“Primeira-dama do agro”, Georgia Adriano Batista é a musa que movimenta o luxo no “faroeste brasileiro”

“Primeira-dama do agro”, Georgia Adriano Batista é a musa que movimenta o luxo no “faroeste brasileiro” (Foto: Reprodução/Instagram @georgiaadriano)
“É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás”. Há exatos 70 anos, quando Guimarães Rosa escreveu isso em seu monumental “Grande Sertão: Veredas”, podia até ser. Hoje, a cena é outra – e o modernista teria adorado inventar neologismos para descrever as novas realidades que existem nesse “meio” do Brasil. E são muitas.
Sem a mesma prosa poética, a imagem é essa: na ponte aérea São Paulo-Goiânia, quarteirões de arranha-céus apertados vão se abrindo para lotes imensos que mal cabem na janelinha do avião. Às vezes, são verdes (milho, soja, cana-de-açúcar), às vezes, são brancos, com dezenas de milhares de bois formando pontilhismo na paisagem. E é mesmo “preciso de saber os trechos de se descer para Goiás”.
Em um dia comum, o aeroporto de Santa Genoveva, na capital, serve bem o propósito. Fundado um ano antes da publicação daquele que se tornou um dos mais importantes livros de toda a literatura brasileira, registrou recorde ao receber 373.905 pessoas apenas em julho passado. Outra opção é uma pista para jatos particulares (ou um heliponto) nas redondezas de Nazário, município de 8.350 habitantes a quase duras horas de carro de Goiânia. Por ali, não descem turistas ou locais, mas convidados especiais reunidos, uma vez por ano, para um dos maiores eventos desse “novo mundo agro” que Guimarães Rosa não teve tempo de ver.

Empresária e esposa de Fabrício Batista, CEO do Grupo JBJ Agropecuária, Georgia se tornou o rosto da cena “western” brasileira (Foto: Reprodução/Instagram @georgiaadriano)
Quem sabe, sabe. A pista é na “Fazenda Floresta” (propriedade da gigante JBJ Agropecuária onde são criadas 20 mil cabeças de gado Nelore) e o evento em questão, batizado “festinha de Goiás”, é o Leilão JBJ Ranch & Família Quartista. Em 2026, teve sua quinta edição, organizada entre 15 e 17 de maio, e que movimentou R$ 257 milhões com a venda de cavalos da raça Quarto de Milha. De “festinha”, portanto, não tem nada – e os preparativos, com custo estimado em R$ 8 milhões, são seguidos com o olhar detalhista da anfitriã, Georgia Adriano Batista.
Às vésperas do leilão no final de semana, ainda na manhã de sexta-feira, ela está a postos na fazenda de quase quatro mil hectares já ansiosa pela movimentação iminente – e não faz clichê datado, fantasioso, que as novelas criaram no imaginário brasileiro. Ao contrário, tem os pés firmes na terra com um par de botas Hermès e um vestido de camurça, no mesmo tom terroso, assinado pela Celine. De sorriso constante, conversa com a decoradora Cristal Lobo, disputada pela alta sociedade goiana e, ela própria, com jeans Loewe e uma fivela dourada no cinto, também da Celine. A ideia para o cenário do leilão era recriar, com padrão hollywoodiano, a atmosfera de Fort Worth Stockyards, distrito histórico no Texas próximo ao rancho que Georgia e a família compraram no ano passado para expandir o “negócio” (leia-se “império”) de criação de cavalos.

