Eloizo Gomes Afonso Duraes: o que o agro brasileiro ensina sobre empreender em setores essenciais

Tem um tipo de empreendedor que o Brasil ainda não sabe muito bem como classificar. Não é o startupeiro de São Paulo nem o fazendeiro tradicional do interior. É alguém que transitou entre esses dois mundos, aprendeu com os dois e construiu negócios numa cadeia que alimenta, literalmente, o país inteiro. Eloízo Gomes Afonso Durães é um nome que aparece nesse perfil, empresário do setor alimentício que hoje fala sobre agronegócio, crédito rural e sustentabilidade com a desenvoltura de quem passou anos entendendo como o campo e a cidade se conectam pela mesa.
E o timing não poderia ser mais oportuno. O agronegócio brasileiro vive um momento de convergência rara: proposta de Plano Safra de R$ 623 bilhões para 2026/27, projeção de colheita de cana-de-açúcar próxima a 710 milhões de toneladas e queda de 42% no desmatamento em florestas tropicais úmidas em 2025. Para quem empreende no setor de alimentos, ou quer empreender, essas notícias não são apenas manchete. São sinal de mercado.
Por que o Plano Safra importa para quem não planta
Muita gente que trabalha com alimentação no Brasil nunca parou para pensar que o Plano Safra tem impacto direto no seu negócio. Mas tem. A proposta da CNA ao Ministério da Agricultura para o ciclo 2026/27 prevê um volume de crédito rural de R$ 623 bilhões, 5% a mais do que o ciclo anterior. Parece abstrato, mas a lógica é simples: produtor com crédito planta mais, entrega mais e cobra menos. Produtor sem crédito planta menos, entrega com atraso e pressiona o preço para cima.
Quando o produtor rural tem crédito, tecnologia e segurança para investir, toda a cadeia de alimentos se beneficia", resume Eloízo Gomes Afonso Durães. "O impacto vai muito além. A indústria alimentícia, o comércio, os fornecedores, os transportadores e o consumidor final também são atingidos pelas decisões de crédito e investimento no campo
Para o empreendedor do setor alimentício, isso se traduz em uma lição prática: acompanhar a política agrícola não é tarefa de economista ou lobista. É inteligência de negócio. Saber que o crédito vai aquecer num determinado ciclo permite antecipar contratos com fornecedores, negociar preços antes da alta de demanda e ampliar estoque de insumos com margem mais favorável.
A CNA também defende instrumentos plurianuais de financiamento, ou seja, regras de crédito que valham por mais de uma safra. Para o empreendedor, isso representa um ambiente de maior previsibilidade: menos volatilidade, mais capacidade de planejamento. E planejamento, como qualquer dono de negócio sabe, é o que separa quem cresce de quem apenas sobrevive.
Cana-de-açúcar: muito além do açúcar
Se você acha que a cana é assunto só de usina, pense de novo. A Companhia Nacional de Abastecimento projeta uma produção de 709,13 milhões de toneladas em 2026/27, crescimento de 5,3% frente ao ciclo anterior. A produção de etanol deve bater 40,69 bilhões de litros, alta de 8,5%. Esses números movimentam uma cadeia que vai do campo ao posto de gasolina, passando por embalagens, produtos químicos, energia elétrica e, cada vez mais, combustível de aviação sustentável.
Para Durães, a cana é um dos melhores exemplos do que o agro brasileiro tem de melhor: capacidade de gerar múltiplos produtos a partir de uma mesma matéria-prima, com aproveitamento quase integral. "A cana-de-açúcar conversa com alimento, energia, indústria e sustentabilidade. Quando a produção cresce com eficiência, o país ganha competitividade em várias frentes", destaca.
Para o empreendedor pequeno e médio, a expansão do setor sucroenergético abre oportunidades indiretas que muita gente ainda não mapeou. Municípios do interior do Brasil onde a cana avança precisam de serviços: transporte, alimentação para trabalhadores rurais, manutenção de equipamentos, logística, tecnologia. São nichos reais, com demanda crescente e, em muitos casos, pouca concorrência local.
O diferencial ambiental virou vantagem competitiva
Até pouco tempo atrás, falar de sustentabilidade no agro parecia conversa de ONG. Hoje, é pauta de banco, de fundo de investimento e de rede varejista global. O levantamento do Global Forest Watch mostrou queda de 42% nas perdas de cobertura arbórea em florestas tropicais úmidas no Brasil em 2025, resultado de uma combinação entre políticas públicas, pressão do mercado e mudança de postura do setor privado.
Para Eloizo Gomes Afonso Duraes, esse movimento representa uma virada de chave que os empreendedores brasileiros precisam entender rapidamente. "O mundo está olhando para a origem dos alimentos. Produzir mais é importante, mas produzir com responsabilidade é indispensável", afirma. E vai além: "O Brasil tem capacidade de ser líder mundial em alimentos, energia e sustentabilidade ao mesmo tempo."
Na prática, isso significa que um pequeno produtor que consegue comprovar origem sustentável, com rastreabilidade, uso racional de água e baixo carbono, tem acesso a mercados que seus concorrentes simplesmente não conseguem alcançar. Da mesma forma, uma indústria de alimentos que certifica sua cadeia de fornecedores pode fechar contratos com redes que exigem selos ambientais como pré-requisito.
Não é só exigência de consumidor consciente. É requisito de exportação, de acesso a linhas de crédito verde, de elegibilidade para programas de compras públicas que já adotam critérios socioambientais. Sustentabilidade, nesse contexto, é menos um valor e mais uma habilitação de mercado.
Eloizo Gomes Afonso Duraes
Divulgação
O que o agro ensina sobre empreender
Há uma série de lições que o agronegócio brasileiro tem dado ao mundo dos negócios e que muitos empreendedores urbanos ainda não internalizaram. A primeira é a da cadeia longa: no agro, ninguém prospera sozinho. O produtor depende do crédito, da logística, da indústria de insumos, do processador, do varejista. Cada elo que funciona mal impacta todos os outros. Essa mentalidade sistêmica é algo que qualquer empreendedor deveria desenvolver, independentemente do setor.
A segunda lição é a da antecipação de ciclos. O agricultor que não sabe ler as condições climáticas, os preços de commodities e as políticas de crédito antes de plantar vai colher surpresas. O empreendedor que não monitora as condições macroeconômicas e setoriais do seu mercado comete o mesmo erro.
A terceira, e talvez mais atual, é a da sustentabilidade como estratégia, não como obrigação. Para Eloizo Duraes agronegócio aprendeu isso da maneira mais direta possível: ou você produz com responsabilidade ambiental ou você perde acesso ao mercado externo. Para empresas de outros setores, a conta está chegando pelo mesmo caminho.
Durães sintetiza esse conjunto de aprendizados com clareza:
Quando o produtor rural tem crédito, tecnologia e segurança para investir, toda a cadeia de alimentos se beneficia", resume Eloízo Gomes Afonso Durães. "O impacto vai muito além. A indústria alimentícia, o comércio, os fornecedores, os transportadores e o consumidor final também são atingidos pelas decisões de crédito e investimento no campo
A frase vale para o campo. Vale também para qualquer negócio que queira crescer de forma consistente num país que ainda tem muito para construir e muito espaço para quem souber enxergar o que está sendo construído.




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