Design Now: confira os destaques apresentados no novo setor da SP-Arte

Na 22ª edição da SP-Arte, realizada entre os dias 8 e 12 de abril, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, uma das novidades foi um setor Design Now, dedicado aos estúdios que fazem parte da cena independente do desenho de mobiliários e objetos. Com dez participantes, nove deles estreantes na feira, a iniciativa teve a curadoria de Livia Debbane e Patricia Dranoff e concentrou-se em criativos com produção em pequena escala e trajetórias consolidadas de ao menos uma década.
De acordo com Livia, o local também engloba uma atmosfera de celebração. “O Design Now é uma comemoração dos dez anos, das dez edições de design na SP-Arte. E a gente focou em criadores com trajetórias bem estabelecidas e pesquisas muito aprofundadas naquilo que eles se propõem”, explica a organizadora.
Para a fundadora e diretora-executiva da feira, Fernanda Feitosa, a SP-Arte sempre foi, além de uma vitrine para os artistas de todas as gerações, um celeiro de talentos. “Neste sentido, é importante para nós abrirmos espaço para artistas autorais e independentes. No caso do Design NOW, eles representam o zeitgeist do momento. As curadoras selecionaram esses nomes, seja pelo ineditismo do material trabalhado, seja pela técnica, que teve uma ótima recepção do público e dos participantes — como uma oportunidade de troca e expansão do trabalho”, pontua.
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No terceiro andar do edifício projetado por Oscar Niemeyer (1907 - 2012), cada participante ocupou parte do espaço desenhado pelo escritório Superlimão e produzido pela Minimal. Confira os destaques apresentados pelos integrantes da iniciativa.
1 - Estante Castanhão - Érico Gondim
A estante foi elaborada em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará
Divulgação
O móvel faz parte de uma linha de quatro peças que inclui aparador, mesa e banquinho orientados pela regeneração de matérias e narrativas a partir do design, articulando sustentabilidade, inovação e memória industrial. Desenvolvido pelo Studio Érico Gondim, o projeto desdobra a pesquisa do RegeneraLab, realizada em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), em 2025, que resultou em 15 produtos.
A investigação explora o reaproveitamento de resíduos e subprodutos do saneamento como matéria-prima para criações autorais. Na SP–Arte, a coleção evidenciou esse processo ao transformar descartes em peças de design contemporâneo, aliando rigor técnico, responsabilidade ambiental e potência estética, e propondo uma reflexão sobre economia circular e futuros regenerativos.
2 - Escrivaninha Master - Vinicius Siega
O móvel é uma peça única do designer do Sul do Brasil
Guilherme Jordani
A série apresentada na SP-Arte 2026 nasceu do encontro com um lote limitado e certificado de jacarandá-caviúna maciço, uma madeira nobre, escassa e hoje praticamente inacessível, que carrega na matéria a densidade do tempo e a persistência da memória.
No caso da escrivaninha, especificamente, remete aos mestres que modernizaram o mobiliário brasileiro, assumindo a continuidade dessa história. O desenho irregular do tampo posiciona o móvel no centro do espaço, exigindo um olhar em 360° e transformando sua construção em elemento de contemplação.
3 - Instalação Dobra-Tempo - Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e Atelier Atlas
O projeto incentiva a interação devido às diversas atividades
Rodrigo Fonseca
Partindo do questionamento sobre o papel do design no incentivo à criatividade e ao acaso em um contexto social marcado pela velocidade e pelo utilitarismo, Andreas Anwander, Alexandre Kissajikian e o Atelier Atlas desenvolveram Dobra-Tempo, instalação concebida para a SP-Arte 2026.
Inspirado por obras como o Habitáculo, de Bruno Munari, projetado em 1971, e pela filosofia de Bertrand Russell em Elogio ao Ócio (1935), o projeto propõe incentivar atividades manuais e uma relação não utilitária entre corpo e objeto, característica da infância frequentemente perdida na vida adulta.
