'É sufocante', diz paciente em fila de 4,6 mil pessoas por cirurgia ortopédica no SUS em Campinas

A dor constante e a dificuldade de locomoção fazem parte da rotina de pacientes que integram a fila de 4.622 pacientes à espera de uma cirurgia ortopédica eletiva pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas (SP).
"É sufocante, dá um desespero na gente", desabafa a aposentada Maria Odete de Moraes, que aguarda pela colocação de uma prótese no quadril para diminuir as dores da artrose.
Sem saber a posição exata na lista de espera, Maria Odete conta que a situação causa angústia e limita a mobilidade dentro de casa. "Às vezes, mesmo com a bengala, eu acabo me apoiando ainda nos móveis e vou fazendo. Não tem como mais, sabe? É muita dor", relata a idosa.
⚠️ O que são cirurgias eletivas? São procedimentos médicos planejados, que não apresentam caráter de urgência ou emergência. Por serem programadas, essas intervenções dependem de agendamento prévio e disponibilidade na rede de saúde.
O sofrimento diário sem previsão de atendimento levou o Ministério Público (MP) a entrar com uma ação na Justiça para obrigar o poder público a apresentar um plano emergencial de redução da fila, que aumentou 24% em sete meses.
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A Prefeitura de Campinas informou que vai acionar a Justiça para pedir a atualização da Tabela SUS Nacional, alegando que os valores estão defasados e não cobrem os custos reais dos procedimentos, especialmente na ortopedia.
O município também defende maior participação da União e do Estado no financiamento da saúde pública e afirma manter como prioridade a redução das filas de cirurgias (veja a nota na íntegra ao final desta reportagem).
A Secretaria Estadual da Saúde afirmou em nota que tem ampliado a oferta de atendimentos na região de Campinas para ajudar a reduzir as filas do SUS, e destacou que a responsabilidade pelas filas municipais é das prefeituras.
Aposentada Maria Odete de Moraes aguarda pela colocação de uma prótese no quadril
Reprodução/EPTV
Medo do futuro
A agente comunitária de saúde Edite Shiavon aguarda por uma cirurgia no menisco no Hospital Mário Gatti desde março do ano passado. Por causa de uma artrose, ela está com o joelho inchado e precisou mudar a forma de trabalhar.
"Estou com várias restrições agora e estou trabalhando sentada. A perna continua doendo, a dor é constante quase", diz.
A espera também traz incertezas sobre o futuro da agente comunitária. "Eu convivo com muita esperança, mas com muita ansiedade. Eu tenho medo de parar numa cadeira de roda, porque eu estou cada dia pior. É desesperador", lamenta Edite.
Agente comunitária de saúde Edite Shiavon aguarda por uma cirurgia no menisco no Hospital Mário Gatti desde março do ano passado
Reprodução/EPTV
O que pede o Ministério Público
O MP-SP pede que TJ-SP obrigue o município e o estado a apresentar, em até 45 dias, um plano emergencial conjunto que inclua:
Cronograma prioritário: atendimento em até 30 dias para quem espera há 48 meses ou mais, e em até 90 dias para quem espera há 20 meses ou mais.
Aumento da produção: medidas para incrementar o número de cirurgias mensais, incluindo mutirões e contratação de serviços privados, se necessário.
Prazo máximo de espera: fixação de, no máximo, 20 meses para a realização de cirurgias em casos futuros.
Transparência da fila: implementação, em até 90 dias, de um sistema público onde o paciente possa consultar sua posição individual e o tempo médio de espera.
Ao final do processo, o MP-SP pede a condenação solidária dos réus para:
Elaboração de um Plano Estrutural: apresentação, em 60 dias, de um diagnóstico detalhado da rede e metas mensais de redução da fila.
Metas de redução: garantia de que a produção cirúrgica supere o ingresso de novos pacientes, eliminando o represamento atual.
Monitoramento judicial: apresentação de relatórios semestrais à Justiça e participação em audiências de acompanhamento para fiscalizar o cumprimento das metas.
O que diz a Rede Mário Gatti
"A Rede Mário Gatti informa que todos os pacientes com indicação de cirurgia ortopédica são acompanhados pelas equipes médicas e inseridos na fila de espera para o procedimento, cuja gestão segue critérios técnicos definidos em resolução da instituição.
