A ascensão de Daniela Damasceno, chef do Awasi Santa Catarina
Em uma época em que muitos chefs constroem currículo pulando de endereço em endereço, Daniela Damasceno fez o caminho oposto. Sua história nasceu dentro da própria cozinha do Awasi, ainda nos tempos de estágio, e foi ganhando corpo com o passar dos anos, como acontece com as trajetórias que não precisam de pressa para se firmar. Hoje, a catarinense ocupa o posto de chef executiva de todos os hotéis do grupo Awasi Lodges, em uma fase marcada também pela conquista da Chave Michelin 2025 pelo Awasi Santa Catarina, reconhecimento que amplia o peso da propriedade no mapa da hotelaria de luxo.

Formada pela Univali, Daniela encontrou no antigo Ponta dos Ganchos um terreno fértil para aprender mais do que técnica. O hotel, por décadas tratado como um dos endereços mais emblemáticos do litoral catarinense, sempre teve na paisagem um de seus grandes patrimônios. Ali, entre mar, mata, vento salgado e a rotina dos pequenos produtores da região, a cozinha deixou de ser apenas execução para se transformar em leitura do entorno. Essa percepção, construída desde o início da carreira, acabou virando a espinha dorsal de sua maneira de cozinhar.

A chegada da bandeira Awasi abriu um novo capítulo para a propriedade, agora chamada Awasi Santa Catarina, sem apagar sua memória afetiva como Ponta dos Ganchos. A mudança conectou o hotel a uma rede internacional de experiências de alto padrão, com unidades em destinos como Atacama, Patagônia, Iguazú e Mendoza, mas manteve viva a relação com o território catarinense. No prato, isso aparece em ingredientes que contam a geografia local sem precisar de excesso: ostras, mariscos, pescados frescos, vegetais cultivados nas redondezas e produtos que carregam a identidade do litoral.

Antes de assumir esse papel mais amplo, Daniela viveu uma passagem decisiva pela França, no Les Prés d’Eugénie, restaurante de Michel Guérard, um dos nomes centrais da nouvelle cuisine. A experiência refinou seu olhar para precisão, leveza, sazonalidade e respeito ao produto. Mais do que uma escola de receitas, foi uma imersão em um modo de pensar a cozinha, no qual técnica só faz sentido quando ajuda o ingrediente a aparecer melhor.
De volta ao Brasil, Daniela retomou sua trajetória no Awasi e cresceu junto da operação até assumir a gastronomia da unidade catarinense. Agora, com o comando culinário dos hotéis do grupo, seu desafio é costurar destinos muito diferentes sem transformar tudo em uma cozinha padronizada. A ideia é justamente o contrário: cada hotel precisa revelar o lugar onde está. Em Santa Catarina, isso passa pelo mar e pela cultura pesqueira. No Atacama, pela aridez e pela força dos produtos andinos. Na Patagônia, pela paisagem extrema. Em Mendoza, pela conversa inevitável com o vinho.

“Nossa cozinha busca traduzir o território em cada prato, respeitando o ritmo das estações e a riqueza local. Em Santa Catarina, trabalhamos muito próximos de pequenos produtores, pescadores e maricultores da região, trazendo para a mesa ingredientes que fazem parte da nossa herança cultural, como ostras, mariscos, peixes frescos e vegetais cultivados nas redondezas”, afirma a chef.
Esse olhar também explica por que a gastronomia ganhou um papel cada vez mais importante dentro da hotelaria contemporânea de luxo. Hoje, não basta ter uma cama impecável, arquitetura fotogênica e serviço afinado. O viajante quer reconhecer o destino à mesa, entender o lugar pelo sabor, perceber que há uma história por trás do ingrediente. No Awasi, a cozinha funciona como continuação da paisagem, uma espécie de ponte entre o hóspede e o território.
“Mais do que servir um prato, queremos proporcionar em nosso restaurante uma experiência que conecte o hóspede com o entorno e seus sabores, suas tradições, sua cultura e sua natureza. Cada prato é uma forma de traduzir o lugar onde estamos”, completa Daniela.

A Chave Michelin chega nesse contexto. Diferentemente das estrelas dedicadas aos restaurantes, a distinção observa a experiência hoteleira como um todo, considerando personalidade, serviço, arquitetura, acolhimento e conexão com o destino. No caso do Awasi Santa Catarina, a cozinha de Daniela entra como peça essencial dessa engrenagem. Sua trajetória, iniciada na base da operação e construída sem atalhos, ajuda a contar uma história rara na gastronomia brasileira: a de uma chef que cresceu junto de uma casa, acompanhou sua transformação e agora leva essa visão para alguns dos destinos mais exclusivos da América do Sul.
@awasisantacatarina
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