O fator que impede muitas empresas de usar IA — e como resolvê-lo em 8 passos

Um banco de dados é um aliado valioso para fazer análises e entender o momento do negócio, as oportunidades e os gargalos. Empreendedores podem começar com uma simples planilha, que já é uma base para criar um painel (ou dashboard) com métricas de desempenho e de tendências.
Conforme a empresa cresce – e o volume de informações aumenta –, ela pode se tornar mais complexa e alimentar ferramentas que usam inteligência artificial (IA) para fazer diagnósticos sofisticados e projeções. “Quem começa de forma estruturada tem a vantagem de obter melhores respostas com o uso dela [ao expandir]”, diz Regina Cantele, coordenadora do MBA em Engenharia de Dados da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap).
Independentemente do porte da empresa, três pontos são essenciais para criar um bom banco de dados, reforça Larissa Scattolini, líder de projetos estratégicos da consultoria Auddas: “Qualidade das informações, organização de processos e definição de pessoas responsáveis pela atualização”.
Há dois grupos de dados: os estruturados (com formato definido, como nome do cliente, preço do produto e data de venda) e os não estruturados (sem padronização prévia, como áudios, comentários em canais digitais, e-mails, PDFs e vídeos). “Boa parte da inteligência do empreendimento está nas conversas e no histórico de informações sobre clientes ou fornecedores”, pondera Mariah Sathler, consultora em IA aplicada a negócios. “Os números podem mostrar que o faturamento está caindo. Mas os motivos provavelmente estão nas conversas de WhatsApp e nos comentários em sites e em redes sociais. Por isso é preciso organizá-los.”
Confira, a seguir, como coletar e organizar todas essas informações em um banco de dados – do mais simples ao mais complexo.
Ilustração: Ina Gouveia
1. Defina seu propósito
Antes de organizar informações, estabeleça um objetivo: que tipo de análise você deseja obter a partir desses dados? Pode ser acompanhar a jornada do cliente para personalizar ofertas, controlar estoque ou antecipar a demanda. O direcionamento orienta o foco da coleta.
“Para avaliar a rentabilidade de um projeto ou de um novo serviço, por exemplo, é preciso registrar as horas de trabalho, o custo da hora por pessoa e o faturamento [gerado]”, exemplifica Sathler. Ela recomenda iniciar com registros de vendas, comportamento do cliente, estoque e operação. “Comece com o que mais impacta o caixa.”
A partir disso, identifique se essas informações já estão armazenadas de alguma forma, em planilhas ou em softwares como sistemas de gestão de relacionamento com o cliente (CRM) ou de planejamento de recursos empresariais (ERP).
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2. Centralize os registros
O segundo passo é escolher onde armazenar esses registros. “É importante construir uma fonte única de verdade [ambiente central para manter e utilizar os registros], que será o ponto final dos dados e o suporte para os empreendedores tomarem decisões”, define Scattolini.
Pode-se partir de uma planilha básica, sugere Cantele: “Já é um banco, ainda que simples, porque sinaliza que as informações estão sendo organizadas em um só lugar”.
Outras ferramentas acessíveis são sistemas como CRM e ERP. Quem utiliza essas plataformas pode dar um passo além e centralizar tudo em um data warehouse, estrutura capaz de integrar e organizar os registros para fazer análises. A consolidação nesse formato também evita inconsistências ou duplicidades, segundo a coordenadora da Fiap.
3. Padronize as informações
Qualquer que seja o sistema adotado, é imprescindível registrar ou importar informações padronizadas. Ferramentas de gestão dão conta de parte do trabalho, validando campos e apontando inconsistências. Já o preenchimento manual pede mais cuidado. Antes de inserir dados, é necessário “limpar” os registros, eliminando variações de escrita, corrigindo erros e organizando informações em categorias definidas, como produto, preço, data, canal de venda e motivo da reclamação.
Outras dicas são evitar campos vazios e usar formatos únicos para datas e números. “O que entra errado sai errado, e isso prejudica a análise da IA”, explica Scattolini. Esse cuidado deve ser acompanhado de uma rotina de manutenção, com revisões periódicas para corrigir falhas, atualizar categorias e excluir duplicidades.