As cirurgias são realizadas de acordo com a disponibilidade da rede e obedecem à classificação clínica dos pacientes. Casos de urgência e emergência têm prioridade absoluta, pois envolvem risco à vida ou possibilidade de agravamento imediato do quadro de saúde. Esses atendimentos utilizam os mesmos leitos, salas cirúrgicas e equipes destinados às cirurgias eletivas, o que impacta diretamente o andamento da fila.
Para os procedimentos eletivos, a ordem de convocação considera, entre outros critérios, o tempo de espera e a condição clínica do paciente. A posição na fila pode ser alterada quando houver mudança no quadro de saúde atestada pela equipe médica.
A Rede Mário Gatti mantém o acompanhamento permanente da fila cirúrgica e trabalha para ampliar a capacidade de atendimento, garantindo que a gestão ocorra com critérios técnicos, transparência e prioridade aos casos de maior gravidade".
O que diz a Prefeitura de Campinas
"A Prefeitura de Campinas vai ingressar com ação na Justiça contra o Governo Federal para atualizar a Tabela SUS Nacional, cujos valores pagos pelo Ministério da Saúde estão muito abaixo dos custos reais dos procedimentos realizados pelos municípios. A iniciativa foi motivada pela ação proposta pelo Ministério Público em relação à fila de cirurgias ortopédicas e amplia o debate sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
A medida, conduzida pelo prefeito de Campinas, Dário Saadi, na condição de presidente da Comissão Permanente de Saúde da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), foi tema de debate nesta quarta-feira, dia 24 de junho, durante reunião da comissão realizada em Campinas. A Tabela SUS Nacional permaneceu por anos sem atualização compatível com os custos dos serviços e passou a receber apenas recomposição inflacionária a partir de 2024. Na ortopedia, os valores pagos pelo Ministério da Saúde continuam muito inferiores ao custo efetivamente suportado pelos municípios.
A Prefeitura informa que a redução das filas para cirurgias eletivas é uma prioridade permanente da Administração Municipal. Entre 2023 e 2026, o SUS Municipal realizou 79.896 cirurgias, das quais 16.957 foram ortopédicas, volume superior ao registrado em municípios de porte semelhante.
A rede hospitalar municipal, no entanto, atende simultaneamente uma elevada demanda de urgência e emergência. Cerca de dois terços das cirurgias ortopédicas realizadas no período foram de urgência, principalmente em decorrência de traumas, que utilizam os mesmos leitos, salas cirúrgicas e equipes destinados aos procedimentos eletivos.
Levantamento da Prefeitura mostra que, somente entre 1º de janeiro e 25 de maio de 2026, foram registrados 2.700 atendimentos relacionados a acidentes de trânsito, sendo mais de dois terços envolvendo motociclistas. Esse cenário motivou a implantação de uma política municipal de segurança viária, que já resultou em redução de 63% das mortes no trânsito no primeiro trimestre deste ano.
Campinas também é referência regional em urgência e emergência. Historicamente, entre 20% e 25% dos pacientes atendidos pelo SUS Municipal são moradores de outros municípios da Região Metropolitana de Campinas, o que amplia significativamente a demanda pelos serviços.
Como parte das medidas estruturantes para ampliar a capacidade de atendimento, o Governo do Estado construirá o Hospital Metropolitano, que contribuirá para ampliar a oferta de procedimentos de média e alta complexidade em toda a região.
Na ação judicial, a Prefeitura defenderá que União e Estado ampliem sua participação no financiamento do SUS. Hoje, Campinas responde por 71,27% dos recursos aplicados na saúde pública municipal, enquanto a participação federal é de 22,04% e a estadual de 4,11%.
A Administração Municipal reafirma seu compromisso com a redução das filas de espera e defenderá a atualização da Tabela SUS Nacional e um financiamento mais equilibrado do sistema, condição essencial para ampliar a capacidade de atendimento da rede pública".
O que diz o governo estadual
A Secretaria Estadual da Saúde afirmou em nota que tem ampliado a oferta de atendimentos na região de Campinas para ajudar a reduzir as filas do SUS. Segundo o Estado, mais de 650 leitos foram abertos ou reativados nos últimos anos com apoio do programa SUS Paulista, que aumenta os repasses para hospitais filantrópicos.
Disse ainda que a construção do novo Hospital Metropolitano e o credenciamento do Hospital São Leopoldo Mandic devem ampliar os atendimentos pelo SUS na região. Ressaltou ainda que a gestão das filas municipais é responsabilidade das prefeituras.
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