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Belo Horizonte,22/05/2026

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De bolo de pote a R$ 700 mil de receita: empreendedor ensina o social media a se tratar como negócio

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De bolo de pote a R$ 700 mil de receita: empreendedor ensina o social media a se tratar como negócio


Jean Oliveira, 27 anos, tinha 17 quando começou a vender bolo de pote nas ruas de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, com R$ 50 no bolso e a ajuda da mãe na cozinha. A cena é distante da que ele ocupa hoje: Oliveira é dono da agência Start, criador de um método de estruturação profissional para quem atua como social media e gestor de um clube de assinaturas com quase 400 membros. Em 2025, o negócio faturou R$ 700 mil — quase quatro vezes o montante de 2024, quando a receita foi de R$ 184 mil. Para 2026, a meta é chegar ao primeiro milhão.
A trajetória não foi linear. Oliveira passou por um burnout em 2022, falhou no primeiro empreendimento e levou anos para encontrar o ponto de convergência entre o que sabia fazer e o que o mercado precisava. O que ele identificou nesse caminho virou negócio: a maioria dos profissionais de social media no Brasil trabalha sem processo, precificação estruturada ou noção de jornada de compra. "Se você não se olhar como um negócio, vai gastar a sua vida sendo capacho do cliente", diz.
Em 2016, quando Oliveira começou a vender bolo de pote, alguns tipos de empreendimento ainda carregavam certo estigma no Brasil. "A gente vem de um recorte social em que só poderia ter sucesso de forma acadêmica, em concurso público ou em uma big empresa. Quem empreendia era lido como pessoa que não deu certo", lembra. Ele foi em frente mesmo assim.
O negócio de bolo durou pouco. Oliveira diz que errou por não se reinventar: achou que o modelo de vendas que funcionava no início sustentaria o negócio indefinidamente. A lição ficou. Mais tarde, ao cursar Gestão Comercial, recebeu um convite para dar uma consultoria de vendas a um amigo. A experiência mostrou que seu talento estava menos em vender e mais em ensinar outros a se estruturar para vender.
Em 2020, no auge da pandemia, fundou a agência Start com foco em marketing e conteúdo para redes sociais. No primeiro ano, atendeu mais de 200 empreendedores com consultoria de marca. "Percebi que minha especialidade estava mais voltada a marcas pessoais — como as pessoas se comportavam, o que vendiam e como eram percebidas no digital", conta.
O burnout como ponto de virada
Dois anos depois, Oliveira chegou ao limite. O modelo de negócio se baseava em vender "pacotes de posts" — uma forma de trabalho que não gerava previsibilidade nem escala. "Não tinha processo. Era um trabalho frenético, sem estrutura. Em 2022, tive um burnout", conta.
A crise, no entanto, apontou para uma oportunidade. Oliveira percebeu que a ausência de processos não era um problema só seu — era uma dor generalizada no mercado de social media. "Existe uma dor que ninguém estava falando ainda: como desenhar um fluxo de processo para social media. Como precificar, atrair o cliente certo, olhar a estrutura de um negócio como negócio", diz.
Dados do setor sustentam essa percepção. Um levantamento da MLabs com mais de 4 mil respondentes aponta que 47% dos profissionais de social media no Brasil trabalham de forma autônoma ou freelancer. Entre eles, a principal área de interesse — indicada por 75% dos entrevistados — é estratégias digitais. Saber criar conteúdo não é mais suficiente.
O método e a comunidade
A resposta de Oliveira ao problema foi o método Start, um conjunto de diretrizes práticas sobre processos, precificação e estratégias de vendas voltadas especificamente para profissionais de social media. A proposta é tirar o profissional do modo operacional — o "fazedor de post", como ele chama — e colocá-lo no papel de empreendedor digital.
"O fazedor de post é aquele que não se preocupa em entender como o conteúdo vai afetar o comportamento de quem está consumindo. Não tem noção de jornada de compra, de estratégia, de como o conteúdo afeta a projeção da imagem do cliente", explica Oliveira. "Já quem pensa estrategicamente entende todo o objetivo do cliente e como guiá-lo, por meio do conteúdo, até o resultado."
O método virou a base de um ecossistema de educação com três frentes: cursos online, que acumulam mais de 3.700 alunos desde o lançamento; mentorias individuais e em grupo; e o Clubinho, clube de assinaturas voltado a social media. Lançado há menos de um ano, o clube opera com 300 a 400 membros e cobra R$ 99 mensais — a adesão é anual, com pagamento parcelado no cartão.
