Pedro Lourenço: do primeiro desfile aos 12 anos à sua nova Era

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Das várias lendas urbanas sobre a moda na São Paulo dos 1990s, circula por aí que um garotinho de três anos
teria adivinhado que a saia de uma stylist famosa era Margiela apenas tocando na sua bainha. E que, aos 12,
de tão prodígio, já comandava seu primeiro desfile na São Paulo Fashion Week. Quer saber? É tudo verdade! Eu não minto… e Pedro Lourenço, esse “menino-mito”, tem todos os motivos para colecionar (e contar) esse tipo de história. Filho único de Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho, estilistas-expoentes da moda brasileira, nasceu em 1990 e caiu do berço direto no mundo.
Ninguém o segurou. Nos fragmentos de memória que tem da primeiríssima infância, lembra de Salvador, dos tucanos na Praia do Forte e dos terreiros baianos (“uma energia que ainda não entendia, mas sentia profundamente”). Também recorda de passeios nas marquises do Parque Ibirapuera, em São Paulo (“aquele
concreto curvo de Niemeyer no meio do verde”), e de uma ou outra Bienal em que descobriu a obra de Olafur Eliasson. Ah, e de Paris! “A loja de Rei Kawakubo, de Mugler, os desfiles de Yohji Yamamoto e Helmut Lang…”

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– a moda fez efeito. Em casa, começou a dedicar tardes inteiras a criar coleções. Apresentava tudo para os pais, cheios de opiniões sinceras, e para os amigos deles. Uma vez, “o stylist britânico Judy Blame foi assistir a um desfile meu. Ele era uma figura central da moda e, depois da apresentação, me escreveu uma carta dizendo que tinha ficado emocionado, que havia chorado”. Pedro tinha 11 anos e duas peças daquela “temporada” foram parar nas páginas de uma revista britânica. Oh, dear! “Não foi sobre validação, mas sobre perceber que aquela expressão crua, quase infantil, era genuína o suficiente para tocar alguém.” Isto é, alguém importante entre muitos outros alguéns importantes que viriam.

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Na estação seguinte, 2003, ele estreou como diretor criativo na extinta Carlota Joakina, marca paralela da mãe, em pleno SPFW. Foi sucesso. Um mês depois, a editora Regina Guerreiro apontava que outras etiquetas corriam para copiá-lo e o ego de Pedro, com 12 anos, “inflou”. Não era arrogância de pré-adolescente, mas o primeiro grande
reconhecimento por sua visão. “Eu não era uma criança brincando de fazer moda.” Desde sempre, ele conta, teve plena liberdade para propor esse olhar. “As trocas com a minha mãe eram mais técnicas que estéticas e eu estava muito concentrado em encontrar uma linguagem própria, em construir algo que fosse meu.”

