Cerrado à mesa, com som, dança e memória
No dia 16 de maio, Brasília ganha um encontro que olha para dentro do próprio território com curiosidade e respeito. A primeira edição do Festival de Gastronomia e Cultura Cerratense ocupa a Casa Baco, no Casapark, das 14h às 22h, com uma programação que costura cozinha, música, dança e encontros em torno de um dos biomas mais ricos e, ainda assim, menos explorados do país. A entrada é franca e o convite é amplo, daqueles que funcionam tanto para quem chega por acaso quanto para quem já vem com fome de entender melhor o que o Cerrado tem a dizer.
Idealizado pela produtora cultural Tati dos Anjos em parceria com o chef Gil Guimarães, o festival nasce com um propósito que vai além do evento em si. A ideia é trazer para o centro da conversa ingredientes como pequi, baru, araticum, cagaita e cajuzinho, aproximando o público de uma cultura que muitas vezes passa despercebida até mesmo para quem vive no Distrito Federal. É uma tentativa de traduzir o Cerrado em experiência sensorial, mas também em consciência. “É um trabalho feito com carinho, quase como uma missão de vida”, resume Gil, ao falar da importância de valorizar produtores, comunidades e saberes locais em um cenário cada vez mais homogêneo.
Esse olhar também atravessa o discurso de Tati, que recorre ao conceito de “cerratense”, cunhado pelo historiador Paulo Bertran, para explicar a essência do projeto. Mais do que um recorte geográfico, o termo carrega uma identidade cultural que se manifesta na comida, na música e nas práticas cotidianas, mas que também traz consigo uma preocupação com o futuro ambiental do bioma. O festival, nesse sentido, funciona como vitrine e plataforma, reunindo produtores ligados à Cooperativa Central do Cerrado e reforçando a ideia de que preservar também passa por consumir de forma consciente.

Na cozinha, o ponto alto do dia promete ser a aula show conduzida por Gil ao lado dos chefs Léo Hamu e Júlia Almeida, que apresentam ao público a tradicional tachada goiana. O prato, que mistura influências indígenas, africanas e europeias, aparece como síntese de uma história construída em camadas, da roça à mesa urbana. A proposta não é apenas ensinar a receita, mas abrir espaço para que o público acompanhe o preparo, entenda o contexto e, claro, prove.
Enquanto isso, a Casa Baco entra no jogo com um menu especial criado para o festival, em que o Cerrado surge reinterpretado em chave contemporânea. Entre as entradas, o bolinho capiau combina canjiquinha cremosa com linguiça caipira, preparando o terreno para pratos como a macarronada de pequi com frango na brasa e pimenta de macaco, ou o ravioli ao creme de limão cravo com cajuzinho e baru. Para fechar, a pamonha brûlée aparece como um aceno delicado entre tradição e técnica, com milho cremoso protegido por uma crosta caramelizada que estala na colher.
A programação cultural acompanha esse mesmo espírito de mistura e pertencimento. O grupo Divino Pai Eterno conduz uma oficina e apresentação de catira, aproximando o público de uma manifestação típica do interior, enquanto a artista Nãnan propõe uma vivência em ritmos e danças do oeste africano, lembrando que a formação cultural brasileira também pulsa em outras geografias. Ao longo da noite, a música segue com shows, DJ e apresentações que ajudam a transformar o espaço em um ponto de encontro mais orgânico do que programado.
Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e com apoio do Senac DF e do Casapark, o festival estreia já com a intenção de se firmar no calendário. Não como um evento isolado, mas como um gesto contínuo de valorização de um território que ainda guarda muito a ser descoberto. Entre uma garfada e outra, o que se constrói ali é mais do que uma experiência gastronômica. É uma narrativa coletiva, contada por quem planta, cozinha, dança e mantém viva a identidade do Cerrado.
Festival Cerratense
Data: 16 de maio
Horário: das 14h às 22h
Local: Casa Baco no Casapark
Entrada gratuita
@festival_cerratense
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