4. “Traduza” dados não estruturados
Existem informações coletadas pela empresa – como e-mails, mensagens de texto e áudios no WhatsApp – ainda sem classificação em categorias ou tabelas. Esses são os dados não estruturados, também passíveis de organização para análise.
Uma forma simples de fazer isso em pequenos negócios é usar ferramentas que transcrevem áudios e vídeos ou “leem” PDFs e, depois, pedir a uma IA generativa para classificar esse conteúdo nas categorias desejadas. “Daí é possível fazer análises”, diz Scattolini.
Empresas de médio porte conseguem recorrer ao NoSQL, banco capaz de armazenar e analisar grandes volumes de dados. “Um exemplo é o de grafos, que representa o que está acontecendo nas redes sociais”, exemplifica Cantele. “Um NoSQL é uma boa opção para os empreendedores que planejam ganhar escala, como startups.”
Ilustração: Ina Gouveia
5. Escolha os responsáveis
Para garantir a padronização, o ideal é nomear uma pessoa responsável por alimentar o sistema – ou um profissional em cada área, desde que todos sigam um protocolo comum. Pode ser alguém com interesse ou conhecimento no tema e familiaridade com essa rotina no dia a dia.
Na hora de definir quem ficará com essa tarefa, um caminho é mapear o fluxo do negócio e identificar em quais pontos chegam os dados – como sistemas de atendimento, emissão de notas fiscais ou relatórios financeiros. A partir disso, é possível estruturar um processo com informações que são inseridas em cada etapa da operação, nomeando os responsáveis em cada uma. Para Sathler, isso permite evitar erros de cadastro e categorização e mantém a consistência ao atualizar planilhas ou sistemas.
6. Proteja o banco
Informações internas devem ser resguardadas com atitudes simples, como proteger planilhas com senha, não compartilhar arquivos abertos e restringir o nível de acesso nos sistemas de gestão. Já os registros sobre clientes precisam ser armazenados de forma a impedir sua identificação – é a anonimização de dados sensíveis, como nome, CPF e número do cartão.
“Esses dados jamais devem estar visíveis ao usar plataformas de IA generativa ou outras ferramentas de IA para fazer análises”, alerta Sathler. Tampouco podem estar sujeitos a vazamentos, conforme recomenda a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Por isso, tabelas que permitem reconhecer pessoas precisam ter credenciais de acesso e ser restritas. “Os dados são uma riqueza da empresa, então é preciso criar uma cultura interna de seguir os processos corretamente”, diz Scattolini.
7. Fragmente as informações
Uma empresa em crescimento pode sofisticar sua fonte inicial de registros dividindo-os em módulos – como um de informações centralizadas de clientes, outro sobre o estoque e um terceiro com o desempenho financeiro, por exemplo. Segundo Sathler, “quando o banco de dados fica muito grande, vale fragmentá-lo para que a inteligência artificial seja mais certeira nas previsões e hipóteses”, aponta Sathler.
Enquanto as análises estiverem voltadas a decisões menos estratégicas, um ambiente unificado é suficiente para alimentar uma IA generativa. Já quando envolvem escolhas de maior impacto ou um volume elevado de registros, é hora de migrar para um data warehouse capaz de organizar as informações por área e prepará-las para uso em ferramentas avançadas de IA.
8. Crie um modelo robusto
Ferramentas de IA avançada permitem fazer análises mais complexas, como simulações que estimam a possibilidade de um determinado produto vender menos em um dia de chuva, por exemplo. Rodar esses modelos preditivos, porém, requer um banco de dados mais robusto.
“Para fazer uma análise preditiva, a inteligência artificial vai sempre precisar de dados históricos, em grande volume”, explica Cantele. Quando a empresa tem mais de 5 mil linhas de informações para processar, é hora de contratar um especialista para estruturar melhor a base e viabilizar as mais complexas, aponta Sathler.
Isso porque as IAs generativas não foram desenhadas para processar volumes extensos de dados nem para sustentar modelagens de previsão em larga escala. Uma infraestrutura mais robusta permite organizar, tratar e analisar esses registros com maior precisão, ampliando a confiabilidade das projeções.




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