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Belo Horizonte,18/04/2026

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De padaria a funerária: pequenos negócios inundam redes com 'marketing desanimado'

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De padaria a funerária: pequenos negócios inundam redes com 'marketing desanimado'
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A trend do “marketing desanimado” ganhou as redes sociais, chegou a perfis de famosos e virou uma estratégia para a divulgação de pequenos e médios negócios — dos mais diferentes nichos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma funerária viu seu engajamento saltar após publicar, em 17 de março, um vídeo que já soma mais de 12,4 milhões de visualizações no Instagram, protagonizado por uma criança.
Na gravação, uma criança apresenta a estrutura do negócio com o tom de voz apressado e a aparente indiferença que caracterizam a tendência. “Aqui é a funerária da minha mãe. Essa é minha mãe. Aqui tem café. Aqui tem muitas capelas”, diz a menina, enquanto aponta para caixões, urnas de cinzas e coroas de flores.
Internautas se dividiram entre o encantamento com a dicção da criança e piadas sobre a natureza do serviço. "Essa é a funerária ahaha se quiser vir morrer", brincou o comediante Raphael Ghanem. Outros usuários seguiram a linha do humor ácido: "Eu vejo gente morta. Com que frequência? O tempo todo!", comentou outra, em referência ao filme O Sexto Sentido. Houve ainda quem simulasse a voz da própria criança: "Eu adorava brincar por aqui quando eu era viva", escreveu o usuário vvillarmgl90, em um comentário que alcançou mais de 96 mil curtidas.
PEGN tentou contato com a empresa, mas não conseguiu resposta até o fechamento do texto. O espaço segue aberto.
A trend começou a despontar ainda em março, mas ganhou força ao longo de abril. Um dos exemplos de grande repercussão nas últimas semanas foi protagonizado por Lucas Cardi, filho da empresária e influenciadora Maíra Cardi. Em vídeo publicado no dia 01 de abril, que já soma mais de 1,2 milhão de visualizações no TikTok, Cardi utiliza o tom blasé característico para percorrer os bastidores do grupo empresarial da mãe.
"Esse é o Mastermind da minha mãe, se quiser vir ver. Esse é o meu padrasto [o influenciador Thiago Nigro], ele é o cara do dinheiro, se quiser vir aprender", diz o jovem enquanto circula por eventos e reuniões de mentoria. No encerramento da gravação, a própria Cardi interrompe a encenação para cobrar o "CTA" (chamada para ação, na sigla em inglês), evidenciando como a brincadeira está intrinsecamente ligada às estratégias de conversão de vendas da família.
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Em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, uma padaria no Bairro Alto da Mangueira viralizou quando o filho da proprietária decidiu anunciar os produtos da casa. "Minha mãe tem uma padaria, se quiser vir ver. Temos cariocas, se quiser vir comprar. Temos sovado, se quiser vir comprar. Temos pães sovados e bolas, se quiser vir ver. Temos uma atendente também para te atender", declarou o garoto em um vídeo que acumulou milhões de visualizações.
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No setor automotivo, uma jovem viralizou com um vídeo que já soma mais de 440 mil visualizações no TikTok ao mostrar a loja de carros do pai com o mesmo desapego. No segmento de confeitaria, dezenas de empreendedoras adotaram o roteiro para exibir bolos e doces, provando que o contraste entre um produto desejável e uma apresentação “preguiçosa” é a receita atual para o algoritmo das redes sociais.
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Apesar da leveza com que o público consome o conteúdo, a estratégia levanta debates importantes sobre os bastidores da produção e o uso de menores de idade para fins comerciais.
O limite entre a brincadeira e a lei
Segundo Elisabete Rodrigues, analista jurídica e sócia do escritório Baron & Rodrigues, o uso da imagem de crianças em conteúdo comercial é permitido, mas extremamente restrito no Brasil.
"Ele precisa respeitar o direito à imagem, a dignidade e, principalmente, o princípio do melhor interesse da criança, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Na prática, isso significa que a criança não pode ser exposta de forma excessiva, vexatória ou com finalidade puramente econômica que comprometa seu desenvolvimento", explica Rodrigues.
Um ponto que costuma confundir empreendedores é a validade da autorização dos pais. Rodrigues esclarece que o consentimento dos responsáveis é necessário, mas não basta. "A legislação brasileira impõe um filtro adicional: mesmo com autorização dos responsáveis, o conteúdo precisa respeitar os direitos fundamentais da criança. Em situações com finalidade econômica, como campanhas, 'publis' ou conteúdos monetizados, pode ser exigido alvará judicial, justamente para evitar exploração indevida."
Quando vira trabalho infantil?
A linha entre uma participação pontual e o trabalho infantil artístico é definida por três pilares. Segundo Rodrigues, a exploração fica caracterizada quando há "habitualidade, organização e finalidade econômica".
"Se a criança aparece de forma recorrente, com roteiro, inserida na estratégia da empresa e contribuindo para geração de lucro, ainda que indireto, já se aproxima do chamado trabalho infantil artístico. Nesses casos, a lei exige autorização judicial e controle rigoroso das condições dessa participação", alerta a advogada.
Mesmo conteúdos bem-humorados podem ser considerados abusivos se houver exposição ao ridículo, uso de linguagem incompatível com a idade ou exploração da ingenuidade infantil para vender. "O critério central é simples: se o conteúdo prioriza o engajamento ou o lucro em detrimento do bem-estar da criança, há risco jurídico", pontua Rodrigues.
As sanções para empresas que ignoram essas diretrizes são severas, incluindo indenizações por danos morais, sanções administrativas e intervenção do Ministério Público. Para quem deseja aderir às trends, a recomendação de Rodrigues é buscar formalização: "O ideal é obter consentimento formal, avaliar a necessidade de alvará e garantir que o conteúdo preserve a dignidade. Empresas que tratam isso de forma amadora assumem um risco significativo."
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