A plataforma que hospeda o clube ranqueou a comunidade entre as mais engajadas que gerencia. Oliveira atribui isso a um sistema de gamificação: membros acumulam pontos por participação e, ao final de cada mês, os mais ativos são premiados com cursos ou produtos físicos. "A comunidade é um ecossistema vivo. As pessoas ficam não porque não conseguem caminhar sem mim, mas porque entendem que aquele espaço é de pertencimento", diz.
O salto de receita e a virada no Instagram
O crescimento mais expressivo veio em 2025. O faturamento saltou de R$ 184 mil para R$ 700 mil — e um fator específico pesou nessa guinada: a decisão de criar conteúdo no Instagram.
Até março de 2025, Oliveira não tinha presença ativa na plataforma. Atuava no TikTok e gerenciava a comunicação da agência, mas a marca pessoal "Jean Oliveira" no Instagram não existia. Em pouco mais de um ano, sem investir em tráfego pago, acumulou 78 mil seguidores — resultado que atribui ao uso de dados para mapear comportamento, consumo e consciência da audiência.
"Eu uso muito base de dados para entender a audiência e assim oferecer um projeto que funcione para eles", diz. "Meu faturamento em 2024 foi de R$ 184 mil. Em 2025, chegamos a R$ 700 mil. Isso aconteceu por conta da criação de conteúdo e da base de dados."
Antes disso, em 2023, a receita total havia sido de R$ 50 mil. A progressão — 50 mil, 184 mil, 700 mil — reflete a diversificação gradual do negócio. Hoje, a operação tem três fontes de receita: infoprodutos e mentoria respondem por 50% do faturamento; a agência, por 40%; e publicidade para marcas, pelos 10% restantes. Já assinou campanhas com Mercado Pago, Adobe, MLabs e TikTok, e apresentou o TikTok Ad Awards, premiação da plataforma para cases de criadores de conteúdo.
A equipe que sustenta essa estrutura tem sete pessoas — editor, atendimento, gestão de projeto e assessoria de publicidade.
Por que o público é majoritariamente feminino
Oliveira observa que 72% do público que o acompanha é composto por mulheres. A leitura que ele faz do dado passa por questões comportamentais e de mercado. "O digital oferece liberdade geográfica, financeira e profissional. Muitas mulheres que trabalham como social media buscam essa autonomia — estão em casa, às vezes com filhos, e enxergaram no digital uma forma de estruturar uma carreira com mais liberdade", analisa.
Há também uma observação de mercado que ele faz com frequência: na divisão informal de funções dentro do marketing digital, a gestão de tráfego tende a ser ocupada por homens, enquanto a criação de conteúdo e a gestão de redes sociais concentra mais mulheres.
A percepção moldou a forma como Oliveira se comunica. "Entendendo que elas estavam me consumindo mais, movimentei minha comunicação para que pudessem se sentir confortáveis. Por exemplo, sempre trago a questão de que o fluxo de processo não funciona igual para todo mundo — e parte disso passa por questões que eu, como homem, não vivo, mas que afetam a rotina criativa delas", explica.
Em agosto, Oliveira realiza no Rio de Janeiro o CRIAX Social Media, evento de dois dias voltado a profissionais da área. A proposta se contrapõe, segundo ele, ao formato predominante nos encontros do setor. "Os grandes eventos estão perdendo força porque falam sobre assuntos que não são pertinentes para quem já está há algum tempo no mercado. Ainda discutem copy e conteúdo, enquanto as pessoas nem sabem como precificar, estruturar uma operação ou construir um fluxo de processo", avalia.
A crítica ao mercado de eventos é parte de uma posição mais ampla que Oliveira sustenta sobre o modelo de educação digital. Para ele, há uma diferença fundamental entre vender um produto e construir uma comunidade — e essa diferença está na autonomia que o aluno ganha. "Se vendo um curso e você precisa voltar para mim para comprar de novo porque não dei mecanismos suficientes para você ser autônomo, não promovi uma metodologia. Aprisionei", diz.
Próximos passos
Para os próximos anos, os planos passam por expandir o clube de assinaturas para mil membros, aumentar a presença como palestrante — com a ideia de "rodar o Brasil" em 2027, seja em eventos próprios ou em convites de terceiros — e consolidar a agência como uma operação que funcione independentemente de sua presença diária.
Em 2026, a projeção é superar R$ 1 milhão em faturamento. O número seria o sêxtuplo do resultado de 2024 e representaria o fechamento simbólico de um ciclo que começou, dez anos atrás, com R$ 50 e um sonho de fazer diferente.
"Não precisa de pressa. Aquilo que vai ser um dia te encontra, se você se preparar para receber", diz Oliveira, ao refletir sobre o que diria ao jovem de 17 anos que vendia bolo de pote. Se fosse resumir a trajetória em uma palavra, escolheria autenticidade. "Ser um homem preto que não tem medo de colocar o dedo na ferida do mercado e construir o que está construindo exige muita autenticidade para não ser derrubado por um sistema que está sempre silenciando a gente", afirma.




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