Casa de madeira em CLT desafia a construção civil tradicional no interior de SP

O que começou como o reencontro emocionante entre uma ex-aluna e seu antigo professor transformou-se no ponto de partida para um projeto de vida ambicioso no interior de São Paulo. Anos após frequentar as aulas do arquiteto Guto Requena na Escola Panamericana de Arte, Débora, proprietária desta residência em Itatiba, cruzou novamente o caminho do mestre. Desse reencontro, em 2022, nasceu o plano de construir uma casa de campo singular: um refúgio planejado para acolher três gerações – Débora, o marido, Eduardo, os filhos do casal e os pais idosos – e se tornar, no futuro, a residência definitiva da família.
O processo, descrito pelos proprietários como “arrebatador”, ganhou força quando o diálogo entre pupila e mentor expandiu-se para incluir Eduardo, que é publicitário. Com laços estreitados, consolidou-se uma tríade de mentes fervilhantes debruçadas sobre o mesmo desafio: como conceber um lar inovador, confortável, acessível e belo, sem replicar a lógica poluente e extrativista da construção civil tradicional no Brasil?
No living, sofá Luca, design Estúdio Bro para a Made55, com almofadas Atlântico Tangará (bicolores), design Retropy e Mauricio Arruda, Curly Vivo (quadrada, no centro) e Outono, todas da Codex Home, mesas de cerâmica de Paula Almeida (ao fundo, à esq.) e banco Seriema (em primeiro plano), trazido da Ilha do Ferro, AL
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
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Em um canto do living, rede de fibra de buriti e escultura Menino no Pássaro, de Ismael de Dedé – o piso de toda a casa é da Lepri
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
Profissional experiente e arrojado, que ousa no campo do design e da arquitetura valendo-se de interfaces com o meio digital, e atento à sensibilidade humana, Guto Requena tinha uma ideia. “Naquele momento, me atormentava constatar que não dava mais para usar concreto nas obras. Eu preferia não aceitar determinado trabalho a ter de adotar um material tão danoso”, explica ele. “Os números são assustadores. Basta dizer que a produção de 1 metro cúbico de concreto despeja na atmosfera 1 tonelada de CO₂. Enquanto isso, 1 metro cúbico de madeira faz o inverso e retém 1 tonelada de CO₂, retirada, desse modo, do ambiente.” Ou seja, tão logo foi convidado para desenvolver o projeto, Guto já sabia: “Faremos uma casa de madeira”.
A suíte principal leva cama com cabeceira feita sob medida pela Maria Joaquina Marcenaria, porta-travesseiros e capa de edredom Roçado, da Branco.Casa, manta Handmade Perola e almofadas Outono (à frente), todas da Codex Home, arandela Mini Bauhaus 90 W1, design Fernando Prado para a Lumini, tela Interrogações - QuoVadis?, de Marcelo Lucato, garrafas da Oficina Francisco Brennand, cortinas da Uniflex e tapete de uma cooperativa marroquina de mulheres
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
Na varanda sem pilares, mesa Paralelo, do Fernando Jaeger Atelier, e cadeiras Remind, design Eugeni Quitllet para a Pedrali
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
Confiantes nas propostas do visionário – e cada vez mais consciente – arquiteto, Débora e Eduardo aderiram sem medo. A primeira decisão projetual já anunciou o que estava por vir: a derrubada de paradigmas empoeirados. A estrutura do pavilhão postado no meio do terreno de cerca de 2,5 mil m², com declive de 15 m, seria feita de CLT (madeira laminada cruzada). Trata-se de um sistema no qual pedaços de madeira de reflorestamento são colados e prensados industrialmente, dando forma a peças tão robustas quanto uma viga de 15 m de comprimento. Depois, ainda na fábrica, braços robóticos cortam as placas do material conforme as especificações, tudo para que as partes engenheiradas cheguem ao canteiro prontas para a montagem.
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Só usamos concreto na fundação. O resto é madeira laminada cruzada, que capta carbono
No jardim da suíte, banheira de imersão da Doka
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
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De volta à suíte do casal, obra Cidade no Copo II, de Tomás Hernandez, e luminária de mesa Mini Bauhaus 90 T, design Fernando Prado para a Lumini
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
Tecnologia de ponta, aliás, esteve presente em todo o processo. “No escritório, usamos a plataforma BIM [Building Information Modeling], que permite ‘desenhar’ a casa em simulações gráficas 3D, integrando os diferentes projetos e materiais, da hidráulica e elétrica aos acabamentos. Em certo ponto, havia 15 projetistas inserindo dados e mexendo nos planos ao mesmo tempo”, explica Guto, constatando a importância desse recurso amplamente usado internacionalmente e que facilita a compatibilização das diversas áreas – sobretudo agora, quando o arquiteto divide sua rotina entre o escritório do Brasil e o de Portugal.
No pátio, banco Passaredo, com azulejaria da Eliane pintada à mão pelo estúdio Hausfrau retratando as aves da região, e piso de caco de pedra Goiás
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
O projeto garantiu ainda o reúso de água da chuva, armazenada em cisterna, e a instalação de placas fotovoltaicas para captação de energia solar. No final, a tríade criativa elegeu poucos e bons acabamentos locais, tipicamente brasileiros, naturais e sensoriais.
A vista da área externa mostra a casa coberta por tinta natural da Solum e telhas da Hunter Douglas, e ao redor da piscina com azulejos da Gail, espreguiçadeiras da L’oeil – o paisagismo é de Gil Fialho
Filippo Bamberghi | Estilo Adriana Frattini | Produção Bruna Scapim
Os interiores surgiram cheios de personalidade graças à primorosa seleção de objetos e acessórios com valor afetivo, oriundos tanto da ascendência espanhola de Eduardo quanto das raízes japonesas de Débora. As inúmeras viagens que o casal faz pelos rincões do Brasil também garantem o intrigante acervo de arte e artesanato.
Temos paisagismo com espécies nativas, horta com PANCs e muitos animais por perto
Nada deixa a proprietária e seu marido mais satisfeitos do que elencar outro grande feito da construção: confundir-se com o entorno verdejante. A casa é aberta à paisagem e à mata próxima, receptiva às múltiplas espécies locais, como os gatos domésticos da família, bugios, rãs, corujas, veados-catingueiros, tucanos, lagartos, capivaras e pica-paus. É o desenho de um novo morar, onde o cotidiano da família passa a ser ditado não pelo ritmo urbano, mas pela potência indomável das forças da natureza.




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