O vinho fora do script
Em meio a uma geração que bebe menos e escolhe melhor, a categoria dos rótulos sem álcool e desalcoolizados deixa de ser figurante e passa a ocupar o centro da conversa. A Wine South America, que acontece em Bento Gonçalves, surge como esse ponto de encontro onde o setor testa não só novos produtos, mas novas formas de existir. A distinção entre o que é zero álcool e o que é desalcoolizado parece técnica, mas diz muito sobre intenção. O desalcoolizado nasce vinho, fermenta, ganha corpo, cria memória e só depois passa pela retirada do álcool. Carrega história. Já o zero álcool muitas vezes encurta caminho, interrompe processos, entrega frescor imediato, mas com menos profundidade. O consumidor começa a perceber essa diferença e, mais do que isso, passa a valorizá-la.
É nesse terreno que a Vinoh avança com segurança. Ainda jovem, mas já com discurso claro, a vinícola chega à feira ampliando espaço e repertório. O lançamento de um espumante Brut desalcoolizado feito a partir de vinho de verdade não é apenas um produto novo, é uma afirmação. A ideia é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: manter textura, equilíbrio, sensação de celebração, mesmo sem álcool. Não como substituição, mas como outra possibilidade à mesa. Há também um cuidado em construir linguagem. A linha Oak, com passagem por barrica, mostra que não se trata de abrir mão de complexidade. Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay aparecem ali não como nomes conhecidos para conforto do público, mas como base para uma nova leitura, em que estrutura e suavidade caminham juntas.
Do outro lado, a Cooperativa Vinícola Aurora traz o peso da história para dentro dessa conversa. Com quase um século de estrada, a cooperativa entendeu cedo que esse movimento não era passageiro. Começou pelo zero álcool, ainda em chave mais simples, e agora avança para rótulos desalcoolizados que partem de vinhos finos, elevando o jogo. O Chardonnay que apresenta na feira aponta exatamente para isso: origem, identidade e um olhar mais atento para o terroir, mesmo quando o álcool já não está mais ali. O pano de fundo é um mercado que deixou de reagir e passou a propor. O chamado zero proof cresce não apenas como tendência, mas como comportamento consolidado. Não é sobre restrição, é sobre escolha. O vinho, que sempre foi símbolo de ritual, encontra nesse movimento uma maneira de continuar presente sem precisar ser sempre o mesmo.
A Wine South America funciona quase como um espelho desse momento. Entre corredores e taças, percebe-se que a discussão já não é mais se essas categorias vieram para ficar, mas como elas vão evoluir. Com centenas de marcas e produtores de diferentes países, o evento reforça um Brasil atento, curioso e cada vez mais participante nesse redesenho global.
@winesouthamerica
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