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Belo Horizonte,02/05/2026

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Lais Myrrha: a artista que explora (e tensiona) o modernismo em obras de escala monumental

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Lais Myrrha: a artista que explora (e tensiona) o modernismo em obras de escala monumental


“Todas as minhas obras trazem uma pergunta, um questionamento”, afirma Lais Myrrha diante de sua mais recente criação no Instituto Inhotim. Contraplano, uma escultura de escala monumental que faz referência ao edifício projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, emoldura a paisagem privilegiada do maior museu à céu aberto do mundo, com mais de 140 hectares e 1.800 obras de arte.
Ao ser provocada sobre qual pergunta conduz a obra, a artista devolve: “Qual você acha?”. Com brises horizontais, linhas sinuosas e vistas para a Serra da Moeda, Contraplano articula referências do modernismo brasileiro enquanto tensiona suas contradições. A estrutura de concreto, ao mesmo tempo em que constrói, sugere crítica — ao acúmulo, à extração e à invasividade. Entre a paisagem montanhosa e as marcas visíveis da mineração, o desenho da obra também remete a uma cava, ampliando o campo de leitura entre forma, território e impacto.
A obra "Contraplano faz referência ao Edifício Niemeyer, localizado na Praça da Liberdade, em Belo Horiznte
Ícaro Moreno
“Não existe uma resposta única. Eu fiz perguntas enquanto artista: sobre o espaço, o museu, a instituição, a implantação da obra, a história do lugar. Ela é uma crítica, mas também uma homenagem. Mas não cabe a mim definir a pergunta para o público”, continua. “Porém, penso que hoje temos conhecimento suficiente para pensar em outras formas de existir, de negociar com os recursos da terra sem sermos tão invasivos”, ressalta.
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A obra nasceu após cerca de sete anos de trabalho: Lais Myrrha foi convidada pelo próprio Bernardo Paz, idealizador do Inhotim, para criá-la. “Quando fui convidada, tive uma conversa marcante com a Júlia [Rebouças, atual diretora artística do Instituto Inhotim] e o Bernardo. Ele disse algo como: faça o que você imaginar, onde você sonhar. Eu acreditei nisso”, conta.
Devolver a terra à terra
Além das reflexões que suscita, Contraplano foi concebida especificamente para o instituto. “Percorrendo o Inhotim, percebi que havia poucas obras a partir das quais se vê o horizonte — isso virou uma premissa”, afirma Lais Myrrha. Criar um espaço de permanência também orientou o projeto: com uma estrutura sombreada e acolhedora, a obra convida o público a habitá-la livremente — seja para um piquenique, uma conversa ou simplesmente para contemplar a paisagem.
O edifício se integra à paisagem, tendo vista privilegiada da Serra da Moeda
Ícaro Moreno
Nascida em 1974, antes da popularização da internet, Lais Myrrha destaca a forte influência de artistas brasileiros em sua formação, mais do que referências internacionais — algo que atravessa sua produção. Entre elas, os neoconcretistas, como Hélio Oiticica (1937-1980), aparecem como fundamentais, sobretudo na ênfase à participação ativa do espectador na obra. Tunga (1952-2016), Cildo Meireles e Waltercio Caldas são outras referências citadas pela artista.
“Essa tradição da arte brasileira dos anos 50 e 60, ligada à utopia entre arte e vida, sempre me interessou. Muitas vezes o museu separa a experiência do corpo do deleite da obra. Mas esse deleite corporal é central. Meus trabalhos são para o corpo, não representam o corpo”.
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Natural de Belo Horizonte, Lais Myrrha incorpora à sua obra referências diretas do território onde se formou. Para além do diálogo com o modernismo — em especial com Oscar Niemeyer, cuja presença, segundo ela, “sempre esteve ali, mesmo antes de eu ter consciência disso” —, a artista valoriza o Cerrado como elemento estrutural de sua pesquisa. Em Contraplano, por exemplo, espécies desse bioma circundarão toda a obra. “Esse paisagismo será desenvolvido em conjunto com a equipe botânica. É um processo mais lento, porque o tempo da natureza é diferente do tempo da construção”, afirma.
Entre arte e arquitetura
Lais Myrrha, Política de varanda, 2024
Roberto Ruiz
Trabalhar em grande escala não é novidade para Lais Myrrha. Em 2024, a artista participou da exposição Rituales de lo cotidiano, no Collegium, Espanha, com a obra Política de varanda, na qual sobrepõe o padrão modernista do Palácio do Itamaraty aos arcos da Iglesia de San Martín, sede da instituição. Alguns anos antes, em 2021, ocupou o Octógono da Pinacoteca de São Paulo com O condensador de futuros, uma grande estrutura côncava instalada a 1,30 m do chão, que se oferece a múltiplas leituras — abrigo, armadilha, nave ou fundo infinito. A obra faz referência à cúpula do Senado Federal, ampliando o diálogo com a arquitetura.
Lais Myrrha, O condensador de futuros, 2024
Isabella Matheus
Ambas as obras fazem parte de um eixo do trabalho de Myrrha chamado Estudos de casos, que destaca elementos da arquitetura e do modernismo em obras que ocupam (e transformam) o espaço onde estão inseridas. “A arquitetura foi aparecendo aos poucos no meu trabalho. Não por interesse técnico, mas pelo meu interesse em como as imagens participam da construção do poder. Como o poder se constitui? Através de representações. No meu caso, meu interesse maior recai sobre Niemeyer: como ele se tornou esse ícone do modernismo brasileiro? Minha hipótese é que há aspectos internos aos projetos dele que permitiram isso”, explica.
A artista ainda trabalha com outros três polos: Atlas reúne trabalhos em que a artista intervém em mapas, instrumentos e publicações para tornar visíveis — e questionar — os sistemas de representação e seus parâmetros. Em Zona de instabilidade, as obras exploram a precariedade do equilíbrio e da permanência. Já em Crônicas, a artista cria comentários visuais e textuais sobre o cotidiano, a partir de seus deslocamentos e da observação dos noticiários.
"Contraplano" reflete sobre os impactos da construção moderna
Ícaro Moreno
Assim, ao articular arte, arquitetura e paisagem, Lais Myrrha consolida em Contraplano uma prática que não oferece respostas, mas amplia o campo das perguntas. Entre permanência e transformação, corpo e território, seu trabalho reafirma seu interesse em tensionar estruturas — físicas e simbólicas — e em convidar o público a ocupar, pensar e sentir o espaço de forma ativa.




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