“Você contaria seus segredos para uma IA?” Especialistas alertam para risco invisível no uso de ferramentas digitais
Com o avanço acelerado da inteligência artificial no Brasil, cresce a preocupação com plataformas que coletam dados pessoais sem estrutura mínima de segurança
Dr. Danilo Melo - Advogado especializado em direito digital, direito do consumidor, contratos, direito societário e proteção de dados (LGPD). A inteligência artificial entrou de vez na rotina dos
brasileiros. Está no trabalho, nos estudos, nos cursos online, no atendimento,
nas mentorias e até em conversas pessoais. O problema é que, enquanto milhões
de pessoas usam essas ferramentas todos os dias, poucas realmente sabem para
onde suas informações estão indo. E o risco pode ser muito maior do que parece.
Segundo a pesquisa “Our Life with AI: From Innovation to
Application”, realizada por Google e Ipsos em 2025, 54% dos brasileiros já
utilizam ferramentas de inteligência artificial, índice acima da média global.
O problema é que a adoção cresce muito mais rápido do que a conscientização
sobre privacidade e proteção de dados.
Na prática, isso significa que documentos, conversas
privadas, estratégias de empresa, exames médicos e informações pessoais podem
estar sendo enviados para sistemas sem segurança adequada.
“As pessoas não têm noção dos riscos. Não sabem que muitas
IAs utilizam suas informações para melhorar suas funcionalidades. Mas o mais
perigoso são as IAs criadas por pequenas empresas, que capturam informações sem
possuir qualquer proteção contra vazamento de dados e sem sequer terem
protocolo para lidar com esses incidentes”, alerta o advogado Dr. Danilo Melo.
O maior risco não é o hacker
Ao contrário do imaginário popular, o principal problema hoje
não é um ataque cinematográfico de hackers invadindo sistemas ultrassecretos.
“O maior risco hoje não é ‘hackers invadindo a IA’. É a combinação de coleta
excessiva de dados, uso informal de ferramentas de IA, integração mal
configurada e ausência de governança jurídica mínima.”
Segundo o especialista, esse cenário se tornou especialmente
comum no mercado de cursos online, infoprodutos e plataformas digitais, onde
novas ferramentas surgem todos os dias prometendo produtividade e
personalização.
Entre os riscos mais críticos observados atualmente, ele
destaca:
●
vazamento
de conversas e documentos enviados para IA;
●
acesso
excessivo da IA às ferramentas da empresa;
●
exposição
de dados entre usuários da própria plataforma;
●
deepfakes
e clonagem de identidade;
● além de funcionários utilizando IA
sem qualquer política interna de segurança.
O problema se agrava porque muitas dessas plataformas são
criadas rapidamente, em alguns casos por pessoas sem experiência técnica em
desenvolvimento ou segurança digital.
A nova febre do “vibe coding”
O crescimento do chamado “vibe coding”, prática de criar
softwares com ajuda de inteligência artificial mesmo sem saber programar,
acelerou ainda mais esse cenário. Hoje, qualquer pessoa consegue lançar uma
ferramenta digital conectada a WhatsApp, Google Drive, e-mail ou redes sociais
em poucas horas. O problema é que coletar dados ficou muito mais fácil do que
protegê-los.
“O consumidor deve desconfiar quando a plataforma pede dados
demais sem necessidade, não explica claramente como usa as informações, não
possui política de privacidade transparente ou sequer identifica quem é
responsável pela empresa”, afirma Danilo.
Outro ponto de alerta são as integrações excessivas. “Quando
uma IA pede acesso ao e-mail, WhatsApp, Google Drive e redes sociais ao mesmo
tempo, isso pode significar acesso praticamente completo à vida digital do
usuário.”
A falsa sensação de conversa privada
Para o advogado, existe hoje um problema ainda mais profundo:
as pessoas tratam a inteligência artificial como se estivessem conversando com
alguém de confiança.
“Na maioria das vezes, não existe consciência real sobre
privacidade. As pessoas usam ferramentas de IA com sensação de conversa
privada, quase como um assistente pessoal confidencial, sem compreender
exatamente como aqueles dados podem ser armazenados, processados,
compartilhados ou utilizados futuramente.”
E isso já acontece em ambientes profissionais.
“Muitas vezes, contratos, exames, documentos corporativos e
conversas sensíveis são enviados sem que o usuário saiba se aquelas informações
serão retidas, usadas para treinamento de modelos, acessadas por terceiros ou
expostas em falhas de segurança.”
Segundo ele, hoje existe “um nível de conveniência muito
maior do que o nível de consciência sobre privacidade e proteção de dados”.
A lei existe, mas corre atrás da
tecnologia
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece
regras sobre coleta, armazenamento e uso de informações pessoais. Em teoria,
empresas são obrigadas a informar como utilizam os dados e proteger essas
informações.
Mas a velocidade da inteligência artificial está deixando o
sistema jurídico para trás.
“A LGPD ainda é suficientemente ampla para se aplicar às IAs
modernas, mas a velocidade de evolução da inteligência artificial está muito
acima da velocidade regulatória, jurisprudencial e operacional do ecossistema
jurídico brasileiro.”
Segundo o advogado, a legislação consegue alcançar boa parte
dos problemas atuais, mas ainda não resolve com precisão diversas zonas
cinzentas relacionadas à IA generativa.
Enquanto isso, milhões de consumidores continuam entregando
dados pessoais diariamente, muitas vezes sem saber quem está recebendo,
armazenando ou utilizando essas informações.
E o alerta do especialista é direto: quanto mais fácil a IA
fica, mais difícil pode ser recuperar o controle sobre os próprios dados.
ESPECIALISTA
Dr. Danilo Melo - Advogado especializado em direito digital,
direito do consumidor,
contratos, direito societário e proteção de dados (LGPD). OAB-SP 321.388.




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