Após pergunta de aluno, professora larga carreira e transforma ateliê em negócio de R$ 1 milhão

A designer e artista Hannah Bigeleisen descobriu que precisava mudar de vida depois de ouvir uma pergunta simples de um de seus alunos do ensino médio: “Você está seguindo os seus sonhos?”. Hoje, menos de um ano após deixar definitivamente a sala de aula, ela comanda um estúdio de design mobiliário no Brooklyn, em Nova York, e projeta faturar cerca de US$ 200 mil em 2026, o equivalente a quase R$ 1 milhão.
Fundadora de um estúdio especializado em móveis escultóricos e luminárias autorais, o H. Bigeleise, Bigeleisen começou o negócio em 2020, mas durante anos conciliou a produção artística com o trabalho como professora em escolas públicas de Nova York. O salário fixo ajudava a bancar o aluguel do ateliê e os custos da operação enquanto ela construía a própria marca.
Formada pelo Cleveland Institute of Art e com mestrado pela Rhode Island School of Design (RISD), Bigeleisen se mudou para Nova York em 2010 e começou a trabalhar como assistente de artistas renomados. Participou da produção de obras exibidas em eventos importantes do circuito internacional de arte, como a Bienal de Veneza e instalações no Madison Square Park.
Ao mesmo tempo, começou a dar aulas para crianças em uma pré-escola artística. “Queria um trabalho mais estável, que me permitisse continuar produzindo arte e manter um estúdio na cidade”, contou Bigeleisen ao site da revista Entrepreneur.
Ensino como sustento
Depois do mestrado, Bigeleisen ingressou no programa New York City Teaching Fellows, iniciativa que subsidia a formação de professores para atuar em escolas públicas. A decisão também teve um componente financeiro: naquele período, seu marido deixava uma sociedade empresarial para investir em um projeto próprio.
Ela passou a dar aulas de história e inglês em tempo integral para estudantes do ensino médio. Paralelamente, continuava produzindo arte, desenvolvendo novos projetos e mantendo a rotina acadêmica.
Apesar da carga intensa, a artista afirma que o trabalho em sala de aula era gratificante. Foi justamente durante esse período que começou a migrar da arte puramente escultórica para peças funcionais, como móveis e iluminação.
A mudança aconteceu aos poucos e com certa resistência no início.
“Eu achava que funcionalidade comprometia a arte. Depois percebi que, na verdade, ela acrescentava uma nova camada ao trabalho”, disse.
A primeira luminária e a virada de chave
A mudança veio em 2019, quando Bigeleisen criou sua primeira luminária, a Ellsworth Lamp, inspirada no pintor Ellsworth Kelly e em estudos com cimento e materiais agregados.
Ela decidiu participar, quase de última hora, de uma feira durante a Design Week do Brooklyn. Tinha apenas duas semanas para se preparar.
O resultado surpreendeu. Logo após a exposição, recebeu uma ligação da organização do evento avisando que um visitante queria comprar as peças expostas. A venda serviu como validação para o novo caminho profissional. “Pensei: se consegui fazer isso uma vez, consigo repetir”, afirmou.
Mesmo assim, continuou dividida entre o estúdio e as salas de aula. Com cerca de 300 alunos sob sua responsabilidade, o desgaste emocional e físico era grande.
Até que veio a conversa que mudaria tudo.
Durante uma orientação para um estudante prestes a se formar, Bigeleisen incentivou o jovem a perseguir seus sonhos, mesmo sem ter clareza absoluta sobre o futuro. O aluno então devolveu a pergunta:
“Mas você está seguindo os seus sonhos?”
A frase ficou martelando na cabeça dela durante o trajeto de volta para casa.
“Naquele momento, percebi que precisava apostar em mim mesma de verdade”, contou.
Do improviso à gestão profissional
A transição para o empreendedorismo em tempo integral, no entanto, não aconteceu da noite para o dia. Bigeleisen continuou lecionando de forma parcial por alguns anos, inclusive em cursos de design e história da arte.
Enquanto isso, o estúdio crescia.
No início, ela admite que não entendia quase nada sobre gestão. As vendas aconteciam principalmente por Instagram ou pelo site, ainda bastante simples. “Eu via cada venda como um milagre. Não tinha estratégia de marketing, nem estrutura de negócio”, afirmou.
A virada empresarial aconteceu em 2023, quando participou de um curso voltado ao crescimento de pequenos negócios criativos. Foi lá que conheceu Kim Robinson Jr., fundador da consultoria 3pts, especializada em ajudar artistas independentes a transformar trabalhos autorais em operações sustentáveis.
Com apoio da mentoria, Bigeleisen passou a estruturar marketing, listas de e-mail, posicionamento de marca e planejamento comercial.
“‘Negócio’ deixou de ser uma palavra assustadora”, disse.
Faturamento deve quintuplicar em poucos anos
Nos primeiros anos, o estúdio gerava cerca de US$ 40 mil anuais (R$ 199 mil), um valor insuficiente para sustentar a família. Aos poucos, porém, o cenário mudou.
Em 2025, o faturamento bruto chegou a aproximadamente US$ 86 mil (R$ 428 mil). Para 2026, a expectativa é ultrapassar US$ 200 mil (R$ 996 mil), impulsionada por vendas diretas, presença digital, licenciamento de produtos e parcerias com outras marcas.
Hoje, Bigeleisen afirma manter uma média mensal entre US$ 10 mil e US$ 15 mil (R$ 49 e R$ 74 mil) em vendas. Parte do crescimento também veio da construção de uma rede sólida de contatos no mercado criativo. “Você percebe que nem tudo gira em torno de vender. Relacionamentos importam muito”, afirmou.
Ela também destaca a importância de diversificar fontes de receita. Além das peças autorais, passou a licenciar criações para outras empresas produzirem e comercializarem. “Não existe um grande momento de clareza”
Agora, vivendo sem dividir o tempo com a docência, Bigeleisen pretende focar totalmente na criação de novas coleções e experimentações artísticas.
Para quem sonha em transformar paixão em negócio, ela deixa um conselho direto:
“As pessoas acham que existe um grande momento de clareza, mas não existe. Você simplesmente não pode parar. Precisa continuar criando, mesmo trabalhando em paralelo, fazendo freelas ou tendo outros empregos. O importante é não desistir.”
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