquela sensação.”


A ideia é olhar para o que se apresenta e experimentar formas de cuidado, criando situações que ajudem a entender melhor o que está acontecendo. Depois, observar o efeito: fez bem ou não? Para Nina, o autoconhecimento também se constrói assim, nessa conversa constante consigo mesmo, feita de tentativas, novos comportamentos e atenção às respostas do corpo que cada experiência provoca.


Nomear uma emoção, portanto, não precisa ser o primeiro passo. A compreensão pode vir depois desse contato mais tranquilo com consigo, com a própria história e aquilo que está sendo vivido. É sobre dar espaço para que o que surgiu ganhe forma e possa ser compreendido. “Não é uma conta matemática, por isso não tem uma fórmula precisa, mas é o melhor jeito da gente encontrar equilíbrio.”


Com o tempo, esse movimento ajuda a fortalecer a confiança nas próprias intuições e a perceber com mais clareza os sinais que ela oferece. “Isso nos leva a viver uma vida que faça sentido para você como indivíduo e que, na maioria das vezes, é diferente do que faz sentido para os outros, porque cada um tem um cérebro, preferências e necessidades.”


No curso “A Vida que vale a pena ser vivida”, o filósofo Clóvis de Barros Filho reflete sobre esse assunto e resume essa ideia: “Eu sou o mais recorrente, insistente, arguto e frequente observador de mim mesmo. Ninguém sente as experiências vividas por mim como eu sinto. (…) Se porventura eu estiver equivocado, faz parte do meu aprendizado. Mas eu viverei a vida definida por mim, em vez de viver a vida traçada, elaborada, planejada e estabelecida de fora para dentro.”


Não apresse, mas também não ignore


Também é comum surgir a dúvida: será que eu estou esperando para que isso elaborado, ou apenas evitando resolvê-lo agora? Nina compara esse processo a cavalgar: a mente e o corpo seriam o cavalo, enquanto a consciência é o cavaleiro. Se ele permanece acordado, consegue perceber para onde está indo e direcionar o caminho. Se adormece, o cavalo segue sozinho. Por isso, a diferença está em permanecer atento ao que está acontecendo.


Na prática, quando surgem dores, angústias ou emoções difíceis, o primeiro passo é reconhecer que existe algo ali pedindo atenção. Nem sempre dá para parar tudo naquele momento, mas é possível voltar a essa sensação depois, com mais calma, para pensar, sentir e tentar entender de onde ela vem. E, mesmo que não apareça uma resposta exata, aquilo que foi sentido ainda pode ser levado em consideração.


“Fugir dessas situações significa perceber a sensação e não olhar mais para ela, ignorar, sufocar com outros comportamentos e não voltar mais para lá. É bem diferente do processo de autoconsciência e de se demorar um pouco ali.”


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