Ângela Barbosa Dias
Os Desdobramentos da Maternidade - Tratamento do Lorenzo
Capítulo 7
Nossa família...
Arquivo Pessoal
Vivendo a ansiedade e as preocupações inerentes aquele cenário, nosso pequeno Lolo seguia sua rotina diária, participava das aulas online, assistia seus vídeos, brincava com seu irmão e continuava fazendo suas bagunças ,mas aos nossos olhos, como pais , notamos que aqueles sintomas estavam afetando o colorido da sua infância.
Ao iniciar a semana percebemos que os episódios de vômito e sonolência estavam aumentando consideravelmente, seguindo as orientações médicas, entramos em contato com o Neurocirurgião, que receitou uma medicação, até o procedimento cirúrgico.
No meio daquele caos, achei necessário avisar a professora do Lolô, que ele precisaria interromper as aulas, já que todos os dias, ele participava das aulas online. Com muita dor no coração , abordar tudo aquilo que estávamos passando era difícil demais, então na hora que relatei o real motivo do afastamento, faltaram palavras porque as lágrimas invadiram a ligação de ambos os lados, precisou o pai do Lolô continuar a conversa; era dolorosa demais aquela situação.
O dia da internação chegou , mas foi necessário dar entrada com o Lolô pela emergência, pois o quadro estava evoluindo rápido demais, ele precisava ser monitorado no hospital até a cirurgia, que ocorreria no dia seguinte.
Arquivo pessoal
Amedrontados e vulneráveis ainda ao período Pandêmico, era necessário perpassar por muitos protocolos de segurança, Lolô precisou fazer o teste do Covid para ser apto a realizar a cirurgia. Eu e o papai do Lolô redobramos todos os cuidados para minimizar os riscos, pois estávamos num ambiente com muitas fragilidades.
Ao amanhecer do dia 16 de setembro de 2020 a equipe médica chegou ao hospital para realizar o procedimento, a anestesista veio ao quarto buscar nosso pequeno e conversar conosco para nos tranquilizar , mas o coração ficou apertado demais, vivíamos ali os tons reais do medo, infelizmente, mesmo como pais, não tínhamos como evitar aquela situação.
Naquela espera, próximo ao centro Cirúrgico, eu e o pai do Lolô, pedíamos a Deus forças para não enxergar apenas o ponto de dor, o diagnóstico e sofrimento, mas que Ele nos desse sabedoria, serenidade e coragem para enfrentar todos os desafios que estariam por vir .
A cirurgia demorou entre uma e duas horas, logo fomos avisados do término e que tudo tinha ocorrido bem, que nosso pequeno Lorenzo já iria para a UTI ,que era um procedimento práxis .
Apenas eu e o pai do Lolô tivemos a liberação de ficar com ele, para quando ele acordasse da anestesia se sentisse seguro com a nossa presença...e isso aconteceu. Seguindo as orientações da Pandemia, as visitas eram limitadas e com muitas restrições, devido aos riscos de contágio ao paciente.
Ao retornar da cirurgia, assim que Lorenzo abriu os olhos notamos instantaneamente uma melhora considerável, seus olhos estavam novamente alinhados, não apresentava mais aquela irregularidade, apesar de ter conhecimento do diagnóstico, qualquer boa notícia era bem-vinda.
Arquivo pessoal
Inesperadamente, recebemos a visita do Pediatra do Lolô no Hospital, foi um momento de delicadeza e proximidade que trouxe muito amparo e coragem para enfrentar toda aquela situação delicada naquele momento.
Na noite daquele dia, Lorenzo realizou a tomografia e estava tudo transcorrendo muito bem. De acordo com o médico de plantão, estava tudo caminhando para a ida do Lorenzo para o quarto.
Eu e meu marido, naquele quarto de UTI, tentávamos ao máximo distrair nosso amado filho, porque aquele ambiente era hostil demais para uma criança.
No dia seguinte da cirurgia, ainda na UTI, fomos surpreendidos com a visita da responsável pela Oncologia Pediátrica do hospital, que conheceu o quadro do Lorenzo, através da emergência e do procedimento cirúrgico.
Foi um momento sensível de acolhida e interação do Lolô com essa nova profissional. Naquela ambiência, ela nos explicou sobre os tratamentos modernos, equipamentos avançados e dos diversos profissionais capacitados, voltados para o Câncer Infantil.
Pautados nas orientações médicas, focamos na cirurgia devido a gravidade do caso e realmente não houve tempo para busca desse profissional. Tudo estava acontecendo de forma acelerada e então pedimos auxílio ao Neurocirurgião sobre a possibilidade de iniciar o tratamento do Lolô naquele hospital e com aqueles profissionais, ele elogiou muito aquela unidade Hospitalar, disse que estaríamos bem amparados e que eles disponibilizavam de excelente equipamento de Radioterapia.
