Como Camila Pudim transformou hobby 'precário' em negócio e bate recordes na internet

No mercado de influenciadores digitais, o topo da audiência costuma ser associado a picos de engajamento que desaparecem com a mesma velocidade com que surgiram.
Reter a atenção do público por mais de uma década e transformar visualizações em ativos comerciais sustentáveis é o desafio que move a criadora de conteúdo Camila Martins, 30 anos, conhecida no ambiente digital como Camila Pudim.
À frente de uma operação que consolida mais de 48 milhões de seguidores em suas plataformas, Martins converteu a relevância na internet em uma engrenagem empresarial que fatura com publicidade de grandes marcas, financia a Pudim Beauty — sua marca própria de cosméticos nacionais — e a posiciona como sócia da Non Stop, holding de agenciamento artístico.
A transição do que era um hobby para o Simples Nacional exigiu mais técnica do que sorte. Martins iniciou a produção de vídeos em 2013, aos 17 anos, em Goiânia (GO), dividindo a rotina entre o trabalho de Jovem Aprendiz no Detran e os estudos.
Em 2014, ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Foram seis anos conciliando a faculdade pública em período integral com a criação de conteúdo orgânico.
"Minha jornada com a internet foi lenta. O tempo era algo complicado e a estrutura de criação era precária. Eu não tinha equipamentos, conhecimento de audiovisual ou condição financeira para investir em maquiagens ou iluminação", relembra Martins.
A graduação em Arquitetura, embora distante do ecossistema de beleza, moldou a visão de gestão da empresária. A formação técnica é apontada por ela como a base para o planejamento dos seus projetos atuais. "O curso trabalha muito o criativo com o executivo. Você cria pensando em como construir. Esse exercício de fazer as ideias tomarem forma me ajuda hoje na parte de estruturação e execução dos vídeos", afirma Martins.
O custo e a estrutura do engajamento sustentável
A profissionalização do negócio ocorreu em 2020, logo após a conclusão da faculdade. Martins investiu o dinheiro acumulado com a monetização do YouTube em seu primeiro estúdio físico e contratou colaboradores.
A decisão foi estratégica para garantir constância em um mercado saturado pelo isolamento social da pandemia. Para a empresária, a estabilidade de um criador depende de uma produção replicável e previsível, capaz de atender às demandas comerciais imediatamente após um conteúdo viralizar.
"Não adianta viralizar hoje e 'flopar' por três meses; isso não traz sustentabilidade financeira nem de audiência. Se um vídeo meu viraliza, na semana seguinte as marcas querem entrar comigo naquele formato. Se eu não tiver estrutura para replicar, o negócio não se sustenta."
A operação do núcleo criativo é enxuta, composta por quatro pessoas fixas, incluindo o diretor e editor de vídeo Lucas Xulim, marido da influenciadora. A equipe trabalha com um planejamento executivo de 30 dias de antecedência, organizando roteiros, parcerias e campanhas comerciais.
O nível técnico das produções cresceu à medida que o faturamento aumentou. Se no início da carreira Martins utilizava cola quente para confeccionar os próprios figurinos, hoje o processo envolve a contratação de especialistas terceirizados para cenografia, perucaria e moda. Um projeto sazonal focado na Copa do Mundo, por exemplo, demandou 20 dias de pré-produção e envolveu mais de 20 prestadores de serviço.
Esse rigor técnico permitiu que a marca gerasse picos globais de audiência. Em 2024, Martins venceu a categoria "Vídeo do Ano" no TikTok Awards com a produção Asoka Makeup. O vídeo de maquiagem artística somou 600 milhões de visualizações, tornando-se uma das dez publicações mais assistidas da história da rede social e o único conteúdo brasileiro no ranking global. No Instagram, o mesmo formato ultrapassou 64 milhões de visualizações.
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A diversificação do portfólio: cosméticos e agenciamento
A maturidade digital permitiu que Martins atraísse o mercado corporativo tradicional. Em 2024, a criadora realizou campanhas publicitárias para 45 marcas de setores como alimentos, varejo, beleza e tecnologia, incluindo empresas como Fanta, Avon, Magazine Luiza e Mercado Pago.
O preço de cada contrato é calculado com base na complexidade técnica da entrega e no objetivo da marca, e não apenas no volume bruto de visualizações. "Uma produção que antigamente me custava R$ 2 mil, hoje pode custar R$ 20 mil ou R$ 25 mil. As marcas entendem que, para ter um vídeo com esse nível de posicionamento, o custo é mais elevado", explica Martins.
A dependência exclusiva do mercado de publicidade, no entanto, gerava uma rotina de trabalho exaustiva, com semanas em que a influenciadora dormia cerca de quatro horas por dia.
Para construir fontes de receita que independam da sua exposição física diária na internet, Martins iniciou há três anos o planejamento da Pudim Beauty, marca nacional de maquiagem vegana lançada em setembro de 2025. A sede da empresa foi fixada em São Paulo (SP), motivando a mudança da empresária para a capital paulista.
O lançamento da marca própria utilizou a audiência das redes sociais como canal de conversão direto. Em uma transmissão ao vivo realizada no TikTok Shop, a Pudim Beauty quebrou o recorde de vendas em uma live na América Latina.
Estande da Pudim Beauty durante feira do setor de beleza; marca criada por Camila Pudim conta atualmente com três produtos no portfólio
Divulgação
Atualmente com três produtos em catálogo, a marca é gerida como uma unidade de negócio independente que ainda recebe aportes financeiros e de mídia da operação principal. O portfólio reúne blush cremoso multifuncional, gloss e lip oil. Os produtos são comercializados no e-commerce da empresa e em pontos de venda selecionados.
Em paralelo ao varejo de cosméticos, Martins expandiu sua atuação para os bastidores do marketing de influência. Recentemente, ela ingressou como sócia e mentora na Non Stop, holding que gerenciava sua carreira há seis anos.
A meta da empresária para os próximos cinco anos é consolidar a estrutura logística da Pudim Beauty e atuar no desenvolvimento estratégico de novos criadores de conteúdo no mercado nacional. "Minha jornada foi lenta. Demorei três anos para ver o primeiro dinheiro cair na conta e abrir meu MEI, em 2016. Só no final de 2020 consegui evoluir para o Simples Nacional. Cheguei aqui porque decidi ter perseverança e não desistir", conclui Martins.
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