4 - Luminárias da série Densa - Mel Kawahara
Luminárias pendentes da coleção
Beatriz de Oliveira Lelis
A designer pesquisa há anos como usar o Tyvek (um material leve, parecido com papel e tecido) para fazer luminárias. Antes, ela elaborava formas bem controladas com dobras geométricas, organizadas e simétricas, inspiradas no design japonês. Nessa nova etapa, ela passa a deixar o material atuar de forma mais natural, como uma investigação diferenciada de seu processo criativo.
5 - Poltrona Goiva - Oficina Umauma
O assento se destaca pelo trabalho de marcenaria
Pedro Ocanhas
Desenhado por Fernanda Barretto, o assento é fruto da investigação sobre os elementos construtivos e seus encontros. Encosto, estrutura e apoio evidenciam as relações que sustentam a forma. Ao tornar visíveis esses pontos de estruturação, a poltrona amplia a leitura sobre conforto e construção. Entre o artesanal e o preciso, a poltrona se afirma como um exercício de equilíbrio, onde matéria, memória e desenho se entrelaçam.
6 - Gaveta CD - Edel-Stein
As gavetas já faziam parte do portfólio do designer
Divulgação
O projeto combina módulos de armazenamento de aço que integram a pesquisa contínua de Rodrigo Edelstein sobre síntese formal, precisão construtiva e função essencial. Nesta edição, a proposta foi ativar o objeto como dispositivo expositivo: cada gaveta continha pequenos objetos do cotidiano, itens simples e reconhecíveis, com o objetivo de demonstrar sua escala, uso e potencial de organização.
A intenção foi transformar o ato de armazenar em experiência pública. Durante a SP-Arte, o visitante foi convidado a abrir as gavetas, explorar o conteúdo e interagir fisicamente com a instalação.
7 - Espelho Rei - Lucas Neves
Além do espelho, o designer também lançou a mesa Melt
Divulgação
Formado em arquitetura, o criativo desenvolve peças que surgem da interseção entre arte, técnica, trabalho manual e conhecimento teórico. Todo o trabalho é feito à mão, por ele mesmo, em um processo que valoriza tanto a precisão quanto a expressão artística. Para o novíssimo espelho, utilizou madeira imbuia proveniente de um galpão desmontado no Sul do país. Essa mistura entre design e arte atravessa profundamente sua produção, sempre guiada pelo desejo de criar peças que não apenas ocupem a casa, mas que se tornem verdadeiros personagens dentro dela.
8 - Séries Totens e Emma - Olga Treivas
Artigos das duas séries apresentadas pelo estúdio russo
Divulgação
Totens investiga o cristal como matéria escultórica, entre tradição e experimentação. Das formas lapidadas às versões coloridas, revela técnicas raras do vidro. Objetos que evocam a herança artesanal e transformam técnica em expressão contemporânea.
Já a linha Emma nasce de memórias de infância, unindo construção e têxtil em uma linguagem sensível. A madeira jatobá e o bordado manual trazem calor e imperfeição como valor estético. Peças que exploram o sol como símbolo universal e celebram o fazer artesanal.
9 - Coleção Vestígios - Studio Anna Machado
A linha nasceu de partes reutilizadas dos descartes do estúdio
Divulgação
Na linha, a designer apresentou pela primeira vez um trabalho totalmente manual, feito com sobras do estúdio, fruto de uma pesquisa artística de anos. Além da coleção, Anna exibiu o projeto TON, no qual explora o plástico para além da matéria-prima e passa a vê-lo como agente de transformação social, e um desdobramento da coleção Desamparo.
10 - Objeto da série Ninhos - Lilian Malta
Na coleção, a designer se aventura por aspectos mais artísticos
Will Carvalho
Iniciada no ano passado, a série Ninhos marca um momento simbólico na trajetória da artista. Diferentemente de objetos utilitários, as obras assumem caráter essencialmente escultórico, investigando a relação entre delicadeza e resistência no acolhimento da vida.
Após estudar ninhos vazios coletados na natureza, Lilian passou a desenvolver suas próprias estruturas, incorporando fibras de coco, raízes e folhas secas, em diálogo com a inteligência construtiva dos pássaros. O resultado são peças que tensionam fragilidade e força, sugerindo paralelos entre abrigo natural e os espaços simbólicos que sustentam o nascimento do novo, sejam lares, famílias ou o próprio corpo.





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