‘Quando as máscaras caem, nasce o verdadeiro encontro’
Quem é você de verdade? Qual a sua essência? Perguntas difíceis, concordam? Num mundo em que vestimos máscaras sociais, criamos personagens e, no final, acabamos perdidos, há caminhos e formas de encontrar autenticidade. Uma delas é a literatura.
Foi esse o objetivo da especialista em desenvolvimento humano e meditação, criadora do projeto Gente de Verdade, escritora e colunista da Vida Simples, Jacqueline Pereira, ao lançar o livro “A coragem de ser gente de verdade: Um caminho para uma vida sem máscaras” (Cultrix).
De forma prática e longe da “autoajuda barata”, a autora compartilha seu próprio despertar e ensina o passo a passo para se libertar do medo do julgamento alheio por meio do Método Gente de Verdade. A obra é uma jornada de autoconhecimento que ajuda a trocar a necessidade de aprovação pela liberdade de ser autêntico.
Em entrevista à Vida Simples, Jacqueline contou detalhes da sua vida e de um livro que foi germinado muito antes de passar pela tinta da caneta e pelas máquinas da gráfica. Confira:
Borboleta ou lagarta?
Não foi “do nada” que a autora mergulhou na consciência espiritual – estado em que buscamos responder quem somos, qual nossa verdade interior e o que viemos fazer no planeta – e construiu uma carreira com foco em saúde mental e autoconhecimento. Houve um ponto de virada em sua vida.
Jacqueline tinha uma trajetória sólida na odontologia, com clínica própria e equipe formada. Mesmo assim, descreve esse período como uma “tentativa de corresponder expectativas externas, e não um desejo genuíno”.
“Em vez de virar borboleta, ficava apenas como lagarta.”
Apesar da imagem de sucesso, o desconforto interno se intensificava. A ruptura começou a se desenhar quando essa “performance” deixou de se sustentar emocionalmente, culminando no que ela define como colapso.
“Eu entrava na clínica e tinha um colapso físico, como se fosse um pânico. Algo alarmava. Eu saía pelas escadinhas e aquilo passava. Bastava entrar de novo para o colapso recomeçar”, relata. Para ela, o corpo funcionou como um sinal de alerta. Diante da situação, a autora destaca:
“Todas as crises nos levam a alguma mensagem. Só que, quando você não extrai a mensagem, a crise é só dor. Quando você extrai, a crise é caminho.”
A mudança de rumo ganhou ainda mais força a partir de um sonho. “Foi muito revelador. Esse sonho falava que não era mais para eu ficar ali, que eu tinha que vender meu consultório, a clínica e, com o dinheiro, tinha que montar uma casa que se chamaria ‘Gente de Verdade’”, conta Jacqueline, emocionada.
“Era pra ser uma casa, um receptáculo de pessoas. Gente precisa de gente para ser gente. Então, por meio de acolhimento, de escuta transformativa, a gente ia dar lugar para as dores das pessoas. Um pronto atendimento de alma.”
Mas, claro, esse processo não foi solitário. A escritora enfatiza que “gente nasce de gente.” “A gente é cuidado por gente para sobreviver. Depois, a gente brinca e aprende com gente: nossos professores, nossos amigos. Depois, a gente namora, a gente se reproduz através de gente, de conexão, de encontros”, afirma.
“Todos os saltos quânticos que eu fiz foram através de pessoas que acreditaram em mim.”
O Método Gente de Verdade

Jacqueline abriu as páginas da vida e do novo livro para a reportagem da Vida Simples
Com o passar dos anos, ela percebeu que os temas das palestras que realizava toda segunda-feira na casa Gente de Verdade não eram aleatórios, mas compunham um método de reconexão com a essência. A autora, então, sentiu a necessidade de organizar esse material, que antes não tinha uma sequência clara e lógica.
Sua relação com a consciência espiritual ajudou na criação do Método Gente de Verdade, fio condutor do livro, que tem como proposta mostrar ao público como a vida pode ser mais completa ao tirar as máscaras sociais para se reconectar com a própria essência. Como vimos anteriormente, no caso de Jacqueline ela precisou desconstruir a “persona” bem-sucedida na odontologia para encontrar sua verdade interna.
