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Belo Horizonte,16/08/2026

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Autismo também afeta o corpo: por que alterações na marcha e na postura ainda passam despercebidas

Assessoria de Imprensa
Autismo também afeta o corpo: por que alterações na marcha e na postura ainda passam despercebidas Freepick

Especialistas alertam que dificuldades motoras, alterações na caminhada e problemas de consciência corporal podem favorecer deformidades posturais e impactar a qualidade de vida de pessoas com TEA

Quando se fala em Transtorno do Espectro Autista (TEA), a atenção costuma se concentrar nos desafios relacionados à comunicação, interação social e comportamento. No entanto, existe uma dimensão frequentemente negligenciada do autismo que pode acompanhar a pessoa desde a infância: as alterações motoras e posturais.

Dificuldades de equilíbrio, coordenação motora, consciência corporal e até mudanças no padrão de caminhada — a chamada marcha — são mais comuns entre pessoas com TEA do que muitos imaginam. Quando não identificadas precocemente, essas alterações podem favorecer compensações musculares, desalinhamentos e até deformidades posturais ao longo da vida.

A neuropsicopedagoga especialista em autismo Silvia Kelly Bosi explica que o desenvolvimento motor precisa receber a mesma atenção dada aos demais aspectos do transtorno.

“Durante muito tempo, as alterações motoras foram tratadas como uma característica secundária do autismo. Hoje sabemos que elas podem impactar diretamente a autonomia, a funcionalidade e a qualidade de vida da pessoa. O corpo também comunica sinais importantes que não podem ser ignorados”, afirma.

O que a ciência já sabe sobre a marcha no autismo

Pesquisas internacionais demonstram que crianças e adolescentes com TEA podem apresentar padrões de marcha diferentes dos observados em indivíduos neurotípicos. Entre as características descritas na literatura científica estão menor estabilidade corporal, alterações no comprimento dos passos, dificuldades de coordenação, mudanças na distribuição do peso durante a caminhada e maior esforço para manter o equilíbrio.

A fisioterapeuta Nathalia Barreto Castro Leitão explica que essas alterações não estão relacionadas apenas à forma de caminhar, mas refletem desafios mais amplos no controle motor e na percepção do próprio corpo.

“A marcha depende da integração entre equilíbrio, coordenação, força muscular, planejamento motor e processamento sensorial. Quando existe alguma dificuldade nesses sistemas, podem surgir padrões compensatórios que afetam a mobilidade, a postura e a participação da criança em atividades do dia a dia. Por isso, a avaliação precoce é tão importante”, explica.

Uma revisão publicada no Research in Autism Spectrum Disorders identificou que alterações motoras estão entre os achados mais consistentes no espectro autista. Já estudos divulgados no Journal of Autism and Developmental Disorders apontam déficits de controle postural e equilíbrio como características frequentemente observadas nessa população.

Segundo Silvia, esses sinais nem sempre são percebidos por familiares ou profissionais porque costumam surgir de forma gradual.

“Muitas vezes os pais observam que a criança tropeça com frequência, anda de forma diferente, apresenta desalinhamentos corporais ou dificuldade para realizar movimentos simples. Como o foco normalmente está em outras demandas do autismo, essas questões podem acabar sendo subestimadas”, explica.

Nathalia acrescenta que quedas frequentes, dificuldade para correr, pular ou manter o equilíbrio devem servir como sinais de alerta.

“Muitas famílias acreditam que essas dificuldades fazem parte apenas do perfil da criança, quando na verdade podem indicar alterações motoras que merecem acompanhamento especializado. Quanto mais cedo essas questões são identificadas, maiores são as possibilidades de intervenção e desenvolvimento funcional”, destaca.

Consciência corporal: uma habilidade essencial para o desenvolvimento

Outro fator importante é a consciência corporal, capacidade que permite reconhecer a posição, os movimentos e os limites do próprio corpo no espaço.

Em pessoas com TEA, alterações sensoriais podem interferir nesse processo, dificultando a percepção de postura, equilíbrio e movimento. Como consequência, surgem padrões compensatórios que podem sobrecarregar músculos e articulações.

