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Belo Horizonte,09/06/2026

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Olê, homem rendeiro

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Olê, homem rendeiro

Ao lado da gastronomia, o artesanato e a arte movimentam o turismo. Em Piranhas, Alagoas, estão por todos os lados. Em peças de barro e cerâmica, no couro de boi, bode ou tilápia, incrustadas nos tecidos. Entremontes, povoado ribeirinho que surgiu antes da cidade propriamente dita, é conhecida como a Capital do Bordado. 


Foi Maria Gogó, a avó de Miguel Correia, único homem bordadeiro do local, a precursora da atividade no lugarejo batizado por Dom Pedro II. Ela também dá nome ao restaurante que Miguel toca ao lado da família, com gastronomia típica e ancorada nos peixes do rio, avistado de perto por quem ocupa as mesas da calçada. Ali, o guardanapo e o porta-talher levam imagens da piranha, o peixe voraz, frases de músicas, muitas cores, as casas tradicionais da região. Tudo elaborado por ele, a mãe, Fátima Correia, a irmã, Madalena Correia, e colaboradoras, na Entre Artes.


O menino que bordava embaixo da mesa vem levando o bordado típico (sendo o principal o rendendê) para outras bases, formatos e até países. Foi dele a vestimenta que o músico pernambucano João Gomes utilizou em um show em Portugal, nas últimas semanas. Confira o meu papo com Miguel Correia!


Bordadeiro Miguel Correia. Foto: Kayak Organa
Bordadeiro Miguel Correia. Foto: Kayak Organa


Você começou a bordar quando e por quais motivos? Como foi seu processo de aprendizado?


Eu comecei a bordar ainda criança, com uns sete anos. Eu ficava observando minha avó e minha mãe bordarem, o atrito da agulha e da linha com o tecido. O rendendê tem essa característica de ser mais geometrizado, então você fica vidrado mesmo, prestando atenção. Eu fui identificando suas principais características, o cálculo, a paciência, e comecei a pegar os bastidores e a bordar embaixo da mesa. 


Eu sou autodidata, mas com a ajuda da minha avó. Ela sempre foi minha incentivadora, assim como minha mãe. Desde cedo, eu já dava pitacos, mas não bordava sempre. Saí de casa pra estudar Direito e, quando retornei, na pandemia, comecei a bordar de fato. Passei a criar quadros e palavras, trazendo o rendendê numa perspectiva diferente do que a gente tinha, junto a novas técnicas, pensando mais no colorido, na moda autoral, na arquitetura, na sua versatilidade, fugindo da cama, mesa e banho, indo para outros mundos. 


Como o João Gomes chegou até você, à coleção de São João?


Uns amigos em comum apresentaram a marca a ele. A princípio, era só uma camisa, mas a esposa dele também gostou e decidiu se produzir com a gente. A surpresa foi que, quando chegaram as peças, ele de fato gostou muito do nosso trabalho, nos marcou nas redes sociais e vai vestir outras roupas que a gente mandou. 


O João Gomes é uma figura inspiradora. E há uma relação na forma como a gente faz nossas escolhas profissionais – eu, no artesanato, ele, na música –, de manter as raízes, o gosto pelo que é nosso e nos pertence. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. É uma sensação de muito orgulho do meu trabalho, que vem da minha família. Vestir um dos maiores nomes do Brasil e acessar esses espaços é sensacional.


Acessar esses espaços é enxergar que é possível, aqui do interior, com todas as nossas limitações, fazer arte e moda, levar o que a gente produz de bonito mundo afora. É mais um combustível para que a gente não desista e continue lutando para que a bordadeira, o bordadeiro, o artesão, seja levado para os palcos e as passarelas – e que ocupe esses espaços, não como coadjuvantes, mas como protagonistas. O nosso trabalho consiste nisso. Eu me orgulho de ter alcançado esse feito, mas mais por ajudar pessoas que estão aqui há mais tempo que eu, pessoas que me ensinaram, que não pararam e que resistiram, apesar de todas as dificuldades. 


Peça da Entre Artes, marca alagoana. Foto: Antonio Rodrigues
Peça da Entre Artes, marca alagoana. Foto: Antonio Rodrigues


Qual é a importância da conexão com Entremontes, de manter a loja ativa no povoado?


Desejamos, sim, ser uma marca com alcance internacional, mas manter a conexão com Entremontes é manter viva a essência de tudo que nós somos. É de Entremontes que vem nossa história, onde a gente se inspira, de onde vem nossas referências. E também é aqui que essas mãos transformam matéria-prima em arte. 


Ter a loja ativa vai muito além da questão do espaço físico, é uma forma de valorizar nossa cultura, fortalecer a comunidade e de mostrar que o bordado pode alcançar o mundo sem que a gente perca nossas raízes. Toda peça, da menor à maior, da mais barata à mais cara, carrega consigo um pedaço da nossa terra, da nossa história, da nossa essência, do nosso povo, das bordadeiras. Permanecer em Entremontes é resistir – até porque quem faz arte resiste –, mas acima de tudo é reafirmar que no Sertão, no interior, num povoado de 700 habitantes, a gente produz arte, beleza e é potência. Reafirmar isso diariamente é essencial.


@entreartes_bordados 


 


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