Após sair da recuperação judicial, Bullguer projeta faturamento de R$ 180 milhões com expansão internacional

Fundada em 2015, a rede de hamburguerias Bullguer oficializou em fevereiro de 2026 sua saída do processo de recuperação judicial, iniciado no final de 2022. Com faturamento de R$ 130 milhões, registrado no ano passado, a empresa passou por uma reestruturação que envolveu a retomada da gestão direta pelos fundadores e uma estratégia de transparência com fornecedores. Agora a Bullguer foca em um plano de expansão que prevê a abertura de 15 novas unidades nos próximos 18 meses, e a consolidação de sua operação em Portugal. Para este ano, a previsão é chegar ao faturamento de R$ 180 milhões.
A retomada, entretanto, não foi fácil. Alberto Abbondanza, sócio-fundador e CEO da companhia, conta que o caminho para a recuperação judicial começou com um movimento estratégico em 2019. Naquele ano, os fundadores (Abbondanza, Thiago Koch, que é COO e chef da Bullguer, e Ricardo Santini, CMO que cuida do marketing) decidiram recomprar a participação de investidores iniciais — amigos e conhecidos que haviam financiado a abertura das primeiras lojas — para serem os únicos sócios da companhia.
A transação financeira foi parcelada, gerando um endividamento planejado que coincidiu com o início da pandemia da covid-19, no começo de 2020. "Fizemos essa alteração em dezembro de 2019. Começamos com essa compra executada parcialmente em 2020... Em março, veio a pandemia", lembra Abbondanza.
A crise sanitária global paralisou os planos de expansão e impactou severamente o faturamento, especialmente em unidades localizadas em shoppings, onde o serviço de delivery não era suficiente para cobrir os custos. Abbondanza destacou que, na época, as taxas das plataformas de entrega, que variavam entre 15% e 25%, tornavam a operação financeiramente insustentável para muitos pontos.
"A gente demorou para tomar a decisão de voltar um pouco atrás e diminuir a nossa operação. No final de 2022, decidimos entrar em recuperação judicial para organizar tudo isso que foi acumulado", diz o CEO da Bullguer.
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Receita para superação e reestruturação
Para superar a crise, a Bullguer adotou transparência absoluta e uma política de "barriga no balcão", como Abbondanza descreve. Os fundadores se aproximaram mais da gestão e absorveram funções de diretores que foram desligados para reduzir custos. Alberto permaneceu como CEO focado na estratégia administrativa; Thiago assumiu a liderança de produtos e cozinha; e Ricardo ficou responsável pelo marketing e expansão.
A gestão priorizou a manutenção da qualidade dos insumos e a parceria com fornecedores estratégicos em detrimento das dívidas bancárias. "A menor parte [da dívida] eu deixei para os fornecedores. Prefiro carregar um pouco mais com os bancos e priorizar o fornecedor como parceiro. Prezo muito pela qualidade do meu produto", afirma Abbondanza.
Apesar da recuperação, o empresário diz que a Bullguer nunca abriu mão da qualidade do pão (classificado como um insumo "super estratégico" para a operação), da carne e do queijo — itens fundamentais cujos fornecedores não poderiam ser perdidos, já que o objetivo era manter o alto padrão do hambúrguer. A empresa também contou com o apoio de uma plataforma de delivery, que ajudou na viabilização da volta da companhia.
“Sou muito feliz e grato pelos meus fornecedores que nos ajudaram e nos ajudam todos os dias. São eles que fazem o dia a dia acontecer”, diz Abbondanza.
Antes de oficializar o pedido de recuperação, a diretoria reuniu-se com parceiros-chave para garantir a continuidade do fornecimento, muitas vezes pagando antecipadamente. Internamente, a empresa implementou auditorias externas para elevar o nível de governança, o que ajudou a corrigir processos e aumentar a eficiência operacional.
Na avaliação dos sócios, a auditoria externa, conduzida por Arthur Arstuffi, da banca RST&A Advogados, desempenhou um papel fundamental ao trazer maior segurança e governança para a Bullguer durante o seu processo de reestruturação. De acordo com o CEO, a decisão de auditar o negócio foi essencial para ajudar os sócios a olharem para os processos internos e identificarem detalhadamente o que estava errado ou precisava de ajustes. Foi um investimento de mais de R$ 100 mil, valor considerado alto por ele para uma empresa em recuperação judicial.
“Dr. Arthur foi uma pessoa brilhante do começo ao fim. Ele realmente abraçou a causa da empresa. Foi uma banca maravilhosa”, elogiou.
A análise de processos da Bullguer feita pelo escritório serviu como um complemento ao rigor já exigido pelo próprio processo de recuperação judicial, que naturalmente impõe uma estrutura de governança ao obrigar a empresa a apresentar relatórios mensais e justificar todas as suas ações perante os administradores judiciais. Para Abbondanza, o questionamento constante dos processos e a análise externa foram imprescindíveis ao desenvolvimento e à organização da companhia, permitindo que ela se tornasse mais eficiente, segura e lucrativa.
“O processo, em si, foi muito bom porque a gente conseguiu reestruturar muitas áreas da nossa companhia para deixá-la mais eficiente e lucrativa. E o principal: conseguir honrar com os nossos credores”, observa.
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Tempero na gestão e barriga no balcão
Em 30 de abril, a recuperação judicial da Bullguer foi encerrada por sentença da juíza Fernanda Perez Jacomini, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os sócios afirmam que a experiência deixou muitos ensinamentos, um deles foi a resiliência. Outra lição: priorizar o caminho da transparência.
Abbondanza ressalta que a transparência com os colaboradores foi fundamental para manter o engajamento e a qualidade do atendimento durante o período de incertezas. "O ponto-chave para isso acontecer é a resiliência. Além da transparência com colaboradores, explicávamos o que estava acontecendo a cada momento", pontuou.
Outro aprendizado foi a necessidade de uma gestão mais próxima e detalhista, saindo do modelo puramente corporativo.
"A recuperação nos trouxe um pouco mais de gestão e governança. Somos mais barriga no balcão do que éramos antes. Saímos um pouco do castelo", diz Abbondanza, descrevendo a rotina atual dos sócios visitando as lojas diariamente.
Com a saúde financeira restabelecida, a Bullguer registrou um faturamento de aproximadamente R$ 130 milhões em 2025. Nos próximos meses, a meta é expandir o negócio ainda mais: a projeção de faturamento para este ano é de R$ 180 milhões; em 2027, a meta é saltar para R$ 250 milhões. Atualmente com 43 lojas abertas, a Bullguer planeja encerrar o próximo ano com cerca de 60 unidades. O modelo de negócio é composto por 80% de operações próprias e 20% de franquias e licenciamentos para locais distantes.
A expansão internacional tem foco em Portugal, onde a marca já conta com oito lojas, distribuídas entre Lisboa e Porto, e prepara a inauguração da nona. Thiago Koch, sócio e chef da Bullguer, conduziu o desenvolvimento dos produtos com fornecedores locais para garantir o padrão Bullguer com insumos portugueses de alta qualidade. No Brasil, o foco da expansão está concentrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e na Região Sul do país.




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