Estilista transforma estranhamento em negócio com roupas que imitam pele humana

Você abre uma caixa de papelão com uma encomenda. Dentro dela, há uma espécie de marmitex de alumínio. Jeito curioso de receber comida por delivery, não é? Mas, em vez de uma quentinha, a embalagem guarda um top regata que parece ser feito de pele humana. O realismo é tamanho que inclui até o que se assemelha a mamilos. Entre as tatuagens impressas no material, no peito, lê-se “Obrigon”, nome da marca por trás do design que pode causar estranhamento.
A cena faz parte de um vídeo em que a estilista Ludmila Obrigon embala uma das peças da marca que leva seu sobrenome. Publicado no Instagram, o conteúdo já ultrapassava 19 milhões de visualizações até a publicação desta reportagem, além de reunir comentários em diversas línguas. Segundo Ludmila, o vídeo provocou um verdadeiro boom para a grife, conhecida por produzir roupas em látex que simulam pele humana.
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Não, as peças não são feitas de pele humana de verdade, e Ludmila costuma responder pessoalmente a comentários que levantam essa dúvida nas redes sociais da marca. A proposta da Obrigon, no entanto, é justamente provocar esse desconforto inicial. A grife se inspira no conceito do “estranho familiar”, formulado pelo psicanalista Sigmund Freud, que descreve algo ao mesmo tempo conhecido e inquietante, capaz de despertar estranheza, medo ou confusão.
“A gente trabalha muito essa ideia da pele. O corpo é algo que vemos o tempo todo, mas, quando ele aparece em forma de roupa, causa estranhamento. Isso é relativo, e a marca levanta esse questionamento. É quase um estudo social”, afirma Ludmila.
Apesar da proposta conceitual, a Obrigon também dialoga com o universo pop. Ludmilla, Anitta, Luísa Sonza, Ebony, Pabllo Vittar e Pocah estão entre os nomes da música que já vestiram a marca, que também desfilou no São Paulo Fashion Week no ano passado.
“Eu sempre gostei de coisas diferentes, mas muitas vezes as pessoas associam o que é estranho a algo ruim. Na minha época de escola, todo mundo era muito padrão, e quem fugia disso era zoado. Isso sempre me incomodou.”
A marca surgiu para provocar
A marca nasceu como Provoke — “provocar”, em inglês. Mais literal, impossível. A ideia surgiu ainda na faculdade, em 2019, como parte do trabalho de conclusão de curso de Ludmila. Além da monografia, ela apresentou um desfile que já trazia conceitos presentes nas peças atuais.
“Logo depois que me formei, veio a pandemia. Então, 2020 foi um ano de descobrir qual seria meu produto e minha identidade. Meu TCC era muito conceitual, havia um universo enorme de possibilidades, e eu precisava entender como monetizar tudo isso”, conta.
Anitta, Pocah e Ludmilla são algumas das artistas que já vestiram Obrigon
Reprodução/Redes Socais
Sem capital para investir, o primeiro passo foi reaproveitar os materiais que haviam sobrado da faculdade. “Foi em 2023 que a marca realmente começou a avançar, quando passei a lançar coleções com mais frequência e diferentes versões das mesmas peças”, relembra.
Ainda em 2020, Ludmila trabalhava com styling de artistas em videoclipes, uma das pontes que a levou a vestir grandes nomes do pop nacional. “Isso não se reflete diretamente nas vendas, mas ajuda muito na visibilidade da arca”, explica. O que impulsionou a Obrigon de forma mais contundente, porém, foram as redes sociais, inclusive as polêmicas.
Um dos vídeos da Obrigon no TikTok foi removido após denúncias de usuários. Atualmente, ao acessar a página da marca pela versão desktop da plataforma, aparece o aviso: “As publicações que podem ser desconfortáveis para algumas pessoas não estão disponíveis”.
Entre os comentários deixados nas publicações — e ainda encontrados em outros conteúdos — estão comparações entre Ludmila e o serial killer Edward Theodore Gein, conhecido como Ed Gein. Na década de 1960, o norte-americano foi condenado por assassinato e por desenterrar cadáveres, utilizando a pele humana para confeccionar objetos e roupas.
“As pessoas brigam na internet por muitos motivos, às vezes por coisas pequenas. No meu caso, houve uma associação da roupa de pele, influenciada por séries recentes da Netflix [como a sobre Ed Gein], a crime ou violência. Eu respondi explicando que não existe esse conceito nem qualquer relação com isso”, afirma a estilista.
A roupa de “pele” virou negócio
Croqui do trabalho de conclusão de curso de Ludmila Obrigon
Reprodução
A Obrigon segue como uma marca artesanal. Ludmila produz as peças manualmente e conta com o apoio de apenas duas pessoas: uma costureira, que nem sempre está presente, e alguém responsável pela parte burocrática do negócio. A decisão de não ampliar a equipe vai além do custo financeiro. “É um trabalho muito autoral. Já aconteceu de eu contratar alguém e a pessoa querer fazer do jeito dela, e aí não funciona. Às vezes, acaba sendo mais dor de cabeça”, diz.
O ateliê funciona em um espaço dentro da própria casa, e Ludmila admite viver praticamente em função da marca. A rotina inclui longas horas de produção, intercaladas com pausas e o atendimento aos clientes e seguidores nas redes sociais.
Embora considere distante, a estilista sonha em ter uma loja física ou pontos de venda em outras lojas, para que o público possa ver as peças de perto. “Nas fotos, muitos detalhes e texturas se perdem. As pinturas são muito minuciosas, então seria incrível ter um espaço físico”, afirma. Por enquanto, no entanto, isso exigiria abandonar parte do caráter artesanal, algo que não está nos planos.
Ludmila reconhece que, justamente por esse processo e pelos materiais utilizados, as roupas da Obrigon não são financeiramente acessíveis ao grande público. No site da marca, o top regata citado no início da reportagem é vendido sob encomenda por R$ 1,5 mil. As peças sob medida, fora do catálogo online, representam hoje a principal fonte de receita.
Chaveiros da marca Obrigon inspirados nos famosos Labubus
Reprodução/Redes Socais
Para ampliar o alcance da marca sem perder identidade, Ludmila lançou no último ano um chaveiro inspirado nos famosos Labubus. Assim como algumas peças da grife, o acessório traz detalhes em látex que simulam pele humana. Vendido por R$ 218, o item se tornou um sucesso. “Os chaveirinhos deram uma virada na marca. São um produto de entrada, mais acessível”, explica.
A singularidade do trabalho impede a definição de uma média fixa de vendas mensais. Em vez disso, a marca trabalha com metas de faturamento, independentemente do número de peças comercializadas. “Depois que o vídeo viralizou, dobramos o faturamento. Desde então, crescemos mês a mês, e as metas para este ano já são outras”, conclui a estilista.





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