Você ainda se escuta?
Vivemos cercados de estímulos. Estamos sempre com pressa e somos constantemente engolidos pelo barulho do cotidiano: notificações, vídeos, mensagens e notícias que ocupam um espaço precioso. No entanto, uma vida com mais leveza e significado também pede autoconhecimento. E este excesso de distrações, muitas vezes nos impede de “ouvir” a voz interior.
De acordo com a psicóloga Giorgia Ocinschi, quando a mente está no automático, ela tende a olhar “de fora para dentro” e apenas responde aos estímulos do ambiente. “O problema é que, quando toda a atenção fica voltada para o exterior, sobra pouco espaço para perceber o que acontece dentro de nós. Pensamentos, emoções e inquietações precisam de silêncio para aparecer e ganhar forma. Eles aparecem em momentos de silêncio, antes de dormir ou em uma pausa inesperada do dia, mas logo são novamente cobertos por mais estímulos.”
Dessa forma, os desejos, medos e intuições não são nomeados e organizados. E, como consequência, a mente acumula uma variedade de pequenas experiências sem conseguir dar sentido a elas.
O que precisa vir à tona e não encontra espaço, se transforma em confusão interna, cansaço difuso ou, até mesmo, ansiedade sem uma causa clara. As pessoas passam a viver “como se estivessem constantemente em movimento, mas afastadas de si mesmas”, explica.
Ainda assim, Giorgia lembra que dar atenção aos próprios pensamentos não elimina conflitos, contradições ou dúvidas. Mas permite reconhecer vontades mais autênticas, perceber limites e compreender melhor as próprias reações emocionais: “No longo prazo, essa escuta tende a trazer mais coerência entre o que sentimos, o que escolhemos e a maneira como conduzimos a vida.”
Essa ideia também aparece na reflexão de Petria Chaves, jornalista e autora do livro “Escute teu silêncio”. Diz a escritora que o caminho para autopercepção envolve aprender a distinguir as diferentes vozes que surgem dentro de nós e reconhecer o que vem do ego, do corpo, da personalidade ou da alma.
“A partir do fortalecimento da consciência, é possível desenvolver uma percepção interna cada vez mais refinada. E, mesmo no final da vida, nessa escuta de nós mesmos, ainda vamos nos surpreender com as descobertas.”
Segundo Petria, o movimento de voltar-se para dentro precisa partir de um desejo consciente: “Não é algo que acontece automaticamente, pois esse tipo de prática raramente é incentivada desde a infância ou cultivado como um valor.”
O primeiro passo deste processo é substituir a cobrança pela curiosidade sobre o próprio mundo interno. Nem sempre o que aparece é confortável, mas, quando essa jornada é feita com gentileza e respeito ao ritmo individual, ela pode deixar de parecer ameaçadora e passar a ser percebida de forma mais leve e prazeirosa.
Petria explica que uma forma simples de começar é criar pequenos momentos de silêncio na rotina. Desenvolver a escuta interior exige preparação. Entre as sugestões, estão algumas práticas simples:
Pausas de silêncio ao longo do dia
A proposta é criar “bolsões de silêncio” de cerca de um minuto, três a quatro vezes ao dia, para treinar a mente a parar de maneira voluntária. Isso ajuda a aprender a direcionar o pensamento e cultivar um estado de atenção plena.
Buscar contato com a natureza
Caminhar em parques ou permanecer alguns minutos em meio ao verde, pode ajudar nessa reconexão. Petria menciona ainda o grounding, uma prática que envolve o contato direto com a terra, como ficar descalço na grama.
Praticar respiração consciente
A técnica consiste em quatro etapas com a mesma duração: inspirar, segurar o ar, expirar e permanecer sem respirar, cada uma por cerca de quatro segundos. O ciclo deve ser repetido de 15 a 20 vezes, e algumas vezes ao dia.
Aproveitar o silêncio antes do amanhecer
Outra sugestão é reservar alguns momentos antes do nascer do sol para o silêncio ou a meditação. Caso não seja possível, você pode escolher um ou dois dias da semana e acordar de 20 a 30 minutos antes do habitual. Segundo ela, essas práticas costumam ser especialmente propícias para reflexões profundas, insights e gerar a sensação mais intensa de prazer em estar vivo.
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