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Belo Horizonte,18/04/2026

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Como um prédio dos anos 1940 virou reduto de artistas no centro de São Paulo

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Como um prédio dos anos 1940 virou reduto de artistas no centro de São Paulo
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Nem sempre é possível cravar o momento exato em que um lugar começa a mudar de status. Às vezes, não há marco, inauguração ou discurso. O que existe é uma sequência de decisões individuais que, vistas em conjunto, passam a desenhar um movimento. Na Rua Martins Fontes, no centro de São Paulo, um edifício projetado por Rino Levi nos anos 1940 guarda, por trás de sua racionalidade modernista, uma série de ateliês, que funcionam como pequenas células de inventividade. Lá dentro, revelam algumas das práticas mais instigantes em curso hoje nessa região da cidade – que puderam ser descobertas pelo público durante a 15ª DW! Semana de Design de São Paulo.
Fachada do edifício Stig, projetado por Rino Levi em 1943
Filippo Bamberghi
Antes de qualquer noção de um coletivo, havia o espaço vazio e alguma intuição. “O encontro aconteceu durante uma passagem rápida em frente ao prédio, pela luz natural que entrava ali, pelo espaço livre e o que poderia vir a existir naquele lugar”, lembra a ceramista Amanda Tozetti, a primeira artista a se instalar em um dos andares do edifício Stig. Não havia vizinhos nem promessa de ocupação. O que se seguiu foi uma aproximação contínua, segundo ela. “Percebi o potencial quando comecei a ver diferentes linguagens coexistindo entre os ateliês.”
A ceramista Amanda Tozetti, que abre seu ateliê para turmas dedicadas à experimentação
Filippo Bamberghi
A presença de novos artistas veio por pura química. Um visitava, indicava, voltava com outro colega. Aos poucos, a cena ganhou contorno, embora a povoação não tenha sido homogênea – ao contrário, cada chegada ampliou distinções. “Fico extremamente feliz com os jeitos diferentes de cada um existir como ateliê, como negócio e como rotina”, comenta Amanda. E, assim, aos poucos, o espaço passou a ser habitado por conversas, fluxos e interrupções. “Tornou-se menos hermético.”
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Marina Sader diante das telas "Sapatinhos da Noite" e "Céu da Boca", de giz pastel
Filippo Bamberghi
No segundo andar, no ateliê ao lado do de Amanda, Marina Sader desenvolve uma pesquisa que recusa fixidez. Desenho, luz, corpo e espaço aparecem como partes de um mesmo processo, que se desdobra conforme a escala ou o suporte. “Estar em um prédio onde existem diversos artistas com suas linguagens é algo que me inspira diariamente”, afirma. O convívio, ela conta, é um estímulo direto, já que ao circular entre os ateliês, observar técnicas e abrir conversas, seu trabalho incorpora referências e características que dificilmente surgiriam em isolamento.
Afinidades em construção
Fundada por Luis Guido em 2022, a marca Call Jim surpreende com cerâmicas de formatos geométricos, estampas listradas e paleta de cores vibrantes
Filippo Bamberghi
Luis Guido, criador da Call Jim
Filippo Bamberghi
Se as linguagens variam, há um ponto de contato que se repete: o compromisso com o feito à mão. Para Luis Guido, nome por trás da marca Call Jim, essa relação é antiga. “Sempre fui manual, sempre criei coisas para mim”, conta. Na cerâmica, encontrou um campo onde função e expressão se misturam sem hierarquia. Suas peças, de cores vibrantes e combinações abertas, partem de desenhos simples, geométricos. “Não existe coleção, existem possibilidades”, pontua, acrescentando que, para ele, não há sentido em fazer sucesso sozinho.
As cerâmicas utilitárias de alta temperatura de Priscila Nakamoto dividem espaço com peças que evocam a iconografia brasileira de Diego Rosendo
Filippo Bamberghi
Diego Rosendo e Priscila Nakamoto
Filippo Bamberghi
Entre mesas, tornos e fornos, Diego Rosendo e Priscila Nakamoto compartilham um espaço onde a prática é marcada pela observação mútua. “Esse ecossistema criativo age de forma invisível”, diz o recifense. Sua produção, definida por referências à cultura popular e à religiosidade, parte de memórias que insistem em permanecer. “Trazer isso para o meu trabalho é uma forma de me reconectar com minhas raízes.” Priscila, por outro lado, investiga a precisão do gesto e a construção da cor para a sua marca, a Naka Cerâmica. “O fazer manual me ensina a desacelerar. É um caminho de dentro para dentro.”
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Nessa espécie de vila vertical, a troca acontece de maneira contínua. “Contamos com o apoio e disponibilidade para aprender as diferentes técnicas uns com os outros”, comenta Priscila. Mas o contato também se dá em situações corriqueiras: “Muitas vezes paramos para tomar um café e comer um bolo juntos”, resume Diego. São pausas que não interrompem o trabalho, mas abrem possibilidades para cada um deles.
Jade Marangolo posa entre tecidos com estampas autorais e cadeiras da coleção Epifania, sobre o tapete Mergulho
Filippo Bamberghi
No sexto andar, Jade Marangolo transita entre pintura, estamparia e superfícies diversas, levando o desenho para escalas variadas, incluindo mobiliário. Suas criações nascem da observação da natureza e da cultura brasileira, com atenção constante ao processo manual. Rodrigo Branco, outro vizinho, articula pintura e ensino em um mesmo fluxo. Sua obra é construída a partir de lembranças e arquivos pessoais. “A memória é viva. O desejo de homenagear meus familiares está no centro”, diz.
O artista Rodrigo Branco
Filippo Bamberghi
O ateliê de Rodrigo Branco, de onde nascem pinturas e cerâmicas
Filippo Bamberghi
Essa teia formada entre os andares do edifício não depende de um discurso comum nem de uma estética compartilhada. A força está na convivência entre práticas que se mantêm autônomas, mas permeáveis. Entre portas abertas, visitas improvisadas e colaborações em curso, o trabalho deixa de ser um gesto isolado e passa a sofrer a influência dos outros. É nesse intervalo, entre o que se faz sozinho e o que se constrói junto, que o endereço paulistano revela sua força.
*Matéria originalmente publicada na edição de abril/2026 da Casa Vogue (CV 482), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.




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