Como esta aldeia propõe novas formas de habitar a floresta

Às margens do rio Gregório, no Acre, a grandiosidade da Floresta Amazônica convive em perfeita harmonia com uma criação igualmente monumental erguida pelas mãos humanas. A Aldeia Sagrada Yawanawá desponta em meio à vegetação sem confrontá-la, mas integrando-se a ela com respeito aos fluxos naturais e à sabedoria ancestral da floresta. Assinado por Marcelo Rosenbaum, o projeto nasceu após mais de 14 anos de troca e parceria entre o arquiteto e o cacique Nixiwaka Biraci Brasil Yawanawá.
O Centro Cerimonial Shuhu sediou a 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca
Leonardo Finotti
“Conheço o Marcelo há cerca de 17 anos e nós sonhávamos muito. Com a ideia de sediar a 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca, convidei o Marcelo para pensarmos em uma estrutura. Então, restabelecemos essa aliança e conseguimos fazer um trabalho muito bonito”, conta o cacique Nixiwaka sobre o surgimento da Aldeia Sagrada Yawanawá.
A Casa Modelo é composta por por pilares, vigas e treliças em madeira
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Realizada em janeiro de 2025, a conferência aconteceu no Centro Cerimonial Shuhu, marcado por um vão livre de 33 metros concebido para acolher rituais, encontros e grandes celebrações. O evento também marcou a inauguração oficial de todo o conjunto, que inclui ainda a Casa Modelo. Com planta integrada, pátio central e ventilação cruzada, a construção valoriza o clima local, estimula a convivência coletiva e foi pensada como protótipo replicável para as famílias da aldeia.
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A Universidade dos Saberes Ancestrais, em formato de "Y"
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O trio se completa com a Universidade dos Saberes Ancestrais, principal edifício do complexo, com cerca de 1.265 m². O espaço reúne cozinha industrial, refeitório, área para redes, salas de aula e amplas áreas de convivência, distribuídos em três blocos organizados em formato de “Y” — sugestão do cacique Nixiwaka Yawanawá —, símbolo da convergência entre diferentes caminhos do conhecimento.
A Universidade dos Saberes conta com cerca de 1.265 m²
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O conjunto foi construído com madeira nativa manejada e beneficiada no próprio território — como Copaíba, Angelim-pedra e Maçaranduba, entre outras espécies. Além disso, a arquitetura implantada foi concebida para respeitar e valorizar as tecnologias e os saberes da floresta: o conhecimento sobre o comportamento das madeiras e os ciclos das águas determinou o ritmo da obra. “Foi extremamente desafiador. Entre projeto e construção, tudo aconteceu em cerca de nove meses. É muito pouco tempo para uma obra dessa escala e complexidade. Mas algo muito bonito aconteceu: mostrou que os povos indígenas e os povos da floresta não têm limites para o que podem realizar”, ressalta Marcelo Rosenbaum.
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Mais detalhes dos interiores da Casa Modelo
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O projeto nasceu com o intuito de restabelecer a autonomia cultural e territorial do povo Yawanawá, sendo erguido a partir da união entre o conhecimento técnico da ITA Engenharia e a sabedoria empírica de construtores indígenas e ribeirinhos. “A obra foi construída 100% por eles, com nosso acompanhamento técnico. Quem executou foram os próprios indígenas e ribeirinhos, detentores dos conhecimentos tradicionais da construção amazônica”, comenta Rosenbaum.
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Detalhe do Centro Cerimonial Shuhu, formado por um vão livre, sem pilares
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Mais do que um conjunto arquitetônico, a Aldeia Sagrada Yawanawá aponta para novos caminhos de como construir e habitar a floresta. “É uma referência de possibilidades: mostrar que nós, povos indígenas, podemos viver com dignidade dentro da nossa floresta. Somos guardiões da maior floresta tropical do planeta e, ainda assim, usufruímos muito pouco daquilo que protegemos. Foi assim que iniciamos a construção da Aldeia Sagrada, que hoje se tornou uma referência no mundo. Nossas estruturas e nossas casas reúnem alta tecnologia aliada à tecnologia ancestral, seguindo esse caminho do meio. Essa parceria entre ciência, arquitetura e saberes tradicionais resultou em algo muito bonito”, revela o cacique Nixiwaka.





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