Cookie, picolé, shake e mais: empreendedores reinventam pudim e fazem sucesso nas redes e nas vendas

O pudim de leite deixou de ser apenas a sobremesa do almoço em família para se tornar um fenômeno de faturamento e visualizações para diversos negócios nas redes sociais. São aproximadamente 1,4 milhão de publicações vinculadas à hashtag no Instagram e no TikTok. E a demanda pelo doce tradicional abriu espaço para a criatividade de empreendedores que reinventaram a receita e lançaram novos formatos.
Segundo Felipe Destri, consultor do Sebrae-SP, o chamariz do pudim está ligado a fatores emocionais. “É considerado um doce tradicional, que remete à infância, casa da avó e momentos afetivos", avalia. Essa base nostálgica, somada ao visual das imagens e dos vídeos, onde "a textura e o brilho característicos do doce possuem apelos visuais e despertam curiosidade", é o que impulsiona a tendência.
Para Felipe Wasserman, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o sucesso não é apenas sobre o doce. "É sobre familiaridade e novidade. Base conhecida reduz risco. O consumidor já entende o sabor antes de provar", pontua. Ele ressalta que, embora o marketing gere o primeiro pico de demanda, a "recompra é produto mais experiência".
PEGN mapeou seis negócios que reinventaram o pudim. Veja a seguir:
Pudim Capivara
Na Bahia, Bruna Keiff, proprietária da marca Pudim do Paraíso, encontrou no elemento regional uma forma de diferenciar seu negócio em um mercado saturado. Ela criou o "pudim capivara", um doce moldado no formato do animal. "Trazer um elemento inesperado criou uma identidade única. Não é só mais um pudim, é uma experiência com personalidade", diz a empreendedora.
A inovação não alterou apenas a estética, mas impactou diretamente as métricas da empresa. Desde que introduziu o formato, Keiff registrou um aumento de 40% a 50% no faturamento. O fenômeno é nítido nos dias de menor movimento: entre segunda e quarta-feira, dias que ela apelidou de "Semana da Capivara", a confeiteira chega a vender mais de 20 unidades do modelo específico.
O produto é mais encorpado e consistente que o tradicional para manter o formato, exigindo um tempo de cozimento maior. O preço reflete esse cuidado: a versão simples custa R$ 29,90, enquanto a opção presenteável, que inclui colher, laço, cartão e uma farofa de bolacha, sai por R$ 37,90. A empreendedora centraliza toda a operação, desde a produção até fotografia e edição de vídeos para as redes sociais, que hoje funcionam como sua principal ferramenta de vendas. "O visual faz toda a diferença. Uma calda bonita e uma apresentação cuidadosa despertam o desejo naturalmente", pontua.
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Do picolé ao ovo de Páscoa
Na doceria Autêntico Pudim, a inovação começou com a junção do doce com o chocolate. A primeira aposta foi a barra de pudim, seguida pelo picolé de pudim — feito com o doce real, e não apenas saborizado. O sucesso foi imediato, levando a marca a criar uma linha especial para a Páscoa. Maria Eduarda Ferreira Feitosa, 24 anos, responsável pelas vendas e atendimento da marca, explica que o ovo de colher da casa acomoda um mini pudim inteiro sobre o recheio de chocolate nobre.
Segundo Feitosa, o processo é rigoroso e totalmente artesanal, levando cerca de três horas para a finalização de cada unidade. O custo de produção é considerado elevado devido à escolha de insumos de primeira linha. "É um produto mais trabalhoso e o custo é alto por conta dos insumos usados, usamos do melhor chocolate nobre até o melhor leite condensado", afirma. Os preços variam entre R$ 95 e R$ 139 (versão de 700 g).
A estratégia de precificação é baseada no custo dos materiais e no valor agregado. Atualmente, o tíquete médio da Autêntico Pudim gira em torno de R$ 50, mas esse valor dispara durante o período pascal. Para Feitosa, que também produz os vídeos da página no Instagram, a vitrine digital é o motor do negócio. "A forma que posta o vídeo define se o cliente vai parar e assistir ou não. Se ele parar e assistir já é 50% do trabalho feito", pontua.
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Cookie e milkshake
Na Dimpudim, a empresária Lucila Abellan, 49 anos, percebeu cedo que o pudim tradicional, embora fosse o carro-chefe, precisava de acompanhantes para elevar a experiência do cliente. Após dez meses da abertura da primeira unidade, Abellan e o sócio – seu filho, Davi Abellan – buscaram referências em confeitarias de São Paulo e tendências asiáticas para criar o que chama de "subprodutos de valor agregado".
O resultado foi o surgimento do milkshake de pudim e do cookie recheado. "Nosso milkshake é um sorvete com calda de caramelo em que vai atribuído um pudim, um mini pudim. A pessoa acompanha uma colher; ela toma o shake e depois degusta o pudim que fica em cima", descreve Lucila. Já o cookie exigiu mais testes: a massa tradicional foi adaptada para receber um recheio de pudim em vez dos clássicos Nutella ou Red Velvet. "O pudim é um doce neutro, ele combina com tudo. A receita certa não é sobrecarregada em açúcar, é leve", diz a proprietária.
