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Belo Horizonte,21/07/2026

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Pâmela Costa

Não Adianta Chorar Depois

Quando acordarem do sono profundo, será tarde demais.

Imagem gerada por Inteligência Artificial
Não Adianta Chorar Depois


Noventa dias.

Foi esse o prazo em que o ministro Alexandre de Moraes proibiu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de visitar o próprio pai. A decisão saiu em 13 de julho, depois que Flávio leu numa transmissão uma carta escrita por Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, e alcança praticamente toda a campanha, passando pelo primeiro turno de 4 de outubro. Quatro dias depois, em 17 de julho, Moraes suspendeu por 30 dias as visitas gerais ao ex-presidente, liberando apenas médicos, fisioterapeutas e advogados, e vetou visitas de finalidade "político-eleitoral" até o fim das eleições. No sábado, 18, o mesmo ministro negou o pedido para que o presidente da Argentina, Javier Milei, visitasse Bolsonaro no dia 25.

Some o prazo de um filho ao dos outros e ao veto ao chefe de Estado estrangeiro e chega-se ao desenho da coisa: um ex-presidente da República, 70 anos, saúde frágil, impedido de receber o abraço dos filhos dentro da própria casa. A palavra que a família usa é cativeiro. Exagero retórico? A Constituição que o deputado Eduardo Bolsonaro gosta de citar diz, no artigo 136, que nem sob estado de defesa, a hipótese mais grave prevista no texto, é permitido deixar o preso incomunicável. O que se pratica hoje contra Bolsonaro não tem, mesmo, muito paralelo na história recente.

Mas não escrevo aqui para relatar a decisão. Escrevo para perguntar como se chegou até ela, e quem, do lado que deveria estar gritando, escolheu o silêncio.

Sete meses de deserção

A candidatura de Flávio Bolsonaro foi colocada na mesa em dezembro. Sete meses. Durante esse tempo, boa parte da chamada direita de internet, gente que não era ninguém antes de 2018 e ganhou audiência, palanque e conta paga graças ao nome Bolsonaro, fez o contrário do óbvio. Prometeu que apoiaria quando o velho indicasse o sucessor. O ex-presidente indicou. Ninguém apoiou. Alguns trabalharam contra, questionaram a sanidade do ex-presidente, insinuaram que o filho estaria se aproveitando do pai. A cada formiga que Flávio pisava, transformavam em incêndio na Amazônia.

A carta que estourou tudo, a que Moraes usou de pretexto, só existiu por causa disso. Bolsonaro escreveu porque, faltando três meses para a eleição, a chapa anunciada havia mais de meio ano seguia órfã do apoio dos próprios "aliados". Foi um pai tentando fazer, à mão e no papel, o trabalho que os cabos eleitorais de discurso inflamado se recusaram a fazer. O resultado dessa iniciativa foi a régua de Moraes descendo mais um degrau: proibição de visitas, veto a manifestos, Milei barrado. A omissão de uns produziu o gesto de desespero do pai, e o gesto do pai deu a Moraes a desculpa para apertar ainda mais.

Quem passou meses chamando Bolsonaro de fraco por não brigar agora assiste, calado ou constrangido, ao homem enterrado até o pescoço. Há quem tenha percebido que passou do ponto. Percebeu tarde.

De dentro da família, o tom foi outro. Jair Renan resumiu o que a decisão significa na prática: "Meu pai está preso injustamente e agora proibiram até que os próprios filhos o visitem. 30 dias sem poder ver o meu pai, meu irmão Flávio, 90 dias sem ver o Jair, os outros filhos 30. Lula quando esteve preso recebia político, artista, sindicalista e ainda foi lançado candidato a presidente dentro da cadeia. Meu pai não pode receber um abraço de um filho dentro da própria casa. É a mesma justiça, mas a régua muda conforme o sobrenome." Carlos foi curto e mais duro: "Pelo que tive ciência, Alexandre proibiu, em questão de segundos após a PGR, visitas de todos os filhos ao pai." A régua que muda conforme o sobrenome é a frase que fica.

Filhos proibidos, e a Faria Lima acha normal

Filhos proibidos de visitar o próprio pai. Escreva de novo, devagar, e veja se soa como um país que se leva a sério. Uma parte considerável da Faria Lima, o andar de cima que se acostumou a tratar tudo isso como ruído distante, acha isso administrável. Uma nota de rodapé no home broker. Risco jurídico de um adversário político que não afeta o próximo trimestre.

Vale um lembrete. Em 2022, no calor da eleição, Fiesp, Febraban e FecomercioSP estavam entre as entidades que assinaram o manifesto "Em Defesa da Democracia e da Justiça", lido no Largo São Francisco, na Faculdade de Direito da USP, em 11 de agosto. Falaram em Estado Democrático de Direito, em independência entre os Poderes, em respeito às regras do jogo e ao papel das instituições. A Febraban registrou em nota que a adesão foi decidida por maioria da diretoria.

Diante das decisões mais recentes envolvendo Jair Bolsonaro, um preso proibido de ver os filhos, um ministro que veta a visita de um chefe de Estado estrangeiro e proíbe manifestos "inclusive por terceiros", dessas mesmas entidades não veio uma palavra. Nenhum manifesto. Nenhuma nota de maioria de diretoria. Nenhuma preocupação com a "independência entre os Poderes" quando o Poder que avança é o de sempre e o alvo é o adversário certo.

Fica então a pergunta que a carta de 2022 obriga a fazer: o compromisso era com princípios, ou com o momento político? Se o Estado Democrático de Direito valia contra um lado, valia também para proteger o cidadão do outro lado da concentração de poder. Se só vale contra um lado, o que se assinou em 2022 não era defesa da democracia. Era escolha de campo com papel timbrado.

O cupim não pede autorização

O jurista Joaquim Falcão, da Academia Brasileira de Letras, deu nome preciso ao que se vê. A oligarquia clássica vinha de fora e comprava o Estado. A que nasce agora brota de dentro das próprias instituições que deveriam se fiscalizar, corroendo por baixo as estruturas da democracia sem precisar tomá-la de assalto. Uma oligarquia cupim. As armas deixaram de ser os tanques na rua e viraram coisas intangíveis: o controle da pauta, a decisão judicial, a imprensa que legitima. A gente nem percebe quando a viga já está oca.

É por isso que a conta chega para todos, inclusive para quem hoje calcula que o silêncio sai barato. A canetada que hoje impede um filho de abraçar o pai é a mesma que amanhã pode redesenhar um contrato, cassar uma concessão, decretar a quebra de um patrimônio. Quem construiu império bilionário sob a lógica de que "o problema é do bolsonarismo, não meu" descobrirá, tarde, que o cupim não distingue viga de esquerda de viga de direita. Come a casa inteira.

Não adianta chorar depois, quando a caneta apontar para o próprio bolso. O momento de defender o princípio era quando o princípio protegia o desafeto. Esse momento é agora.

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