Com a recomendação do Neurocirurgião, concordamos em dar inicio ao tratamento do Lolô naquele hospital, a Oncologista pediu a Ressonância Magnética para avaliar o quadro e marcou para nos reunirmos no próximo sábado com uma oncologista especializada no caso dele , para estabelecer diretrizes para sanar o problema.
Tranquilizando nossos corações, Lolô foi transferido para o quarto, iniciou a fisioterapia para ajuda na mobilidade. Estava cercado de carinho e denguinho dos pais, ficou radiante com a visita do seu irmão Henzo, que deixou seu coração quentinho e o quarto uma bagunça. Apesar daquele ambiente desconfortável, nossa família estava reunida outra vez , compartilhando afetos e criando memórias.
Naquele sábado tentávamos encontrar fôlego para enfrentar mais uma conversa dificílima, atravessada por um diagnóstico e um tratamento muito cruel para uma criança tão pequena.
O diálogo começa perguntando da nossa crença, naquele momento percebi a desesperança nas palavras da Oncologista, entendo que a verdade precisa ser clara e dita, mas ouvir tudo pela terceira vez era insuportável e dolorido demais, quase desumano para qualquer Família.
Como mãe, não ia me entregar e desistir, essas palavras não cabiam na minha maternidade, eu precisava expandir minha coragem, apesar de metaforicamente me sentir de asas quebradas de não conseguir proteger meu Lolô das mazelas que essa enfermidade causava no seu corpinho, eu lutaria firmemente ao lado dele nessa jornada, costurando humildemente cada passo para sua cura.
Ali naquela sala, nos debruçamos em perguntas. Como seria o tratamento? Logo ficamos sabendo que o plano de saúde do Lorenzo, não dava cobertura naquele hospital para a Radioterapia, mas como o caso dele era bem grave a Oncologista iria enviar uma documentação pedindo autorização, para que realizasse aquele procedimento no hospital ainda internado, já que aquela unidade Hospitalar disponibilizava de excelentes equipamentos de Radioterapia.
A Oncologista continuou dizendo que Lolô precisaria ficar internado para fazer o planejamento da Radioterapia e seu caso seria encaminhado para um especialista , um Rádio-oncologista, que é o médico responsável por avaliar o paciente, prescrever a dose de radiação e planejar todo tratamento, trabalhando junto a uma equipe de físicos médicos.
Ao terminar o encontro, a oncologista receitou um Corticóide muito agressivo, que tinha como função reduzir o inchaço do edema cerebral associada a tumores. Mas essa medicação iria causar efeitos colaterais significativos no Lolô como: aumento do apetite , ganho de peso, retenção de líquidos, inchaço especialmente no rosto, irritabilidade, baixa imunidade entre outros.
Tristemente não poderíamos evitar aquela medicação, era o que estava disponível para seu tratamento.
Mais uma vez, machucados pelo diagnóstico tínhamos ainda as demandas burocráticas, aquela espera angustiada esmagava nossos corações, desejávamos dar inicio ao tratamento o quanto antes.
Minha maternidade parecia bagunçada por aquela conjuntura, meu pequeno Lorenzo internado pausando sua infância para iniciar uma luta pela sua vida, Henzo aos cuidados da Vovó, meu coração também ficava apertado, porque ele sentia nossa falta e naquele momento eu não conseguia maternar com plenitude porque meus amores precisavam ficar separados.
Dois dias depois daquele encontro, conhecemos o Radio- oncologista, fomos bem acolhidos e amparados por esse especialista. Ele fez questão de explicar que ele era o responsável para criar um mapa exato para atacar o tumor, protegendo os órgãos saudáveis. E continuou detalhando as etapas para realização da Radioterapia.
Lorenzo iria precisar fazer uma nova Ressonância Magnética no próprio Hospital, para ser calculado a quantidade de radiação e de sessões, e uma equipe iria criar um molde para fazer uma máscara para o Lorenzo usar na Radioterapia (para manter o local parado para a radiação) e ao término disse que Lorenzo precisaria ser sedado antes das sessões devido a localização. Meu Deus, minha maternidade estava reduzida a minha incapacidade de não poder recusar aquele tratamento tão penoso para uma criança que vivia sua meninice feliz.
Termino este capítulo com uma tristeza silenciosa, minha competência de maternar parecia ancorada na inutilidade, aquela espera da autorização era penosa demais, eram dias de muita resiliência emocional, era necessário reformular minha coragem e esperança acreditando que a ferramenta de cura estava a caminho.



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