Da laje ao viral: drones na Rocinha impulsionam faturamento de guia turístico em até 40%

O guia de turismo Carlos Alberto Soares da Silva, 37 anos, fundador da agência Betour, registrou um aumento de até 40% no faturamento do seu negócio entre o final de 2025 e o início de 2026 após vídeos panorâmicos feitos com drone nas lajes da Rocinha, no Rio de Janeiro, viralizarem nas redes sociais. A operação, que consiste em captar imagens aéreas de turistas em terraços da comunidade, gerou uma demanda que resulta em filas de espera de até duas horas, atraindo clientes de diversas nacionalidades e transformando uma propriedade familiar no centro de um ecossistema de turismo local.
Segundo o G1, a busca pelas lajes da Rocinha tem gerado forte demanda entre brasileiros e estrangeiros, com destaque recente para turistas portugueses e israelenses. Os visitantes chegam a pagar R$ 200 pelo registro. A procura alcançou a imprensa internacional, com menções no jornal argentino La Nación sobre a estratégia das cadeiras posicionadas na beira dos terraços. A influenciadora Lindsay, da Nova Zelândia, relatou ao portal ter aguardado mais de uma hora na "portinha da Rocinha" para pagar pelas imagens, afirmando que repetiria a experiência.
"Todo mundo me conhece como Beto, mas hoje em dia é muito Betour, porque acrescentei o 'u' e o 'r' no final, que é o nome da empresa que uso para atender os clientes", afirma. A partir deste ponto da trajetória profissional, Soares consolidou sua atuação na região.
A origem no turismo e os primeiros voos
O contato de Soares com o setor começou em 25 de setembro de 2011, quando atuava como motorista de uma agência. Após receber uma proposta para atuar de forma independente, passou a oferecer passeios na porta de hotéis. A entrada no audiovisual ocorreu anos depois. "Em 2014, eu tinha muita vontade de ter um drone e já comentava com a minha esposa para oferecermos vídeos aos turistas, mas a realidade era outra, não tinha condições", relata o empreendedor.
A primeira aquisição ocorreu em 2018, com um equipamento de entrada. Os primeiros registros foram feitos na laje Porta do Céu, com clientes do Panamá, e no restaurante Mirante Rocinha. Após uma pausa forçada pela pandemia, o equipamento quebrou em uma queda em 2022. Incentivado por um colega, Soares comprou um novo aparelho, marcando a transição definitiva de sua carreira.
O formato que gerou o atual volume de engajamento nasceu em 2023, durante um passeio com duas fotógrafas de Recife. "A ideia foi bem maluca. Estávamos na laje Porta do Céu, elas iam fazer fotos, e eu sugeri: 'Abre aquela porta ali, vem entrando, e eu vou puxando o drone para trás'. Dali surgiu aquele vídeo", conta Soares.
Na mesma época, o empreendedor registrou um vídeo no Paredão do Mirante Rocinha, com a inscrição "Bem-vindo à Rocinha" ao fundo. O conteúdo chamou a atenção do dono do espaço e criador do aplicativo Na Favela Turismo. "Ele perguntou se eu não queria trabalhar com eles. Como já tinha meu trabalho, não aceitei a divisão direta, mas ajudei indicando onde comprar os equipamentos e dando suporte. Hoje eles têm uma equipe formada, mas sempre me têm como referência", diz.
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Estrutura de custos e equipamentos
Para operar o negócio, Soares investe em tecnologia audiovisual. O acervo da Betour conta atualmente com três drones (um DJI Avata 2, um DJI Air 3S e um DJI Mavic 4 Pro), além de câmeras fotográficas e uma Insta360. "Se colocar no preço do Brasil, passa dos R$ 100 mil de investimento", detalha. A manutenção dos aparelhos reflete no preço do serviço cobrado diretamente pela agência, fixado hoje em R$ 150 por pessoa para a captação do vídeo na laje.
A qualidade das imagens levou Soares a diversificar a cartela de clientes. Durante o Carnaval 2026, o empreendedor foi contratado para a cobertura oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro. "99% das imagens de drone que apareciam no Instagram e TikTok da prefeitura eram minhas", relata.
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O aumento de 30% a 40% na receita exigiu uma divisão de tarefas. Enquanto Soares opera os equipamentos, guia os grupos e edita os vídeos, sua esposa gerencia o faturamento e o atendimento. O irmão do guia também integra a equipe, que conta com cinco pessoas fixas e o apoio de freelancers.
O modelo de negócio envolve o comissionamento dos proprietários das lajes. O principal ponto de gravação, a Porta do Céu, pertence à família de Soares — administrada por sua prima após o falecimento de um tio no ano passado. O empreendedor também utiliza outros terraços, como Portal Jonas Brasil, Vista Show e Bela Vista.
"Uma parte do valor que recebo é comissionado. Vamos colocar aí 10% para o dono da laje. Temos também a taxa do aplicativo. Acaba que, para mim, sobram uns 50% a 60%", explica o guia.
A operação local é padronizada pelo aplicativo Na Favela Turismo. A plataforma exige cadastro dos guias, monitora a quantidade de turistas, horários e rotas. "Esse aplicativo veio há um ano e meio e deu uma 'hypada' bacana. Houve muita melhoria. Resgataram pessoas que estavam desempregadas para atuar como monitores, oferecem curso de guia e de idiomas cem por cento pago. É um dos motivos da viralização e do boom na internet", analisa Soares.
O perfil da Betour atingiu 188 mil seguidores. O empreendedor conta que investiu em tráfego pago apenas até alcançar a marca de 6 mil seguidores, optando depois por focar na edição dos vídeos. O resultado ultrapassou as fronteiras nacionais. "Teve cliente do Chile que me enviou vídeo de pessoas imitando o formato lá. Hoje me mandaram um de uma fazenda, onde um garotinho anda numa ponte e o drone se afasta. Várias pessoas estão pegando o modelo pelo mundo", diz.
A exposição digital mudou o perfil demográfico da agência, atraindo clientes entre 25 e 50 anos, majoritariamente casais, e turistas de locais inéditos, como uma visitante de um país vizinho à Tailândia. A internet também reduziu a sazonalidade característica do turismo. Meses tradicionalmente de baixa procura, como março, passaram a registrar volumes equivalentes aos de janeiro e fevereiro.
O fluxo diário é contínuo. "Hoje eu saí de casa às 3h30 da manhã. Atendi 10 pessoas no Cristo Redentor e, à tarde, 11 na Rocinha. Mas já cheguei a atender grupos de 30 a 50 pessoas", contabiliza. A alta demanda, no entanto, exige alinhamento de expectativas.
"O povo pede muito a Porta do Céu, e eu sou sincero: 'A gente consegue fazer, mas como está o seu tempo?'. Porque está levando duas horas de espera para fazer um vídeo de 30 ou 40 segundos, o que pode atrasar o cronograma do turista", alerta o guia.
Para 2026, os planos de Soares incluem aumentar o quadro de funcionários fixos e implementar um novo projeto mantido em sigilo para a Rocinha. O empreendedor também atua como mentor informal para jovens da comunidade e planeja expandir o ensino. "Gosto de ver a favela evoluir. Vejo a molecada nova que faz um trabalho bonito lá e muitos me têm como o 'zero um' deles. Falei com um colega do Chapéu Mangueira que tem um projeto e estou disposto a pegar essa molecada e botar para voar e entender o que é a profissão do drone", conclui Soares.





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