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Belo Horizonte,10/04/2026

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Como recuperar o ritmo do prazer na vida real

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Como recuperar o ritmo do prazer na vida real
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Certas dimensões da vida que só se revelam na presença, na lentidão e no contato. Existem memórias de um mundo com menos tecnologia que costumam ser atravessadas pela sensação de que os momentos eram vividos por inteiro: o olhar atento que descobria algo novo no quintal, a visita calorosa de um amigo recebida com uma xícara de café recém-coado e uma conversa demorada. Até mesmo um tédio sereno, que abria espaço para pensar, olhar ao redor e observar o tempo passar.


Nos tempos atuais, as telas disputam espaço com a experiência offline – feita de intervalos, silêncio e sem filtro. E quando somos constantemente expostos a estímulos fáceis e rápidos, o prazer da vida real pode perder o espaço que é necessário para se desenvolver.


O efeito do excesso de estímulos


De acordo com Lucas Freire, psicólogo e autor do livro “Exaustos – Imaginando saídas para o cansaço diário”, as redes sociais operam por meio de um sistema de recompensa com o qual não fomos preparados para lidar. Esse sistema funciona, em grande parte, por meio da dopamina, um neurotransmissor ligado à antecipação do prazer, e não ao prazer em si. Ou seja, mais do que a recompensa, o que nos prende é a expectativa de que algo bom pode aparecer a qualquer momento.


“O scroll infinito é projetado para manter esse circuito ligado indefinidamente. Você nunca chega no fim do feed. Nunca há resolução. É um loop de antecipação sem entrega. A mente fica num estado de excitação permanente que se parece com motivação mas é, na verdade, um esgotamento disfarçado. É o que eu chamo de cativeiros neurológicos ou neuroprisões. Uma captura sem fim da nossa atenção feita com conhecimentos profundos da motivação humana”, destaca.


Esse prazer imediato costuma passar rápido e não se sustentar ao longo do tempo. “Não há esforço acoplado. Não há escolha real. Não há significado construído. É gratificação sem contexto, e o sistema nervoso, muito mais inteligente do que a gente costuma dar crédito, sabe a diferença.”


Quando cada espaço de intervalo da rotina é preenchido por novos estímulos que mostram viagens, corpos inalcançáveis, conquistas e almoços bonitos, o que acontece fora das telas pode parecer menos interessante.


“É como comer glutamato sódico a vida toda e depois achar que o tomate não tem gosto de nada. O tomate não mudou. E viver assim torna qualquer rotina insuportável e o tédio se torna ainda mais aversivo.”


O especialista explica que processos criativos, conversas profundas e momentos de conexão real tem “tempo de cozimento”, um período chato antes de ficar bom.



“O clímax só existe quando há tensão acumulada antes dele. Destruímos a tensão e nos perguntamos por que nada nos satisfaz.”



‘Uma dose de tédio, por favor!’


Estar entediado é, em geral, um momento desagradável para a maioria das pessoas. Ao tentar fazer as pazes com o ritmo fora das telas, é comum que apareça o impulso de desbloquear o aparelho, sem pretensão clara, mesmo que nenhuma notificação nova tenha surgido. Mas quando o cérebro deixa de viver nesse bombardeio constante, ele se regula. E o que antes parecia comum, tende a voltar ser prazeroso.



“O tempo volta a ter tamanho. As coisas simples voltam a ter textura. O café tem gosto de novo. A conversa tem peso de novo. O céu numa tarde qualquer volta a ser algo que vale dois minutos de atenção genuína. Isso não é romantismo. É neurobiologia.”



Experiências simples, mas que requerem tempo, concentração, tolerância ao erro e paciência podem ajudar a tornar esse processo mais leve. “Dez minutos montando um Lego com total atenção valem mais, neurologicamente, do que uma hora de scroll semiconsciente no sofá. O critério não é o quanto se faz. É o quanto se está presente enquanto faz.”


Entre essas atividades, estão:



  • Cozinhar algo que exige atenção;

  • Completar um treino que antes quase não era possível;

  • Terminar um livro;

  • Aprender uma música do começo ao fim;

  • Fazer um café diferente;

  • Plantar algo e acompanhar o crescimento.


Sintonizando o prazer do modo offline


Para iniciar essa jornada, Freire sugere aplicar o “Playfulness”, ou “espírito lúdico” – uma técnica de atenção plena criada pelo psicólogo, que busca olhar o rotineiro com curiosidade e espontaneidade. É preciso estar aberto ao imprevisto, interessado de maneira genuína, e sem fixação em resultado.


“É lembrar-se do estado em que um músico improvisa sem partitura, em que um cozinheiro experimenta um ingrediente novo sem receita, em que duas pessoas numa conversa de bar perdem a noção do tempo sem saber bem como.”


Em seguida, o autor sugere algumas dicas práticas:



  • Tirar o celular do quarto: o local costuma ser um dos poucos espaços da rotina associados a descanso, silêncio e transição entre um período e outro. Transformá-lo em um momento para olhar o feed pode manter a mente no mesmo ritmo durante o resto do dia;

  • Definir um momento para utilizar as redes sociais: em vez de proibir, pode ser mais eficaz estabelecer um horário específico para acessar. Muitas vezes, a diferença entre usar e ser usado está no controle sobre quando abrir;

  • Reintroduzir atividades manuais: fazer algo físico que exija presença tátil. O corpo precisa de recompensas que não vêm da tela, como tocar objetos com textura, peso, temperatura, resistência e movimento;

  • Ler livros físicos: não porque o papel seja sagrado ou exista algum mérito moral nisso, mas porque um livro não tem notificações. Ele pede atenção contínua e, quando se chega até o fim, a mente relembra que ainda é capaz de sustentar profundidade;

  • Encontrar algo que faça perder a noção do tempo: um hobby prazeroso que não seja para relacionado a perfomance na internet, mas feito pelo próprio prazer de fazer, sem meta, sem plateia e sem pressa.


Com o tempo, as redes sociais não desaparecem, mas podem passar a ocupar um espaço menor quando entendemos quais experiências trazem uma sensação de prazer prolongado.



“Muitas vezes, a própria percepção aprende a diferenciar o que alimenta do que apenas ocupa o tempo. É a vida que a gente vive no automático, esperando que alguma coisa finalmente prenda a atenção de verdade, sem perceber que essa atenção estava disponível o tempo todo. Só precisava de um pouco de silêncio para aparecer.”



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