Abaixo, a escritora explica os cinco passos do Método Gente de Verdade:
Despertar: “Algo não está bom. Eu não estou funcionando, estou sofrendo. Ali eu começo o meu autodiagnóstico. O sofrimento é proporcional à distância que eu estou de mim. O primeiro ponto é a minha narrativa, a história que eu conto de mim mesmo para mim. E que, muitas vezes, tem uma mentira que eu acreditei: que eu sou vítima de alguma coisa, que alguma coisa da vida não foi justa comigo, que sou injustiçado.”
Autoconsciência: “Feito esse despertar, começa um trabalho de autoconsciência: quais as necessidades minhas não foram supridas para eu precisar criar esse personagem? No meu caso, eu percebi que colocava as minhas máscaras: a máscara da pessoa agregadora, às vezes da controladora… No caso, era muito performático por necessidade. Nunca é por maldade. Foi por necessidade que eu criei essa persona. Sem consciência nenhuma.”
Desconstrução: “A desconstrução é o desapego do personagem. No entanto, tem o medo do que eu realmente sou. É um túnel. E quando eu entrei nesse túnel, eu pensei: ‘Nossa Senhora, meu Deus, que frio, que sede, que fome, que escuro! Parece que eu estou banguela, sem roupa…’ É uma desconstrução. Então, é uma transmutação de vazio neurótico para vazio cocriador.”
Reconexão: “A reconexão vem com autoaceitação. Essa autoaceitação é uma sincronicidade com tudo que o universo te ofereceu. Não tem pai errado, não tem mãe errada, não tem irmão errado. Estava tudo ao meu favor, mesmo quando eu não entendia nada… Quando a gente trabalha essa autoaceitação, a gente sobe a nossa frequência, em hertz mesmo… Enquanto eu não me aceito, eu vivo em culpa, vergonha, arrependimento… Você sai da culpa e entra no merecimento.”
Potência: “Da essência vem minha potência. Ou seja, da minha verdade eu preciso quebrar a casca, como se fosse uma semente de laranjeira. A laranjeira não come a laranja, ela oferece… O sol não brilha para ele, brilha para nós. Então, assim, o tempo inteiro é como eu me ofereço. Quando eu chego nesse ponto de me oferecer genuinamente, eu sinto a completude. Como é que eu, como adulta, crio condições para que tudo isso possa frutificar? Quais são as condições de um adulto? O que ele precisa? Ele precisa encontrar seu dom, se capacitar e encontrar pessoas que o ajudem nesse processo.”

Capa do livro ‘A coragem de ser gente de verdade’
‘Quem eu sou quando as cortinas se fecham?’
A busca por autenticidade também passa, inevitavelmente, por encarar o vazio. Jacqueline relembra que esse foi um dos momentos mais decisivos de sua trajetória.
“Quem sou eu quando o outro me abandona? Quem sou eu quando as cortinas se fecham? Quem sou eu sem o outro? Eu não tinha resposta. Esse foi o meu primeiro vazio. E ali eu falei: ‘Gente, como é que uma pessoa pode viver com uma lacuna tão profunda, sabe?’ Sem um senso de identidade mesmo.”
Esse sentimento, de acordo com a autora, não é isolado. É também um reflexo do nosso tempo. Para ela, estamos na era da exposição: nunca vimos tanto a vida das outras pessoas. No entanto, o problema é que, nas redes sociais, quase sempre vemos apenas uma versão editada da realidade: conquistas, momentos felizes e aparências de sucesso.
“Assim, passamos a comparar os bastidores da nossa vida com o palco dos outros, o que intensifica o sentimento de inadequação. Para não se sentir menor, muitas pessoas criam personagens para parecerem melhores do que realmente estão. O preço disso é a perda de autenticidade e, muitas vezes, da paz interior”, destaca.
Jacqueline ainda aponta outra contradição contemporânea. Ela afirma que a tecnologia ampliou nossa capacidade de comunicação, mas não necessariamente nossa capacidade de vínculo. “Podemos falar com muitas pessoas ao longo do dia, mas sem presença, profundidade e troca verdadeira. Por isso, cresce um paradoxo do nosso tempo: estamos cada vez mais conectados, porém cada vez mais solitários”, explica.
“Retomar o bem viver em comunidade passa por recuperar algo essencialmente humano: presença real, escuta, convivência e relações menos performáticas. Quando as máscaras caem e as pessoas podem ser quem são, nasce o verdadeiro encontro. É aí que o sentimento de pertencimento reaparece.”
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