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Belo Horizonte,17/09/2026

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Como saber quando uma preocupação merece a sua atenção

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Como saber quando uma preocupação merece a sua atenção
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Tem dias em que a cabeça não para. Uma coisa puxa outra, a mente passa por vários cenários e, quando você percebe, uma hora se passou sem que nenhuma decisão tenha sido tomada. O esforço parece grande, mas o resultado não vem. No lugar de uma solução, fica o cansaço.


Preocupar-se faz parte da experiência humana. A questão está em perceber quando essa preocupação ajuda a lidar com uma situação concreta e quando se transforma em uma tentativa repetida de controlar aquilo que não está sob nosso alcance.


Jorge Guedes, psicanalista e doutor em neuropsicologia e neurociência, explica que há uma diferença importante entre pensar para compreender e pensar para afastar a insegurança.


Existe uma diferença entre pensar para compreender e pensar para tentar eliminar uma sensação de insegurança. No segundo caso, a pessoa pode repetir mentalmente as mesmas possibilidades, imaginar diferentes cenários e procurar uma resposta que talvez não exista naquele momento. Quanto mais importância damos a determinado pensamento, mais facilmente ele chama nossa atenção novamente. Isso não significa que o pensamento esteja correto ou que o problema seja necessariamente grave. Significa que ele passou a ocupar uma posição privilegiada dentro do nosso sistema de atenção.”


O cérebro faz isso porque tende a priorizar aquilo que interpreta como ameaça ou como algo que precisa ser resolvido. O problema é que esse mecanismo não consegue distinguir sozinho uma situação que exige resposta de um alarme que foi acionado sem necessidade.


Quando a preocupação deixa de ajudar


Uma preocupação pode ter uma função importante. Ela identifica um risco, chama atenção para uma questão concreta e pode mobilizar uma atitude. O sinal de alerta aparece quando o pensamento deixa de produzir movimento e passa a se alimentar de si mesmo.


Lívia Barreto, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, descreve esse processo a partir de uma pergunta que costuma dar início ao ciclo: “E se acontecer alguma coisa?”.


“O problema aparece quando essa pergunta deixa de levar a uma ação e começa a produzir uma sequência interminável de outras perguntas. A pessoa revisa conversas, imagina o que poderia acontecer, procura sinais, pede opiniões, pesquisa na internet e volta ao mesmo assunto. Tudo isso pode dar uma sensação de movimento, mas nem sempre existe avanço. É como ficar andando em círculos dentro do mesmo problema. A mente está ocupada, mas não necessariamente está encontrando uma solução.”


Uma maneira prática de perceber a diferença é observar se o pensamento está produzindo algo novo. Um planejamento traz informação, uma decisão ou um próximo passo. A ruminação apenas reorganiza as mesmas possibilidades.


Jorge resume essa diferença entre os dois processos: “Do ponto de vista cognitivo, existe uma diferença importante entre planejamento e ruminação. Planejar produz algum próximo passo. A ruminação repete a análise sem aumentar proporcionalmente a capacidade de decisão.” Por isso, uma pergunta simples pode ajudar: “Depois de todo esse tempo pensando, eu sei qual é o próximo passo?” Se a resposta for não, talvez seja hora de interromper a análise.


Preparação ou fuga?


A preocupação excessiva também pode se aproximar da procrastinação. Isso acontece principalmente quando pensar, pesquisar e se preparar oferecem uma sensação de segurança diante do desconforto de agir.


Lívia explica que esse movimento pode aparecer em frases como “vou fazer depois que organizar melhor” ou “preciso me preparar mais”. “Na prática clínica, é importante diferenciar preparação suficiente de preparação usada como fuga. Se a pessoa já tem informações suficientes para dar o primeiro passo, continuar pesquisando pode estar mantendo o adiamento.”



Pensar permite manter várias possibilidades abertas. Agir, por outro lado, exige escolher um caminho e lidar com o que acontece depois.



Para quem tem dificuldade de tolerar a incerteza, permanecer no campo das hipóteses pode trazer um alívio imediato, ainda que mantenha o problema no mesmo lugar.


Por isso, a saída não precisa ser uma grande mudança de comportamento. Lívia sugere reduzir a tarefa ao menor passo possível. Em vez de “preciso resolver minha vida profissional”, pode ser “vou me candidatar para essa vaga”. A proposta é começar sem esperar a sensação de segurança completa.


