Nem toda criança autista é não verbal: atrasos na fala ainda são mal interpretados
No Abril Azul, especialista alerta para equívocos sobre comunicação no autismo e reforça a importância da intervenção precoce
Paula Anderle/Foto: Gabriela Jardim Durante o Abril Azul, um dos mitos mais persistentes sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) volta ao centro do debate: a ideia de que toda criança autista não fala. Embora dificuldades de linguagem sejam comuns dentro do espectro, a ausência de fala não é uma regra e, quando presente, não deve ser encarada como definitiva.
A fonoaudióloga Paula Anderle, especialista em Transtorno do Espectro Autista, explica que o conceito de comunicação vai muito além da linguagem oral.
“Existe um equívoco comum de que a fala é o único parâmetro de comunicação. No autismo, precisamos ampliar esse olhar: gestos, expressões, ecolalia e até recursos de comunicação alternativa fazem parte desse processo”, afirma.
Segundo a especialista, um dos principais riscos está na interpretação equivocada de atrasos na fala como algo passageiro, o que pode adiar intervenções importantes.
“Muitos pais ouvem que é preciso ‘esperar o tempo da criança’, mas, em casos de atraso significativo ou sinais de TEA, essa espera pode comprometer o desenvolvimento. Quanto antes houver avaliação, maiores são as chances de evolução”, destaca.
Entre os sinais de alerta estão a ausência de balbucio, pouca resposta ao nome, dificuldade de contato visual e limitação na tentativa de interação. Nesses casos, a avaliação fonoaudiológica é fundamental para diferenciar um atraso simples de linguagem de características mais amplas relacionadas ao espectro autista.
Outro ponto importante é o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), abordagem que inclui o uso de figuras, aplicativos e outros recursos para ampliar a capacidade de expressão da criança.
“A CAA não impede o desenvolvimento da fala, como muitos acreditam. Pelo contrário, ela pode ser uma ponte para que a criança desenvolva outras formas de comunicação e, em muitos casos, evolua também na linguagem oral”, explica Paula.
Além dos impactos na linguagem, a dificuldade de comunicação pode afetar diretamente o comportamento, a socialização e o bem-estar emocional da criança. Por isso, a intervenção fonoaudiológica é considerada uma das bases do cuidado multidisciplinar no TEA.
“Não estamos falando apenas de desenvolvimento de fala, mas de dar à criança ferramentas para se expressar, reduzir frustrações e se conectar com o mundo. Comunicação é autonomia”, reforça a especialista.
No contexto do Abril Azul, a mensagem central é clara: compreender as diferentes formas de comunicação no autismo é essencial para promover inclusão e desenvolvimento. E, nesse cenário, a informação correta pode fazer toda a diferença no futuro dessas crianças.

Foto: Gabriela Jardim
Paula Anderle é fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.





COMENTÁRIOS