Jovem com TDAH cria edtech para mudar a experiência de neurodivergentes na sala de aula

O empreendedor Gleyson Santos, 24 anos, só recebeu o laudo com o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) aos 19, quando estava na universidade. Mas as manifestações já estavam presentes desde a infância, com experiências desagradáveis dentro da sala de aula. Inspirado pela própria vivência, ele fundou a NeuroIdentify, edtech que ajuda a identificar e apoiar alunos neurodivergentes.
Ao longo da jornada acadêmica, Santos teve de aprender a lidar com os problemas relacionados à desatenção e à hiperatividade mental. “Sustentar atenção por muito tempo era quase uma tortura. Eu conseguia estar com o olho ali, mas a minha cabeça estava em outro planeta”, recorda.
Segundo o jovem, em alguns momentos, era preciso deixar a sala de aula para regular os estímulos, e houve casos em que professores gritaram e até mesmo jogaram canetas no aluno. “Eu sempre fui muito político, conseguia tatear bem a situação para que a minha jornada não ficasse mais difícil ainda. Minha mãe me orientava a não rebater os educadores, a ficar quieto e aceitar”, relembra.
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Filho de empreendedores, ele sempre foi recomendado a não seguir pelo mesmo caminho, apesar da vontade de ser dono do próprio negócio. Enquanto estudava Psicologia, precisou fazer um trabalho para adaptar o ensino para alunos neurodivergentes. “Os outros alunos fizeram palestras e cartilhas. Eu e meu grupo decidimos fazer uma solução real e criamos um MVP, nada tecnológico, em papel, onde o professor marcava os comportamentos”, conta.
Era a semente para a NeuroIdentify. Em novembro de 2024, Santos e os sócios – Marcus Monteiro (COO), David Cabral (CTO), Matheus Cardoso (head de administração) e Danilo Castro (head de tecnologia) – resolveram escalar a ideia e pivotar do ensino superior para o ensino primário. “Se a escola não adapta o ensino, a criança perde repertórios necessários para trabalhar bem as partes social, motora e cognitiva. O prejuízo vai se somando com a idade, podendo virar uma sopa de letrinhas de vários tipos de transtornos”, comenta.
Os cofundadores da NeuroIdentify: Matheus Cardoso (head de administração), Danilo Castro (head de tecnologia), David Cabral (CTO), Marcus Monteiro (COO) e Gleyson Santos (CEO)
Divulgação
A partir das anotações dos educadores, a plataforma ajuda a identificar características de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção, Hiperatividade (TDAH), entre outras condições do neurodesenvolvimento, e com uso de inteligência artificial, elabora adaptações do conteúdo e planos de desenvolvimento personalizados.
“O professor acompanha o comportamento do aluno, classifica padrões com base no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e aplica intervenções pedagógicas com foco no desenvolvimento cognitivo e motor, com base em práticas validadas cientificamente e revisadas por profissionais da área. A evolução é monitorada em um painel com curvas de aprendizagem e comportamento, que orientam ajustes no plano e geram relatórios estruturados para coordenação e famílias”, explica.
O modelo de negócios é a venda de licença para as escolas, com valor baseado na quantidade de professores usuários (R$ 50 por profissional). “Hoje trabalhamos com o setor privado, mas vemos uma oportunidade muito grande no B2G para conseguir escalar o impacto e trabalhar com um volume maior de escolas”, afirma.
A plataforma tecnológica foi testada e validada na Escola São Rafael, de Belém (PA), onde a edtech está sediada, mas Santos diz que não foi fácil conseguir espaço em um ecossistema dominado por soluções de bioeconomia. “Recebemos muitos elogios, mas eram seguidos de silêncio. Aqui ainda é muito conservador para inovar dentro da inovação”, lamenta.
Com os números do MVP – 80% de melhora na aprendizagem dos alunos acompanhados –, a startup conseguiu mais atenção dos decisores de outros estados, e já atua em projetos educacionais em Canoas (RS). A edtech pretende fechar contrato com pelo menos uma rede de ensino neste ano, para escalar o alcance – o que pode levar a quantidade de clientes para 400. A projeção conservadora é encerrar o ano com 10 novos clientes.
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A NeuroIdentify também já mira outros países, com contatos em Portugal e no Uruguai. Na Europa, faz parte do ecossistema Startup Leiria e tem pilotos confirmados em escolas de Alcanhões e Alcobaça, além de Leiria. No vizinho latino-americano, a edtech vai participar de um programa do governo uruguaio para educação tecnológica.
Bootstrapping, a startup não descarta captar recursos com investidores – e já iniciou conversas com um fundo português. “É inevitável para ajudar a escalar mais rápido, com capital, contatos e oportunidades. Mas enquanto pudermos manter a estratégia por conta própria, vamos fazer, para ter maior controle da qualidade”, finaliza.
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