Habilidades que o ambiente corporativo não ensina: o que seis fundadoras aprenderam sendo mães no ecossistema de inovação

A chegada de Lara, filha de Tatiana Pimenta, fundadora da Vittude, foi muito planejada: em 2019, enquanto conversava com investidores para captar a rodada seed da HRTech, a empreendedora tomou a decisão de congelar os óvulos. “Eu sabia que os anos seguintes exigiriam muita dedicação para fazer a empresa crescer e entendi que a maternidade provavelmente precisaria ser adiada”. Sete anos depois, aos 44, ela se tornou mãe pouco antes de a startup completar uma década. A decisão, ela diz hoje, foi uma das mais acertadas da vida.
A história de Pimenta evidencia algo que os fundadores homens não precisam levar em consideração no momento de pisar no acelerador e escalar suas startups. Para o Dia das Mães, PEGN ouviu fundadoras de startups sobre como a maternidade mudou a forma de liderar, os desafios reais de empreender sendo mãe e o que o ecossistema ainda precisa aprender sobre o tema.
Tatiana Pimenta, da Vittude
Divulgação/Nicolas Siegmann
Mariana Dias, CEO e cofundadora da Gupy e mãe da Liz, opina que, apesar dos avanços nas conversas sobre diversidade, flexibilidade e equidade, o ecossistema de inovação ainda está desenhado em torno de uma lógica de “disponibilidade infinita”. “Ainda existe uma visão implícita de que maternidade reduz velocidade ou ambição, quando, na verdade, muitas mulheres se tornam líderes ainda mais estratégicas, eficientes e resilientes depois dessa experiência.”
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Lidar com a culpa pela indisponibilidade foi um dos aprendizados de Nara Iachan, cofundadora da Loyalme. Antes do nascimento de Francisco, há 1 ano e dois meses, ela conta que estava sempre presente para resolver os problemas. “Não tenho mais como ir a todas as reuniões e eventos. Não dá para ser tão exigente e perfeccionista, é preciso confiar no time”, pontua.
Nara Iachan, da Loyalme
Divulgação
Para Vanessa Poskus, fundadora e CEO da Uppo, a maternidade aconteceu antes de empreender, mas o cenário foi semelhante. Mãe dos gêmeos Bernardo e Tadeu, de 17 anos, ela conta que já deixou de estar em eventos importantes para a empresa, mas também teve de abrir mão de momentos da rotina com os filhos. “Empreender e maternar exige renúncias constantes. Aprendi que preciso fazer escolhas alinhadas com o que importa em cada fase. A culpa não constrói nada. A consciência, sim”, declara.
Dani Junco, fundadora da comunidade materna B2Mamy e mãe do Lucas, concorda que a culpa não pode entrar na equação. “A culpa não te deixa mais rica, bonita ou uma melhor mãe. Você não pode fazer um pitch pensando no que o filho está fazendo em casa ou estar ao lado dele pensando que deveria estar preparando uma apresentação. Organize a sua jornada e a sua rede de apoio porque é uma falácia dizer que empreender possibilita passar mais tempo com o filho”, declara.
Com a experiência adquirida após 10 anos apoiando mais de 200 mil pessoas com a comunidade, ela acredita que as experiências de mães empreendedoras não diferem por seus negócios serem de base tecnológica ou tradicional. O que dificulta ou facilita a jornada é o contexto: é mãe solo? Tem condições financeiras? Tem rede de apoio?
Ensina mais do que MBA
Em comum nos depoimentos das fundadoras está a percepção de que a maternidade desenvolve habilidades que o ambiente corporativo não ensina e que fazem diferença na gestão das startups.
“Ser mãe me ensinou a tomar decisões rápidas, me adaptar constantemente e evoluir em meio ao caos. Empreender é lidar com o imprevisível e não existe treino melhor para isso do que a maternidade”, opina Poskus, da Uppo.
Vanessa Poskus e os filhos, Bernardo e Tadeu
Acervo pessoal
Para Tatiana Pomar, fundadora da hiSofi, mãe de um casal e madrasta de duas meninas, a principal habilidade adquirida foi inteligência emocional. Em meio à velocidade que a inteligência artificial trouxe, ela destaca que construir times de alta performance será um diferencial – e saber lidar com pessoas é essencial para isso.
“Todo mundo tem acesso à tecnologia, mas uma empresa deve ter cultura e pessoas boas para entregar valor aos clientes. A maternidade ensina a lapidar perfis, colocar limites, lidar com chantagem, ego, frustração. São muitas situações adversas”, afirma.
Tatiana Pomar, da hiSofi, ao lado da filha Stéphanie e da enteada Francesca
Acervo pessoal
Dias, da Gupy, tornou-se mãe ao lado da companheira, Bruna Guimarães, cofundadora e COO da HRTech, há pouco mais de um ano, em um momento de intensa expansão da startup, após M&As. A CEO afirma que a chegada de Liz trouxe mais clareza sobre o futuro. “Reforçou em mim o desejo de construir uma cultura onde diferentes fases da vida não sejam vistas como limitação de carreira. Quero ver cada vez mais mulheres ocupando posições de liderança sem sentirem que precisam escolher entre ambição e maternidade”, diz.
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Bruna Guimarães e Mariana Dias, da Gupy
Divulgação
Pimenta, que retorna da licença maternidade com a Vittude mais estruturada – com processos, lideranças e governança desenhados para funcionar sem depender de uma única pessoa – resume o que a maternidade mudou na sua visão de liderança. "A maternidade não me tornou menos ambiciosa. Pelo contrário. Ampliou meu senso de legado. Hoje, liderar também significa construir uma empresa e uma sociedade em que a minha filha possa crescer vendo mulheres ocupando espaços de decisão."
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