Inspirado pelas dificuldades do filho na escola, ele criou um negócio de ‘ginástica para o cérebro’ que fatura R$ 187 milhões

Quando Antônio Carlos Guarini Perpétuo, 66 anos, notou que o filho apresentava dificuldades de concentração na escola, a busca por soluções para ajudar no desempenho escolar do jovem trouxe para um insight para um novo negócio. A partir dos resultados observados pelo uso de um instrumento milenar de cálculo, ele reuniu pedagogos e neurocientistas para desenvolver uma metodologia própria, que deu origem à Supera, rede de escolas com aulas de "ginástica para o cérebro". Hoje, o negócio soma 250 unidades no Brasil e um faturamento anual de R$ 187 milhões.
Interessado por empreendedorismo desde a juventude, Perpétuo já acumulava experiências à frente de diferentes negócios quando decidiu criar o Supera. Formado em engenharia aeronáutica pelo TA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), ele não se imaginava seguindo uma carreira tradicional na área. Ainda na graduação, vendeu batatinhas na frente da faculdade para complementar a renda e, depois, investiu em segmentos variados, de calçados a foguetes agrícolas.
Mesmo contente com os negócios que comandava, Perpétuo ainda buscava inspiração para algo inovador e que fosse além da orientação pelo lucro. "Sempre gostei de empreender, mas buscava um sentido maior, de ajudar as pessoas”, diz. A ideia para a criação de uma empresa que lhe trouxesse mais propósito surgiu em 2006.
“Quando veio a dificuldade de aprendizagem do meu filho, tentei todas as táticas mais tradicionais, mas nada estava resolvendo. Então, eu comecei a pesquisar o que poderia ajudá-lo, conheci mais da cultura japonesa e encontrei o ábaco”, conta Perpétuo.
O ábaco é um instrumento milenar de cálculo, com origem atribuída à Mesopotâmia há mais de 5,5 mil anos. Estruturado com hastes e contas móveis, ele é utilizado para realizar operações aritméticas (adição, subtração, multiplicação, divisão) e auxiliar no desenvolvimento de raciocínio lógico, concentração e coordenação motora.
Com a melhora no desempenho do filho a partir do uso do ábaco, o empreendedor reuniu pedagogos e neurocientistas para desenvolver uma metodologia exclusiva. A proposta integra ferramentas como ábaco, exercícios cognitivos, jogos, dinâmicas em grupo, atividades neuróbicas e plataforma digital, com base em conceitos como neuroplasticidade e múltiplas inteligências.
Para a estruturação do negócio e a inauguração da primeira unidade, Perpétuo buscou um sócio investidor, que aportou cerca de R$ 40 mil por mês durante o primeiro ano de operação. A primeira filial foi inaugurada em São José dos Campos (SP). Para atrair alunos, o empreendedor apostou na oferta de bolsas de estudo.
“Mesmo naquela época já caminhávamos para uma vida mais digital e o negócio ia em um sentido contrário a isso, então tínhamos que pensar em como atrair os primeiros clientes. Começamos oferecendo bolsas para movimentar o espaço, mostrar que funcionava para, depois, atrair alunos pagantes”, aponta.
Criado já com o objetivo de escalar com franquias, o negócio atraiu interessados no modelo já ao final do primeiro ano de operação, o que levou à comercialização das primeiras unidades franqueadas em 2007.
Apesar do início focado em alunos em idade escolar, o perfil de interessados começou a se ampliar organicamente nos anos seguintes. Com a proposta de estimular diferentes habilidades cognitivas e socioemocionais em alunos a partir dos cinco anos, mas sem limite máximo de idade, a escola começou a atrair pessoas idosas. Hoje, o público acima dos 60 anos corresponde a 78% do total da base de matriculados nas unidades Supera.
Segundo o fundador, a maior parte dos interessados são ativos e sem comprometimento cognitivo ou demência. “Além de a população idosa estar crescendo, vivemos uma época em que a cultura da prevenção está muito forte, então foi um caminho que foi acontecendo de forma espontânea”, diz.
De acordo com Perpétuo, o método estimula o cérebro de forma integrada, o que leva a reflexos positivos nas funções executivas, como planejamento, tomada de decisão e resolução de problemas. Na prática, ele afirma que esses ganhos contribuem para mais qualidade de vida, maior autonomia e estímulo contínuo às funções cognitivas, fatores associados à promoção da longevidade ativa e à prevenção de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e outras demências.
Credibilidade para crescer
Mesmo com a expansão da rede, o empreendedor afirma que ainda via uma lacuna: a falta de comprovação científica da proposta. Por isso, há cerca de oito anos, a empresa passou a investir em um estudo científico. No processo, Perpétuo afirma que foram aportados cerca de R$ 3 milhões.
O resultado da pesquisa saiu no final do ano passado em um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Gerontologia e do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). O ensaio clínico randomizado e controlado acompanhou 207 idosos saudáveis.
Os resultados indicaram que o método promoveu um ganho de 45% em memória após 12 meses, melhora de 11% nas funções executivas e avanço de cerca de 10% na cognição geral ao final de 18 meses. O estudo também apontou redução de 29% nos sintomas depressivos, aumento de 7% na qualidade de vida e diminuição no tempo de execução de tarefas. A pesquisa foi publicada na revista científica International Psychogeriatrics.
“Mesmo que a gente já acreditasse no nosso método, o estudo científico torna muito mais fácil a divulgação e comunicação com os clientes, além de ser uma proteção que agrega valor à marca”, indica Perpétuo.
Hoje, o curso ofertado pelo Supera tem duração prevista de 18 meses, com aulas uma vez por semana, mas os alunos podem continuar na escola após a conclusão do ciclo inicial. A média das mensalidades é de R$ 400. Ao longo da trajetória do negócio, cerca de 280 mil alunos já foram atendidos.
Como resultado da divulgação do estudo científico, a expectativa é de crescimento para os próximos anos. Para 2026, o empreendedor projeta chegar a 310 unidades. O objetivo é continuar expandindo a nível nacional em cidades acima de 80 mil habitantes. Neste ano, a meta é alcançar um aumento de 35% no faturamento da rede, chegando a R$ 252 milhões neste ano, contra R$ 187 milhões em 2025.
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