A busca por uma certeza que não existe


Por trás de muitas preocupações está a tentativa de eliminar a dúvida antes de tomar uma decisão. Só que a vida não oferece garantias permanentes.


“O cérebro trabalha o tempo inteiro com previsões, mas a vida não oferece garantias permanentes”, explica Jorge. “Quando alguém tem muita necessidade de certeza, pode tentar compensar essa falta de controle pensando cada vez mais, buscando informações, pedindo confirmação ou antecipando possíveis problemas. O paradoxo é que a tentativa de alcançar uma certeza absoluta pode aumentar justamente a insegurança.”


A dificuldade está em reconhecer que nenhuma quantidade de preparo será capaz de eliminar completamente o risco de uma escolha. Sempre pode surgir uma nova dúvida, uma informação diferente ou um cenário que não havia sido considerado.


Na terapia cognitivo-comportamental, Lívia propõe trocar a busca por uma garantia por uma pergunta que possa, de fato, ser respondida. “Podemos ter dúvidas e ainda assim agir de acordo com nossos valores e com as informações disponíveis. Com o que sei hoje, qual é a decisão mais razoável que posso tomar? Essa é uma pergunta que a pessoa pode responder. A outra, não.”


A mudança não está em deixar de considerar as consequências, mas em reconhecer o limite entre se preparar para uma decisão e tentar eliminar toda possibilidade de erro.


Nem tudo precisa ser resolvido agora


Quando uma preocupação aparece, pode ser útil descobrir o que exatamente ela está pedindo. Em vez de tentar resolver tudo mentalmente, Jorge sugere separar a questão em três perguntas: existe algo que eu possa fazer agora? Existe uma decisão que depende de mim? Ou estou tentando encontrar uma resposta para algo que ainda não pode ser resolvido?


Colocar a preocupação no papel também pode ajudar a tirá-la do fluxo contínuo de pensamentos e permitir que seja observada com mais distância. Não é necessário transformar isso em um elaborado exercício de organização. Uma frase pode ser suficiente: isso é um problema para resolver hoje ou uma questão que preciso tolerar por enquanto?


Lívia acrescenta outra distinção, preocupações solucionáveis e preocupações hipotéticas. Uma conta que vence amanhã, por exemplo, permite uma ação concreta. Já a possibilidade de perder o emprego daqui a seis meses não oferece necessariamente uma resposta no presente. Tentar encontrar garantias para esse segundo cenário pode alimentar ainda mais a apreensão.


Também vale separar fatos de possibilidades. Uma preocupação pode misturar algo que realmente aconteceu, uma hipótese possível e uma previsão catastrófica como se todas essas informações tivessem o mesmo peso. Identificar essa diferença não elimina o problema, mas ajuda a dimensioná-lo.


Nem toda preocupação precisa de uma resposta


Quando o pensamento já entrou em um ciclo, é comum tentar encontrar a resposta definitiva que fará a preocupação desaparecer. Mas essa estratégia pode manter justamente o comportamento que alimenta o problema.


Lívia explica que, na TCC, um dos pontos trabalhados é identificar o que sustenta esse ciclo. “A pessoa pode perceber que começa com uma preocupação, depois procura uma garantia, sente um alívio curto e, pouco tempo depois, a dúvida volta. Esse alívio acaba ensinando o cérebro a repetir o comportamento.” Checagens, pesquisas e pedidos constantes de confirmação podem funcionar dessa maneira: aliviam a tensão por alguns instantes, mas reforçam a necessidade de repetir o processo.


Interromper esse movimento não significa não se importar com nada. “Não precisamos esperar a ansiedade desaparecer para voltar à vida. Podemos sentir alguma preocupação e, ainda assim, continuar fazendo aquilo que é importante para nós”, afirma Lívia.


Jorge também chama atenção para a possibilidade de retornar ao corpo e ao ambiente quando a mente está presa a cenários futuros. Perceber a respiração, os sons ao redor e aquilo que está acontecendo naquele instante pode ajudar a atenção a sair da situação imaginada e voltar ao presente. Mas ele faz uma ressalva importante: “Interromper uma preocupação não significa obrigatoriamente encontrar uma resposta para ela. Às vezes, significa reconhecer que já pensamos o suficiente naquele momento e escolher continuar a vida mesmo sem resolver completamente a questão.”


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