“A conscientização corporal ajuda a pessoa a entender como seu corpo funciona e como ele se relaciona com o ambiente. Quando esse processo é estimulado adequadamente, observamos ganhos importantes na coordenação motora, na estabilidade, na postura e até na participação em atividades escolares, esportivas e sociais”, destaca Silvia.

Para Nathalia, o trabalho voltado à percepção corporal tem reflexos que vão além da mobilidade.

“Quando a criança compreende melhor seu corpo e seus movimentos, ela passa a executar atividades com mais segurança e eficiência. Isso favorece a independência, a confiança e a participação em diferentes contextos sociais e educacionais”, afirma.

Correções posturais podem prevenir problemas futuros

Especialistas defendem que a identificação precoce dessas alterações permite intervenções mais eficazes, reduzindo o risco de complicações musculoesqueléticas ao longo do desenvolvimento.

Entre as estratégias utilizadas estão atividades psicomotoras, exercícios voltados para equilíbrio, coordenação e organização motora, além de abordagens que estimulam a integração sensorial e a percepção corporal.

“Não se trata apenas de corrigir uma postura inadequada. O objetivo é ensinar o cérebro a construir padrões motores mais eficientes. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de prevenir compensações que podem gerar deformidades ou limitações funcionais no futuro”, explica Silvia.

Segundo Nathalia, a fisioterapia também desempenha papel importante na prevenção de sobrecargas e dores decorrentes de padrões inadequados de movimento.

“Quando uma alteração postural ou de marcha não é identificada precocemente, o corpo cria mecanismos de compensação para realizar determinadas tarefas. Com o passar dos anos, isso pode gerar sobrecarga muscular, desconfortos e limitações funcionais. O acompanhamento fisioterapêutico busca justamente promover movimentos mais eficientes, seguros e saudáveis”, ressalta.

Estudos reunidos em revisões sistemáticas mostram que programas estruturados de intervenção motora podem promover melhorias significativas no controle postural, na coordenação global e nas habilidades funcionais de crianças com TEA.

Um olhar além do comportamento

Para Silvia Kelly Bosi, ampliar a discussão sobre os aspectos físicos do autismo é fundamental para garantir um acompanhamento mais completo.

“Quando cuidamos apenas das questões comportamentais e cognitivas, deixamos de observar uma parte importante do desenvolvimento. O corpo também precisa ser estimulado, compreendido e acompanhado. Investir na consciência corporal e nas correções posturais não significa apenas prevenir deformidades; significa promover mais autonomia, independência e qualidade de vida para pessoas com autismo”, conclui.

Nathalia reforça que os melhores resultados costumam surgir quando há atuação integrada entre profissionais da saúde, escola e família.

“Cada pessoa com autismo possui características motoras e sensoriais próprias. Por isso, o acompanhamento deve ser individualizado e construído de forma multidisciplinar. Quando diferentes profissionais e familiares trabalham em conjunto, os ganhos em mobilidade, funcionalidade e qualidade de vida tendem a ser mais consistentes e duradouros”, conclui.

Silvia Kelly Bosi 

Cientista e neuropsicopedagoga, graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com especializações em Autismo, Desenvolvimento Infantil, Análise do Comportamento, Neurociências e Neuroaprendizagem. Certificada internacionalmente pelo CBI of Miami em Desenvolvimento Infantil e Avaliação Comportamental. Mestre em Atenção Precoce pela Universidad del Atlántico (Espanha), Doutoranda em Psicologia e Perita Judicial certificada pela PUC-Rio. Atua com foco em avaliação neuropsicopedagógica e intervenção nos contextos clínico e educacional.

Nathalia Barreto Castro Leitão

Fisioterapeuta, pós-graduada em Psicomotricidade Clínica e Relacional, com especializações em Fisioterapia no Transtorno do Espectro Autista (TEA), Atrasos no Desenvolvimento Infantil, Estimulação Precoce, DIR/Floortime, Acomodação Sensorial, Pediasuit Protocol e Terapia Intensiva com a Gaiola de Habilidades, Método RTA (Reequilíbrio Toracoabdominal) e Comunicação Alternativa (CAA).



Assessoria de Imprensa: Júlia Bozzetto 





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