A estratégia de "hype" serviu como isca para atrair novos públicos. "É aquela história do subproduto, né? É o que bomba, o que faz a pessoa vir na loja por curiosidade. Às vezes ela nem come o produto que chamou a atenção, mas acaba comendo o pudim", explica Abellan. Essa dinâmica, somada à ampliação da loja e à expansão do cardápio de 9 para 18 sabores, gerou um salto expressivo no faturamento. "O aumento foi muito grande", afirma a empresária.
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Pudim no copo americano
A pernambucana Michele Sena, 44 anos, decidiu que para ter sucesso vendendo pudim precisava sair do convencional. Embora já tivesse a receita elogiada pela família, ela buscou referências até iniciar os testes do doce em um novo formato. Em janeiro de 2026, a empreendedora abriu o negócio focado no pudim servido em um copo americano de 190 ml. O investimento inicial foi de R$ 500, considerando todo o processo de aprimoramento do produto.
"Eu queria sair do convencional, da embalagem clássica, do plástico que todo mundo faz... veio a ideia do copo e aí pensei: ‘Se em vez do pote de plástico fosse um copo de vidro?’. Passei cinco dias tentando incansavelmente, até chegar na receita final”, conta.
Não demorou para a receita chamar a atenção nas redes sociais. De acordo com a empreendedora, o primeiro vídeo do produto atingiu um milhão de visualizações em apenas 24 horas. Publicado no dia 9 de janeiro, o post acumula 2,7 milhões de visualizações. “Fiz um vídeo mostrando a novidade. Não acreditei na repercussão e como tudo isso tem mudado a minha vida”, diz.
O sucesso do pudim no copo americano impulsionou a criação de novos sabores e até produtos de outros formatos. Recentemente, ela lançou o Picodin, um picolé de pudim coberto com camadas de chocolate que superou o primeiro viral. O vídeo, divulgado no dia 12 de março, já acumula 9,2 milhões de visualizações.
Com um faturamento mensal próximo de R$ 15 mil, o negócio opera apenas por apenas por delivery. Os produtos custam a partir de R$ 12. Além disso, a empreendedora produz os itens em quantidade para lembranças em eventos. “Fechei pedidos para um hotel cinco estrelas, para o Dia da Mulher, para a Páscoa”, afirma.
Com o olhar para o crescimento do negócio, ela alugou um novo espaço para ampliar a produção e adquiriu novos equipamentos, como o forno industrial. Ela conta que já discute a possibilidade de entrar no franchising. “O pudim no copo veio para ser bênção na minha vida”, afirma.
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Bombom, mais de 50 sabores e pudim proteico
Com quase 12 anos de mercado, Diego Sollon, 40 anos, e Daniel Praxedes, 32, da Sopudim, focam em transformar o doce em diversas experiências. Hoje, a empresa opera uma unidade física em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e delivery em São Paulo (SP). O faturamento mensal é de cerca de R$ 50 mil. "A nossa filosofia, o nosso objetivo é colocar o pudim em várias frentes. Temos mais de 50 sabores, bombom, picolé", diz Praxedes, que atua no marketing da empresa enquanto Solon chefia a produção.
Entre as inovações mais recentes, destaca-se a linha voltada para o público fitness, com o pudim proteico (R$ 150, 1 kg). A Sopudim também aposta em tamanhos e receitas diferentes, como bombom e picolé. A operação é otimizada por tecnologia. "Utilizamos um forno próprio para pudim e a gente consegue fazer em 30 minutos 80 minipudins. Isso sem banho-maria e sem papel alumínio", explica.
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Antes do bom em redes como o Instagram e TikTok, o empreendedor conta que o negócio já marcava presença no Facebook. Hoje, a Sopudim soma mais de 747 mil seguidores. Um vídeo publicado no dia 6 de março acumula 3,7 milhões de visualizações no Instagram. “Sempre acreditamos no pudim. É uma memória afetiva muito grande. Ficamos lisonjeados com esse alcance”, ressalta.
Quanto aos planos para o futuro, Praxedes antecipa a abertura de um ponto físico na capital paulista e planejamento para entrada no sistema de franquias no médio prazo. “Somos cautelosos e avaliamos tudo com muita calma. Estamos estudando e a ideia é franquear com tudo redondinho e no tempo certo”, diz.
Bolo de pudim no pote
Em Portugal, a confeiteira paranaense Bárbara Soares, 36 anos, adaptou o "bolo de feira" brasileiro para o formato de pote. Mesmo com a resistência inicial dos portugueses ao leite condensado, o produto foi um sucesso. O doce custa € 5 (R$ 29,71, na cotação atual).
"Eu até fiquei com um pouco de receio... mas quando eles provaram, gostaram muito. Meus clientes receberam muito bem esse doce novo e vendi super bem", conta ela, destacando que produz cerca de 60 bolos em dois dias na semana.
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De acordo com a empreendedora, a viralização trouxe um crescimento rápido para a visibilidade do seu ateliê em Sintra, a 30 km de Lisboa. "Através desse vídeo eu ganhei 5 mil seguidores. Não pensei que ia ter esse alcance tão grande", conta. Para ela, o movimento é coletivo. “Acho que cada confeiteira está se reinventando, e com isso viralizando, vindo ganhando clientes, alcançando outras pessoas, tem sido muito legal", diz.
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