O leilão de cavalos da raça Quarto de Milha, organizado pela JBJ, está em sua quinta edição e faturou R$ 257 milhões em 2026 (Foto: Reprodução/Instagram @georgiaadriano)
Georgia jamais admitiria, mas é o papel da Harper’s Bazaar dar “nome aos bois” quando o assunto é sério. Sem rodeios, a empresária de 37 anos é a grande primeira-dama do agronegócio brasileiro. Mãe de três filhos, é casada há mais de uma década com Fabrício Batista, herdeiro do sobrenome que virou sinônimo da agropecuária no Brasil. O avô, José Batista Sobrinho (o “Zé Mineiro”), fundou a empresa JBS em 1953, líder no setor alimentício do País que controla marcas como Friboi, Swift e Seara e que, apenas em 2025, alcançou a receita líquida recorde de 86 bilhões de dólares. O pai, José Batista Júnior (o “Júnior Friboi”), deixou a JBS em 2013 para fundar, com as próprias iniciais, a JBJ – também voltada para a agropecuária e que, atualmente, conta com 14 propriedades rurais que somam quase 150 mil hectares entre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Somente no ano passado, a empresa registrou um faturamento de R$ 6 bilhões e tem a meta de alcançar os R$ 10 bilhões até 2027. Como? Atuação nas aéreas de confinamento, frigorífico, exportação, genética bovina… e o negócio milionário de cavalos da raça Quarto de Milha, nativa do faroeste dos Estados Unidos, que tem crescido “a galope”.
Fabrício Batista é CEO da JBJ e o responsável pela ideia que, hoje, representa o setor de maior crescimento no grupo. É o quem pai conta a história: “Meu filho me disse, um dia, que precisava comprar uma égua para as crianças brincarem na fazenda. Logo depois, foi convidado para um leilão de cavalos e se encantou. Voltou dizendo que tinha achado tudo ‘lindo’ e deu a ideia de começar a reproduzir esses animais”. Fabrício complementa que a inspiração também surgiu durante a pandemia, quando sentiu que podia transformar o desejo das pessoas pelo fim da quarentena em oportunidade de lucro. “Cavalo é liberdade e isso é o que as pessoas mais precisavam”. José continua: “Eu perguntei se era para negócio ou para lazer. Se fosse para lazer, a resposta era não. Se fosse para negócio… o assunto era outro”. E foi.
Até então, o maior leilão de Quartos de Milha acontecia em São Paulo e faturava por volta de R$ 6 milhões. Em 2022, após a família Batista estudar o mercado e preparar genéticas de elite, organizaram a primeira venda da JBJ e viram um resultado de quase R$ 10 milhões. “Eu achei bom”, brinca José, “mas disse que o número precisava dobrar na próxima”. Quase isso. Na segunda edição, em 2023, o faturamento do leilão ultrapassou os R$ 17 milhões. Na terceira, mais de R$ 49 milhões. Na quarta, R$ 128 milhões e, finalmente, em 2026, R$ 257 milhões – número que consolidou o evento como o maior no mundo. Georgia, portanto, não hesita em dizer que, hoje, “os cavalos são a grande vitrine da JBJ”.

Georgia na “Fazenda Floresta” do Grupo JBJ, propriedade no interior de Goiás que é palco para os leilões de cavalos que recebem convidados internacionais (Foto: Reprodução/Instagram @georgiaadriano)
Por falar em vitrine, aliás, não são as apenas os animais que carregam etiquetas milionárias, como a metade de um único garanhão que alcançou a cifra de R$ 44 milhões. Na direção do evento, Georgia também organizou a presença de “estrelas do agro”, como Gusttavo Lima, e shows de Paula Fernandes e da dupla Maiara e Maraísa. Ainda além, comandou a captação dos mais de 80 patrocinadores e garantiu, como parte da experiência, a abertura de sete pop-ups de marcas de moda para atender a demanda dos quase seis mil convidados, incluindo os casais Roberto Justus e Ana Paula Siebert e Elisa Zarzur e Alexandre Negrão.
“A joia do cowboy é outra”, ri, citando chapéus que podem chegar a R$ 10 mil reais. O marido corrige: “R$ 100 mil!”. São peças de luxo criadas artesanalmente por nomes como Bruno Mantovani e a marca texana Lucchese, referência na produção de botas desde 1883 e que fez sua estreia no Brasil durante o leilão. É o que Fabrício, em tom bem-humorado, chama de “o bom gosto simples do homem do agro brasileiro”, apontando para a própria fivela do cinto (um enorme medalhão de ouro e prata com as iniciais “JBJ” rodeadas por rubis e safiras) e falando sobre o desfile de “alta relojoaria” que os dias de evento prometeram e entregaram.
Estilo, portanto, é palavra-chave no “mundo verde” do agronegócio nacional – e Patricia Viera, estilista brasileira renomada, concorda. Com uma boutique montada durante o leilão da JBJ, sua marca homônima encheu araras com uma coleção inédita de peças sob encomenda criadas em colaboração com Georgia. “Nossa relação começou no leilão passado”, lembra Andrea Viera, filha de Patricia e na liderança do negócio, contando sobre uma amiga em comum que “fez a ponte” e garantiu a “ligação imediata”. “Acreditamos muito na moda brasileira e que ela existe para muito além do eixo São Paulo-Rio. Estava na hora de estourar a nossa bolha”. Nesse sentido, a coleção-cápsula de peças limitadas artesanais agitou uma cartela de clientes fashionistas que pensa o mesmo e, exatamente por isso, já incluiu na wishlist itens com preços de até R$ 14.800.

“O western ainda é um mundo muito machista. Quero incluir cada vez mais mulheres”, diz Georgia sobre seu lado fashionista que despertou o desejo de organizar eventos para as “mulheres do agro” (Foto: Reprodução/Instagram @georgiaadriano)
É um nicho que Georgia conhece bem, sabe e quer aproveitar. “O western ainda é um mundo muito machista. Quero incluir cada vez mais mulheres”. Com planos de organizar, em breve, um evento de moda focado no público feminino na mesma fazenda que é palco para o leilão, mantém o ritmo incurável de empresária. Mas é discreta… Conta pouco e, em verdade, faz apenas um ano que se aventurou nas redes sociais a fim de abrir novos “trechos de se descer para Goiás” com estilo. Ah, Guimarães Rosa!
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