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Visitava Mayumi (“minha modelista japonesa”) no ateliê e dissecava tudo o que podia: uma tarde, até abriu um tênis inteiro “para entender como era por dentro”. Curiosidade pura – e natural. Apesar dos pais estilistas, “nunca me senti pressionado a gostar de moda. Criar sempre foi inevitável para mim”. A surpresa mesmo foi a exposição e o “impacto que uma visibilidade tão precoce teria na minha vida”. Pequeno, sabia que seria alvo do bangue-bangue de fotógrafos assim que pisasse em qualquer esquina fashion. “Quando se é exposto ao sucesso muito cedo, isso mexe com o inconsciente. Eu sempre soube o que era a indústria da moda, mas não sabia o que ela faria comigo”. Ficou deslumbrado, um pouquinho arrogante (“beirando o patético”), mas sempre jurou predileção por quem falava mais sobre seu trabalho do que sobre sua pessoa.
Hoje, acha que esse reconhecimento trouxe as “camadas de blindagem” necessárias para viver a personalidade de prodígio com algum grau de tranquilidade. Quando precisava, incorporava um personagem, evoluindo as fantasias de super-heróis que amava na infância. “Criar uma persona disruptiva, forte e quase inatingível era uma maneira de me sentir seguro. Eu aprendi a me defender e os heróis representavam, para mim, força e resistência sem limites.” Foram alguns “tapas na cara” e aprendizados “na marra” até entender que “não sou um super-herói e tenho limites humanos. É impossível sustentar uma ideia de invencibilidade o tempo inteiro”. Aos 35, Pedro garante que deixou a interpretação no passado, mas a trajetória de estilo que marcou sua juventude ainda deixa, no público, uma impres-
são de misticismo.
Foi assim: em 2006, depois de todo o agito na cena nacional (com 15 anos, “Pedro Lourenço” já era uma etiqueta independente), ele decidiu “cair fora”. Trabalhou com Giambattista Valli e Alber Elbaz, da Lanvin, e, quando o inevitável se tornou mais que inevitável, anunciou que desfilaria suas criações na capital francesa. “Paris aos 19 foi crucial”, lembra. O mundo amou e ele também, ainda que eu possa jurar que, no nosso encontro que acompanhou essa entrevista, ele tenha brincado, sem explicações, que a cidade luz o traumatizou. Deixa quieto…

Seguido e comentado pelos maiores críticos de moda (lembra-se deles, antes dos influencers?), o nome de Pedro circulou nas mesas de grandes empresas internacionais. Simples assim, em 2014, ele se tornou o primeiro brasileiro a assinar uma collab de cosméticos com a M.A.C e fez uma parceria com a Nike estrelada por Karlie Kloss. Ainda tinha um pé no Brasil (sua primeira loja abriu em 2012) , quando anunciou o encerramento de sua marca, e nasceram as fofocas de que assumiria a direção criativa da italiana La Perla. Quer saber? Era tudo verdade! Já falei que eu não minto… “Eles detinham um dos últimos grandes savoir-faire italianos em corseteria tradicional. Foi um processo extremamente enriquecedor e aprendi muito ali”, comenta sobre a experiência que durou um ano. “Minha prioridade lá era clara: modernizar a linguagem sem romper com a técnica. Reduzi o barroco italiano a algo mais gráfico, houve crescimento de faturamento e uma resposta muito positiva da imprensa e do mercado. A marca, no entanto, estava passando por uma fase de grandes transformações internas e, como ficou público depois, as dinâmicas societárias e pessoais acabaram influenciando os rumos criativos da empresa.” O momento chegou ao fim, mas também maturou outras reflexões pessoais: “sou profundamente brasileiro”.

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Apesar do trânsito aéreo, “morar fora nunca foi uma fuga ou uma ruptura com as minhas raízes, mas uma nova perspectiva. Percebi que medimos o Brasil por parâmetros que nem sempre são nossos e que, mesmo idealizando a Europa como um lugar de técnicas inalcançáveis, o País é capaz de produzir algo extraordinário. Talvez esse reconhecimento esteja vindo agora, num momento em que o Brasil vive uma nova centralidade cultural. O mundo está olhando para cá e ele faz parte desse movimento.” Ainda seriam alguns anos até Pedro voltar para os trópicos.

