Rio Fashion Week quer recolocar o Rio no mapa global da moda, diz Olivia Merquior

Foto: Vinícius Rocha
Depois de mais de dez anos sem uma semana de moda própria, o Rio de Janeiro volta ao calendário com a estreia da Rio Fashion Week. Para Olivia Merquior, curadora criativa do evento, o movimento não deve ser lido como uma simples volta ao passado. “Embora muitas pessoas mencionem uma ‘volta’, o que está sendo proposto é, na verdade, um evento novo, alinhado às demandas de um mercado de moda e de negócios cada vez mais internacional”, afirma.
Segundo ela, a retomada só aconteceu agora porque houve uma combinação entre projeto, contexto e operação. “Um bom projeto, aliado à reputação da IMM no mercado de grandes eventos, é um fator decisivo”, diz. Olivia afirma que a proposta parte do entendimento de que uma semana de moda pode produzir impacto para além das passarelas. “A proposta da Rio Fashion Week vai além de um evento de moda: parte do entendimento de que uma semana de moda pode gerar legado para todo o país a partir de sua cidade-sede.”
Na leitura da curadora, uma semana de moda precisa funcionar dentro de uma engrenagem maior. “Precisa ser pensada dentro de um ecossistema global que articule cultura, turismo, negócios e diálogo internacional”, explica. Ela lembra que o Rio sediou diferentes iniciativas de moda desde 2013, mas faz uma distinção clara entre esses projetos e o novo evento. “Diversos eventos de moda aconteceram no Rio de Janeiro; no entanto, uma semana de moda opera em outra escala.”
Olivia também marca distância em relação ao antigo Fashion Rio. Para ela, o intervalo de mais de uma década separa dois momentos completamente diferentes da indústria. “São mais de dez anos de hiato e, em uma década, o mundo mudou profundamente, especialmente no que diz respeito à comunicação e ao mercado”, afirma. A diferença, segundo ela, está tanto no cenário global quanto no modo como a moda brasileira passou a circular. “Hoje a moda brasileira não fala apenas para si mesma. Ela dialoga com públicos espalhados pelo mundo por meio das redes sociais.”

Foto: Vinícius Rocha
Esse novo alcance, diz Olivia, exige outra estrutura. “Se a comunicação já alcança essas diferentes esferas de desejo, é fundamental fortalecer também nossas estruturas de negócios para que se tornem mais competitivas, tanto no Brasil quanto no exterior.” Nesse contexto, a Rio Fashion Week surge com a intenção de recolocar o Brasil em diálogo com o mercado global de forma mais organizada. “Reinserir a semana de moda no calendário internacional é uma forma de permitir que o Brasil se apresente de maneira mais forte e coletiva.”
A curadora afirma que a primeira edição do evento tem como foco reabrir pontes. “Essa primeira edição da Rio Fashion Week tem como objetivo reabrir o diálogo entre a indústria de moda nacional e o mundo, com foco no que chamamos de diplomacia internacional pela moda.” Segundo ela, esse movimento é importante para ampliar o espaço da criação brasileira fora do país. “Isso é importante para que a criatividade brasileira consiga abrir outros espaços no ecossistema global.”
O line-up, diz Olivia, também foi construído para mostrar a moda brasileira em sentido amplo. “Trazemos no line-up representantes das cinco regiões do país”, afirma. A ideia é não restringir a leitura da moda à roupa. “Moda envolve imagem, comportamento, atitude, criatividade e negócios, e é preciso olhar não apenas para as marcas, mas para toda a cadeia criativa que sustenta esse mercado.”
Além dos desfiles, a programação inclui conversas e ativações que tentam aproximar a moda de outras áreas. “O RioFW traz um desfile da Adidas, assinado por Rafa Pinah, que aborda a influência da moda no esporte, como o futebol, e vice-versa.” Ela também destaca “A Nobreza do Amor”, projeto que relaciona moda e dramaturgia. “Mostra como a dramaturgia e as novelas influenciam e são influenciadas pela criação de moda no Brasil.”
A programação inclui ainda um espaço dedicado a debates, livros e pensamento. “Criamos o Espaço Saber by Senac, onde teremos conversas focadas em pensamento e uma pop-up especial da Livraria da Travessa”, diz. Para Olivia, essa construção ajuda a tirar a moda de um circuito fechado e aproximá-la de novos públicos. “O ponto principal do evento é a possibilidade de aproximar pessoas, furar bolhas algorítmicas e promover uma experiência de moda presencial, olho no olho.”

Foto: Vinícius Rocha
Ela resume essa diferença com uma imagem direta. “Eu geralmente digo que o consumo de moda nas redes sociais é como admirar um filme e seus atores, que nunca saberão da nossa existência.” A proposta da Rio Fashion Week, segundo ela, é inverter essa lógica. “Busca aproximar pessoas que já estão estabelecidas no mercado e podem abrir caminhos para talentos que precisam de espaço no ecossistema global de moda, criando oportunidades reais de conexão, de troca direta, olho no olho.”
Esse discurso também passa pela área comercial do evento. “Para finalizar, temos o salão de negócios, the Rio Showroom, considerando o equilíbrio entre a visibilidade dos desfiles e a geração de negócios”, afirma. Olivia diz que o espaço foi pensado para receber marcas e compradores internacionais em um momento estratégico para o setor. “Todos os convidados internacionais, de empresas, imprensa, compradores e articuladores, estão aqui para conhecer a nossa cultura de moda a partir do nosso território.”
A operação que a Rio Fashion Week quer colocar de pé não se resume a um calendário de desfiles. O evento nasce como plataforma para reposicionar a moda brasileira, aproximar criadores, mercado e público, e usar o Rio de Janeiro como vitrine para uma conversa internacional mais consistente.
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