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Nesse meio tempo, ele cruzou o Canal da Mancha para viver em Londres e encontrar uma nova identidade através de uma “experiência de anonimato” e “vivências humanas”– leia-se “agenda noturna intensa”. O resultado foi Zilver, “prata” (sua cor favorita) em holandês e o nome da marca que fundou em 2018 com proposta de modernismo e sustentabilidade. “Foi a experiência mais desafiadora da minha vida e a que mais me trouxe pressão e responsabilidade. Ali, eu não estava apenas criando uma coleção, mas conduzindo toda a estruturação do negócio. A
responsabilidade era integral: eu tinha metas claras, resultados para integrar e investidores com expectativas objetivas.” Assume que foi visionário, lembrando do desenvolvimento de materiais disruptivos, como couros de folhas e maçãs, e da aposta em tecnologias regenerativas. “A marca alcançou uma distribuição global relevante, com presença em mercados estratégicos, mas o peso era enorme. Manter uma operação desse porte em Londres, uma cidade que não é minha origem, sem o suporte familiar próximo, exigia uma energia constante de mim. Por isso, a escolha mais responsável acabou sendo interromper o processo.” Decisão difícil, mas libertadora. “Empreender é testar limites, e saber parar também é maturidade.” E agora, Pedro? Pelas redes sociais, o Brasil já está sabendo que o enfant terrible voltou. Ele chega com uma proposta ousada, RAIZ, “a fundação da minha nova era” e um novo
capítulo para chamar de seu. “Eu não diria que é exatamente uma coleção ainda, mas um clima, um manifesto. É uma energia que traduz como eu me sinto hoje, não um look fechado.”

Ready to Wear Spring Summer 2011 Pedro Lourenco DET Paris October 2010
Entendeu? É complexo, como ele. “RAIZ fala muito mais sobre a minha pessoalidade do que sobre uma estética pronta.” Isso, aliás, ele já tem: guarda-roupa casual para cobrir os músculos de quem faz exercício para oxigenar a
criatividade, e um bigode sensual que faz lembrar um ator pornô dos anos 1970. Não é delírio! Se não fosse “da moda”, ele mesmo confessa que poderia estar praticando esportes radicais – puramente pela adrenalina – ou
vivendo como uma estrela de conteúdo adulto cult. “É um fetiche conceitual, um sonho meio performático. Eu sempre fui uma pessoa extremamente sexual e, durante muito tempo, vi isso como algo vulgar. Talvez fosse por uma ideia europeizada sobre a sensualidade, de achar que ela precisava ser controlada para ser elegante ou sofisticada. Isso mudou. Não a presença do sexo, porque ele continua, mas minha relação com ele.

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Hoje, o sexy não é concessão, nem provocação. É uma expressão honesta, visceral e inegociável de quem eu sou”, como tantas outras. Imagine que, apesar do gosto pelo branco, preto e prata, Pedro jamais se considerou um minimalista. “Sempre me considerei sintético”, um criativo que extrai a essência dos códigos em busca do
que é realmente importante… e a moda continua sendo… mais ou menos. “Nunca me cansei de criar moda, mas
já me cansei do sistema. Nos últimos anos, meu amor por criar ganhou outra maturidade. Não apenas voltou, mas explodiu. Percebi que o que me interessa nunca foi apenas roupa, mas imagem, design e narrativa.” Na reflexão, ele soma à lista de atleta cult e ator pornô radical (ou será que era o contrário?) a possibilidade de ter se tornado cineasta, diretor de arte ou arquiteto. Ainda pode acontecer, incluindo investidas em produtos de categorias “mais sensoriais, como um lubrificante”. Por enquanto, segue ocupado com o novo ritmo da “Pedro Lourenço”, cuidadosamente projetada para um Brasil que já mudou muito. Espaço físico, só se transcender o apelo comercial. O calendário tradicional da moda nacional é outra questão delicada. “O São Paulo Fashion Week teve um papel estrutural muito importante, mas acredito que o formato baseado em patrocínio acabou criando uma dinâmica e a indústria não acompanhou a mesma velocidade. É preciso incentivo à exportação, profissionalização e investimento em desenvolvimento de produto. Desfile não sustenta indústria. Indústria sustenta desfile.” É o tipo de observação natural de quem cresceu olhando até para os céus. Ao longo da vida, Pedro encontrou na astrologia uma linguagem para interpretar o mundo. “Já usei códigos astrológicos para pensar arquétipos e nomear coleções. Tenho uma intuição muito forte quando estou alinhado.” Quer saber? É tudo verdade! Mas ele me disse que eu era taurino… Sou de Leão.
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